Bom humor global e Ômicron minimizada levam Ibovespa a 4ª alta seguida

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Atualizado há 5 anos

O Ibovespa registrou nesta terça-feira, 7, a quarta alta consecutiva, surfando ainda a onda do ânimo externo ao mesmo tempo em que, no cenário doméstico, os riscos que veem de Brasília parecem minimizados em comparação ao peso que tiveram sobre os ativos nos últimos meses. Apesar de ter flertado com os 108 mil pontos durante boa parte do pregão, o indicador arrefeceu levemente o impulso após alguns ruídos em Brasília sobre a queda de braço entre Câmara e Senado em torno da votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precatórios e terminou o dia em 107.557,67 pontos, alta de 0,65%.

Nos quatro dias consecutivos de alta, o Ibovespa acumula um avanço de 6,73%. A bolsa brasileira segue o ânimo externo ancorado, sobretudo, em novas declarações que geram alívio em relação à gravidade da variante ômicron, e a indicadores positivos na China e na Europa.

O setor de metais tem destaque hoje, com Vale subindo quase 1% com o minério em alta acentuada (8,28% em Qingdao), após a divulgação da balança comercial na China e com os investidores ainda digerindo, de forma positiva, a mudança na taxa do compulsório chinês. O índice de materiais básicos, com isso, subiu 1,03% nesta terça-feira e já acumula uma alta no mês de 9,81%.

“Alívio nas preocupações com a economia global impulsiona mercados nesta terça-feira. Investidores reavaliam o tamanho dos possíveis impactos da variante ômicron sobre a reabertura da economia global. Reforçam a menor aversão ao risco a divulgação dos dados da balança comercial chinesa e do índice ZEW de expectativas econômicas da Alemanha, que caiu de 31,7 pontos em novembro para 29,9 em dezembro, acima do esperado (25,0 pontos)”, resume o Bradesco em boletim.

Mais um dia de avanço sustentado no petróleo também ajudava as petroleiras, com o barril do Brent fechando em alta de 3,23% e o WTI, 3,68%. Embaladas, as ações da Petrobras subiram 2,77% (ON) e 1,63% (PN).

Por outro lado, os bancos puxavam o índice para baixo, com os investidores preferindo outros papéis. Bradesco, Santander, Itaú Unibanco e Banco do Brasil recuaram, todos, mais de 1%. O líder da mesa de renda variável da Blue3, Antonio Carlos Pedrolin, explica que, com os juros longos arrefecendo, houve uma rotação de carteira por parte dos investidores, que saíram de bancos para setores ligados a commodities e, em alguma medida, também para varejo, cujas ações sofreram nos últimos meses com o aumento no juro. Tanto que as ações da Magazine Luiza tiveram alta de 4,38%, após dias de queda acentuada.

“As empresas do setor bancário estão caindo um pouco mais com o arrefecimento da curva mais longa de juros. Eles são beneficiados com o aumento de juros porque podem repassar no crédito. Mas não estão caindo muito. Existe um movimento de rotação”, disse Pedrolin, completando: “A gente percebe um movimento de rotação externo e interno. Externo com investidores saindo de economias desenvolvidas para emergentes. E local, com fundos saindo de bancos e indo pra commodities, metais”.

Apesar de não ter sido suficiente para tirar o vetor de alta, os ruídos em Brasília em torno da PEC dos Precatórios chegaram a arrefecer o fôlego do Ibovespa no meio da tarde. A promulgação é alvo de um imbróglio entre Câmara e Senado. Os senadores promoveram alterações para “amarrar” o espaço fiscal da PEC ao novo programa social e despesas da Previdência e rejeitam a tentativa de fatiamento. A cúpula da Câmara, no entanto, cobra o fatiamento da proposta e quer deixar as mudanças para 2022.

Com isso, as conversas entre os dois lados vão e voltam desde ontem, sem decisões, à beira do recesso de fim de ano do Congresso. Hoje, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), citou o dia 22 de dezembro como o prazo limite para uma decisão sobre o assunto.

Apesar de o imbróglio estar no radar do mercado, a percepção é de que os maiores riscos já foram resolvidos em relação ao assunto, na votação da PEC no Senado. “O principal medo foi se dissipando. Primeiro exageraram no medo e depois viram que não era pra tanto. Está fazendo menos preço”, aponta o analista de investimento da Toro João Vítor de Freitas.

Depois de dois pregões seguidos de alta, em que esboçou voltar ao patamar de R$ 5,70, o dólar à vista fechou em queda firme na sessão desta terça-feira, 7, dia marcado por forte apetite global por ativos de risco.

O arrefecimento dos temores de desaceleração da economia global relacionados ao espraiamento da variante ômicron (que não parece provocar casos graves de covid-19) e dados positivos da balança comercial da China – cujo governo se mostra disposto a irrigar o mercado de liquidez – animaram os investidores, deixando em segundo plano a iminência da redução de estímulos monetários pelo Federal Reserve.

Operadores destacam que a apreciação do real poderia até ter sido maior quando se leva em conta o ambiente externo positivo, com alta firme das bolsas em Nova York e avanço da maioria das divisas emergentes e de países exportadores de commodities, na esteira da valorização do petróleo e do minério de ferro.

A cautela com o quadro doméstico – em meio à piora das projeções econômicas e ao impasse na promulgação da PEC dos Precatórios – a perspectiva de um dólar mais forte no mundo e a pressão de remessas típica de fim de ano impedem a taxa de câmbio de se situar no curto prazo abaixo de R$ 5,60. Isso apesar do processo de aperto monetário em curso, cujo próximo capítulo deve ser o anúncio, nesta quarta-feira (8), de mais uma alta da Selic em 1,50 ponto porcentual, para 9,25%.

O economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, alinha-se ao consenso de que a Selic será elevada em 1,50 ponto porcentual amanhã, mas ressalta que o Copom vai “surpreender” parcela do mercado ao não se “comprometer com manutenção” do mesmo ritmo de alta. “Mas deverá reafirmar o compromisso inequívoco com a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante”, afirma Oliveira, em relatório.

Nas mesas de câmbio, a avaliação majoritária é que o efeito do aperto monetário já está refletido na taxa de câmbio e que não se deve esperar, portanto, um arrefecimento maior do dólar mesmo com eventual aumento do diferencial entre juro interno e externo.

Com uma aceleração da queda na última hora de negócios, quando registrou a mínima da sessão (R$ 5,6153), o dólar à vista fechou em baixa de 1,27%, a R$ 5,6183. Operadores ressaltam que, mais uma vez, a liquidez foi bem reduzida. Principal termômetro do apetite para os negócios, o contrato de dólar futuro para janeiro movimentou cerca de US$ 10 bilhões.

O gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, vê o dólar trabalhando em uma faixa entre R$ 5,60 e R$ 5,70 no curto prazo. Quando a taxa se aproxima da banda superior, há entrada de exportadores e movimentos de realização de lucros. Em contrapartida, diz Galhardo, não há convicção suficiente para a redução mais expressiva de posições defensivas, o que faz com que a taxa de câmbio se mantenha acima de R$ 5,60.

“O dólar tentou romper hoje os R$ 5,60, mas não conseguiu. Ainda temos essa questão da PEC dos Precatórios no radar, com esse cabo de guerra entre a Câmara e o Senado”, diz Galhardo, ressaltando que o mercado ainda continua com o pé atrás diante da possibilidade de mais aumento de gastos com a proximidade das eleições presidenciais em 2022. “E o período de fim de ano é de procura maior por dólares, com remessas de bancos, o que deixa a taxa de câmbio mais pressionada.”

Hoje à tarde, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), disse que o fatiamento da PEC dos Precatórios, com promulgação das partes comuns aprovadas nas duas casas do Congresso, não está descartado e citou 22 de dezembro como prazo limite para a promulgação da PEC – essencial para dar previsibilidade ao Orçamento de 2022.

Pacheco afastou, contudo, o risco de que o impasse em torno da PEC atrase o pagamento do Auxílio Brasil neste mês. Medida Provisória preparada pelo governo garantiria o valor de R$ 400 do benefício social em dezembro, dando mais tempo para o Congresso resolver o imbróglio da PEC.

Pela manhã, o Banco Central vendeu a oferta total de 15.000 contratos (US$ 750 milhões) em leilão realizado para rolagem de vencimentos programados para fevereiro. Foi o primeiro leilão de rolagem dos contratos com vencimento em 1º de fevereiro de 2022, que totaliza 179.615 contratos de swap (US$ 9,0 bilhões). O BC já indicou a intenção de promover a rolagem integral.

A curva de juros voltou a mostrar movimento de desinclinação nesta terça-feira, com as taxas de curto prazo em alta e as longas em queda. A expectativa pelo Copom amanhã manteve a ponta curta pressionada, enquanto os longos caíram acompanhando o alívio no câmbio e favorecidos pela melhora do apetite ao risco no exterior, que atraiu fluxo de estrangeiros. Na última hora da sessão regular, porém, o mercado ficou mais cauteloso com a movimentação em Brasília, onde o Congresso tem dificuldades para fechar acordos em várias frentes, em especial a da PEC dos Precatórios, que vai abrir caminho para a definição do Orçamento, com o prazo cada vez mais apertado. A expectativa do Copom amanhã gira em torno do comunicado, na medida em que há consenso de que a Selic deve subir 1,5 ponto porcentual, para 9,25%.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 fechou a 11,485% (regular) e 11,48% (estendida), de 11,404% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2025 caiu de 10,914% para 10,86% (regular) e 10,84% (estendida). O DI para janeiro de 2027 encerrou com taxa de 10,85% (regular )e 10,84% (regular), de 10,943%.

A curva chega à véspera da decisão do Copom com prêmios bem ajustados para um novo aperto da Selic de 1,5 ponto porcentual, em função dos sinais de fraqueza da atividade e níveis mais comportados dos preços das commodities, ainda que as cotações do petróleo hoje tenham subido. O avanço, no entanto, acabou por enfraquecer o dólar, levando o real para mais perto de R$ 5,60, o que também foi citado pelos players como um fator que ajudou a ponta longa a ceder. O humor nos mercados internacionais vem melhorando na medida em que as preocupações com a cepa ômicron vão saindo do radar, e hoje há relatos de entrada de estrangeiros na curva.

Para o Copom de amanhã, a grande expectativa é pelo o que deve sinalizar para o restante do ciclo, dada a forte desancoragem das projeções em relação às metas. “A comunicação oficial dos membros do Copom após a divulgação da ata de outubro parece indicar que em breve o comitê optará por ajustar o horizonte da política monetária dando maior peso explícito para o ano calendário de 2023”, afirmam os profissionais do Banco Fibra. “Em nossa opinião, isso reduz fortemente a probabilidade de o BC intensificar o ritmo de alta da Selic como chegou a ser precificado pela curva de juros recentemente”, acrescentam.

Na última hora da sessão regular, o noticiário negativo vindo de Brasília trouxe algum estresse à curva, com as taxas curtas ampliando levemente a alta e as longas pontualmente reduzindo o ritmo de baixa. Há temor de atraso em relação à toda agenda fiscal que está no Congresso, dada a falta de acordo em várias frentes.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), cancelou a sessão deliberativa do Congresso que analisaria hoje vetos do Executivo e projetos de lei para abertura de créditos adicionais ao Orçamento deste ano. Um dos motivos foi o fato de que alguns líderes queriam votar hoje os vetos do presidente Jair Bolsonaro à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2022, mas não houve acordo. Além disso, projetos de créditos adicionais ao Orçamento deste ano que ainda não foram votados na Comissão Mista de Orçamento (CMO) geraram impasse.

Ainda, Pacheco admitiu o impasse em torno da promulgação da PEC dos Precatórios e não descartou a possibilidade de fatiar o texto. Disse estar avaliando “todas as possibilidades” para resolver o impasse em torno da promulgação da medida e para destravar o Auxílio Brasil. Ainda, citou 22 de dezembro, último dia do período legislativo do ano, como prazo limite para a decisão.

A economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack, acredita que a tendência é o mercado ficar oscilando nessa toada da decisão ou não pelo fatiamento. “Como eles estão analisando a possibilidade da derrubada de alguns vetos, deve haver outras negociações que a equipe econômica está avaliando”, disse.

No leilão de NTN-B, o Tesouro ofertou 950 mil títulos, lote pouco maior do que na semana passada, que ficou em 850 mil. Não houve demanda integral, com venda de 943.300 e DV01 de US$ 357 mil. (Denise Abarca – denise.abarca@estadao.com)

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