O Ibovespa fechou outubro caindo com Petrobras e inicia novembro, espremido entre domingo e feriado, subindo com Petrobras (ON +3,72%, PN +2,75%). Ao final desta primeira sessão do novo mês, o índice da B3 mostrava recuperação de 1,98%, aos 105.550,86 pontos, após ter fechado a sexta-feira no menor nível desde 12 de novembro, há quase um ano. Hoje, oscilou entre mínima de 103.513,62 pontos, da abertura, e máxima de 106.135,93, da tarde, com giro a R$ 27,0 bilhões no encerramento. No ano, a perda do índice está agora em 11,31%, vindo de queda nos últimos quatro meses, de 6,74% em outubro e de 6,57% em setembro.
A falta de adesão à greve de caminhoneiros, que havia sido convocada para esta segunda-feira, foi recebida com alívio pelo mercado, retirando assim um novo fator que poderia agravar as preocupações quanto à inflação neste fim de ano. Dessa forma, o Ibovespa pôde se reconectar ao exterior positivo após ter perdido a carona em outubro, quando as referências de Nova York voltaram a renovar máximas históricas e o mercado local não conseguiu nem de longe acompanhar, pressionado pelas incertezas sobre a trajetória fiscal do País.
Na quarta-feira, depois do feriado brasileiro, a atenção estará concentrada na reunião de política monetária do Federal Reserve, com a expectativa para anúncio oficial do início do “tapering”, como é conhecida a retirada de estímulos monetários, primeiro passo no processo de redução de liquidez e de aumento do custo de crédito na maior economia do mundo, com consequências globais. Aqui, expectativa para a votação, no mesmo dia, da PEC dos Precatórios na Câmara dos Deputados, passo decisivo para viabilização do financiamento ao Auxílio Brasil.
Enquanto a quarta-feira não vem, na B3 “a queda do mês passado fez com que muitos papéis ficassem atrativos”, observa em nota a equipe de análise da Terra Investimentos. “Ainda assim, o mercado segue de olho em questões relacionadas ao risco fiscal, inflação e aumento de juros”, acrescenta.
Outro fator acompanhado de perto pelo mercado é a queda-de-braço do presidente Jair Bolsonaro com o comando da Petrobras sobre reajuste de combustíveis. Após ter criticado na semana passada o elevado lucro da empresa, e defendido que a estatal tem “papel social” a desempenhar, Bolsonaro disse hoje, em Roma, que a semana será de “jogo pesado” com a Petrobras, sem detalhar qual seria a estratégia do governo.
Ele disse ter sido informado, de forma extraoficial, que a Petrobras fará novo reajuste nos preços dos combustíveis dentro de 20 dias. “Isso não pode acontecer”, afirmou Bolsonaro sobre o novo aumento. “Ideal, falei com Paulo Guedes ministro da Economia, é partirmos para privatizar a Petrobras”, afirmou Bolsonaro.
Apesar da fala de Bolsonaro sobre a Petrobras, o dia foi de recuperação bem distribuída pelos setores e empresas de maior peso, todos no azul na sessão, inclusive empresas públicas, como BB ON (+2,28%). Os papéis de varejistas também avançaram em bloco, com destaque para Magazine Luiza (+4,53%), Americanas ON (+5,12%) e Via (+8,13%).
“Os varejistas foram muito impactados recentemente pelos juros e inflação, assim como a questão fiscal e o temor com a greve dos caminhoneiros, que acabou tendo pouca adesão. Hoje, com o clima mais favorável por aqui e no exterior, investidores aproveitaram para fazer posição, porque entendem que essas ações estão baratas e têm bons fundamentos”, diz Gustavo Bertotti, economista da Messem Investimentos
“Semana mais curta e com os investidores ainda digerindo as perdas de outubro. O mercado está muito dividido sobre o que esperar da Bolsa em novembro, essa é a realidade: os resultados corporativos até têm vindo bem, mas o caos político e o custo Brasil, que vem se elevando pela perspectiva monetária brasileira, têm prejudicado a precificação da Bolsa, onde ela está e até onde pode chegar”, diz Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos.
Para Braulio Langer, analista da Toro Investimentos, a recuperação ensaiada hoje pelo Ibovespa numa véspera de feriado, em que o volume costuma ser mais fraco, não chega a “emocionar”. “Graficamente”, ainda é provável que o Ibovespa venha a testar a região dos 100 mil pontos, diz Langer. “E dependendo da velocidade, se chegar lá e romper, pode ir aos 93 mil pontos”, correspondente ao suporte seguinte, acrescenta o analista da Toro.
Na ponta do Ibovespa nesta segunda-feira, destaque para forte recuperação em Banco Inter (Unit +19,18%, PN +18,40%), à frente de Cogna (+12,90%), Méliuz (+10,57%), Azul (+8,97%) e Gol (+8,37%). O avanço das ações do Inter foi puxado pelo anúncio de que o Nubank, seu principal concorrente digital, distribuirá BDRs para clientes após a realização de IPO na Bolsa de Nova York (Nyse). Na face oposta do índice, JBS (-4,84%), Marfrig (-4,00%), CCR (-2,80%) e Assaí (-2,03%).
Entre os grandes bancos, os ganhos chegaram a 5,26% (Unit do Santander) nesta segunda-feira, em dia também positivo para Vale ON (+0,99%), mas misto para siderurgia (CSN ON +1,62%, Usiminas PNA -1,13%, Gerdau PN -1,12%).
Cenário doméstico e externo confluem nesta segunda-feira, 1º, para um dólar fortalecido ante o real. Se lá fora a proximidade da consolidação da retirada de estímulos – o tapering – pelos EUA, que deve ser anunciado na quarta-feira, fortalece a divisa americana ante emergentes, aqui dentro uma perspectiva de pós-feriado tumultuado coloca pressão sobre o câmbio. Além da ata do Comitê de Política Monetária (Copom), a próxima quarta-feira deve ser marcada ainda pela tentativa de votação da PEC dos precatórios – que abre espaço no teto de gastos para o Auxílio Brasil – no plenário da Câmara dos Deputados. As diversas variáveis de incerteza somadas à baixa liquidez e cautela pré-feriado levaram o dólar a subir 0,42% sobre o real e encerrar o dia em R$ 5,6700.
“Tem feriado amanhã, o mundo continua trabalhando e a agenda é pesada nessa semana”, pontua o diretor da Correparti, Ricardo Gomes da Silva. Além da ata do Copom, votação da PEC e anúncio do ‘tapering’, ele ressalta a decisão monetária do Banco da Inglaterra (BoE) e o payroll americano lá fora e, internamente, o risco de greve dos caminhoneiros, apesar da fraca adesão vista nesta segunda-feira – ele pondera que não é possível ainda retirar esse risco da lista. Na máxima do dia, o dólar chegou a R$ 5,6891 (+0,76%). Na mínima, foi a R$ 5,6228 (-0,41%).
Após o feriado de Finados amanhã, os investidores aguardam por mais sinalizações sobre a condução da política monetária na ata do Copom, que será divulgada pelo Banco Central na quarta-feira no início da manhã. Na última reunião, na semana passada, o Copom anunciou um aperto adicional no ritmo de alta da Selic. Em vez do aumento de 1 p.p já sinalizado anteriormente, aumentou a taxa em 1,5 p.p, com sinalização de novo ajuste nas mesmas dimensões para a próxima reunião. A decisão, ainda que já esperada pelo mercado, gerou uma corrida por revisões em relação à Selic no fim do ciclo de ajuste e, ainda, nas previsões para o crescimento brasileiro.
A mudança no ritmo do Copom ocorreu após o aumento dos riscos fiscais com o imbróglio do ajuste no teto de gastos negociado pelo governo para fazer caber um Auxílio Brasil turbinado até dezembro de 2022. O desenrolar desse tópico também deve se dar nessa semana, uma vez que a votação da PEC dos Precatórios, que viabiliza o Auxílio Brasil e a mudança no teto, está marcada para ocorrer também na quarta-feira. Os investidores monitoram a corrida do governo para conseguir maioria para a votação – que exige 308 votos favoráveis e já se mostrou desafiadora na semana passada.
“Há algumas indicações de líderes se movimentando fortemente para ter quórum, mas todo mundo sabe que é difícil em semana de feriado. Semana passada já mostrou que o assunto não está tão aceito por parte da Câmara como era esperado pelas lideranças”, comentou o estrategista da Modalmais, Felipe Sichel.
Há um entendimento no mercado de que a alteração no teto dissolve uma âncora fiscal importante para o país e atrapalha a credibilidade. Mas Sichel aponta que, no cenário atual, a possibilidade de não se votar a PEC traz ainda mais incertezas. Isso porque o governo não parece disposto a largar mão do auxílio turbinado. “O que vimos é que vão tentar achar alternativas e as alternativas que estão sendo ventiladas parecem ser piores. Talvez a PEC seja a solução menos danosa”, completou.
Silva, da Correparti, emenda que o mercado monitora as outras propostas alternativas ao formato desenhado pelo governo, sobretudo se o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), vai mesmo apresentar alguma outra saída. “O mercado já precifica uma derrota do governo nesse processo todo. Se a derrota não vier via Câmara, virá via Senado”, disse, completando: “O programa vai sair, o problema é exatamente esse. Se o governo não vai tirar dos precatórios, vai tirar de onde?”.
As incertezas domésticas e o aumento do risco fiscal ocorrem em um momento delicado para emergentes, à medida em que o Federal Reserve (Fed) deve anunciar também na quarta-feira a decisão de retirada gradual de estímulos monetários da economia, um processo conhecido como tapering e que antecede a efetiva normalização das taxas de juros americanas.
A expectativa em relação ao tapering fortaleceu o dólar em relação a moedas emergentes nesta segunda-feira, à medida em que o movimento americano aumenta os riscos de uma fuga de capital. Assim, a divisa americana tinha alta frente à maior parte das moedas emergentes, à exceção da lira turca e do peso chileno. Tinha alta firme, contudo, em relação ao rublo (+0,92% às 16h27), ao rand sul africano (+0,86%) e, sobretudo, ao peso mexicano (+1,35%). O índice DXY, que mede o dólar em relação a uma cesta de moedas fortes, contudo, tinha queda de 0,26% às 17h24.
Conforme mostrou o Broadcast, esse movimento de fuga de capital deve ser pior entre os emergentes que se descontrolaram com o fiscal durante a pandemia e não conseguiram ainda colocar as contas em dia. Com a conta corrente mais organizada do que em 2013, ano do último tapering, o risco fiscal acaba sendo o principal risco entre os emergentes.
Depois de um avanço bem forte pela manhã, sob impacto da piora das expectativas de inflação reveladas pelo Boletim Focus e da valorização mais aguda do dólar, que chegou trabalhar na casa de R$ 5,68, as taxas dos principais contratos de juros futuros passaram por uma acomodação ao longo da tarde. Ainda assim, encerraram a sessão desta segunda-feira, véspera do feriado do Dia de Finados, em alta firme. Além do dólar e dos yields dos Treasuries para cima, o aumento dos prêmios de risco, já esticados, reflete a cautela com a questão fiscal, diante da expectativa pela votação da PEC dos Precatórios na quarta-feira – dia mercado também pela divulgação da ata do Copom e pela reunião do Federal Reserve, que deve anunciar o início da retirada de estímulos monetários (tapering).
Analistas ressaltam que a perspectiva de que o Banco Central jogue a Selic para dois dígitos no atual ciclo de aperto monetário mantém as taxas intermediárias na casa de 12%. As taxas longas, contudo, não cedem e também rodam no patamar de 12%, o que reflete uma percepção de risco ainda muito elevada por parte dos agentes, dada desancoragem das expectativas de inflação em meio à mudança do regime fiscal.
O economista-chefe da Greenbay Investimentos, Flavio Serrano, observa que houve uma deterioração contínua das projeções de inflação e crescimento após o anúncio da intenção de mudança na regra do teto dos gastos, o que mantém o mercado de juros futuros muito pressionado. “Estamos vendo o estrago do abandono do teto dos gastos nas projeções, com nova revisão altista para a inflação e a expectativa de crescimento caindo na pesquisa Focus. Com a perda da âncora fiscal, o mercado perde o direcionamento”, afirma Serrano, que espera PIB ligeiramente negativo no ano que vem.
Para Serrano, a descompressão ao longo da tarde, em dia de liquidez reduzida, pode ter sido provocada por ajustes técnicos de posições e também por certo alívio com a baixa adesão à greve dos caminhoneiros, que protestam contra o aumento dos combustíveis.
No Focus de hoje, subiram as expectativa para o IPCA neste ano (de 8,96% para 9,17%) e para 2022 (de 4,40% para 4,55%). A estimativa para a taxa Selic no fim deste ano saltou de 8,75% para 9,25%. E a expectativa para taxa básica no fim de 2022 atingiu os dois dígitos, ao passar de 9,50% para 10,25% (ante 8,50% um mês antes). A mediana para PIB de 2021 passou de 4,97% para 4,94%. Para 2022, a projeção de expansão do PIB passou de 1,40% para 1,20%.
Para Serrano, da Greenbay, a eventual aprovação da PEC dos Precatórios na quarta-feira na Câmara dos Deputados poderia até “melhorar um pouco” o humor do mercado, ao reduzir o nível de incerteza sobre o tamanho do impacto nas contas públicas. “O problema é que podem tentar aumentar ainda mais as despesas mais à frente. Se você muda o teto toda vez que os gastos são maiores, na verdade você não tem um teto”.
No fim de semana, o ministro da Economia, Paulo Guedes, diz que o governo trabalha com o Plano A, que é aprovação da PEC dos Precatórios. Guedes também disse, ao falar do teto dos gastos, que há uma preocupação exatamente com essa capacidade de organização política para aprovar a PEC dos Precatórios. Ela é que dá espaço (orçamentário)”.
Além da votação da PEC dos Precatórios, o mercado aguarda a ata do Copom, que será divulgada também na quarta-feira, dado que o comunicado da decisão do comitê na semana passada – quando elevou a Selic em 1,50%, para 7,75% ao ano – foi considerado lacônico e trouxe apenas uma referência indireta à proposta de mudança do cálculo do teto de gastos.
“Vamos ver o quanto o BC está realmente empenhado em levar a Selic para um patamar bastante contracionista. Tomara que a ata traga uma luz, um direcionamento para o mercado, porque o nível de incerteza é muito grande”, afirma o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa, acrescentando que, nos níveis atuais, o mercado projeta um “choque” na política monetária.
Rosa ressalta que a deterioração fiscal é o principal direcionador do mercado de juros, por provocar um ciclo vicioso – que se inicia com a alta do dólar e deságua na piora contínua das expectativas de inflação. “Muita coisa está na mesa com a PEC dos Precatórios, mas não tem nada definido. Isso cria um ambiente de risco muito grande. A curva está praticamente ‘flattening’, o que é muito preocupante”, diz o economista-chefe da SulAmerica.
Entre os principais contratos, DI para janeiro de 2023 fechou a 12,28%, de 12,146%. A taxa do DI para janeiro de 2025 subiu de 12,206% para 12,49%. Já o DI para janeiro de 2027 fechou a 12,53%, ante 12,264% no ajuste anterior.