Com China, Ibovespa emenda 3ª perda, em baixa de 1,10%, a 113.794,28 pontos

O Ibovespa emendou a terceira perda nesta quinta-feira, 16, após um início de semana promissor, em que ainda reagia ao recuo do presidente Jair Bolsonaro, retirando temperatura da crise político-institucional, em desdobramento positivo que se combinou ao relativo esvaziamento das manifestações de domingo contra o governo. O mercado, contudo, segue atento à piora das projeções sobre os fundamentos domésticos, em meio a sucessivas elevações das estimativas para câmbio, inflação e juros, acompanhadas de redução das projeções para o PIB, neste e no próximo ano.

Cenário externo cauteloso, com atenção à queda de ritmo chinês e especialmente a um problema de solvência em grande empresa do setor imobiliário no país, contribui também para manter os investidores na defensiva, afetando o apetite por risco em momento no qual surgem também alguns sinais mais fracos na economia americana.

Assim, apesar de Nova York ter chegado a esboçar reação no fim da tarde, o Ibovespa fechou hoje em baixa de 1,10%, aos 113.794,28 pontos, passando a acumular perda de 0,43% na semana, elevando as do mês a 4,20% – no ano, o índice cede agora 4,39%. Com giro financeiro a R$ 35,8 bilhões, a referência da B3 oscilou hoje entre mínima de 113.394,67 pontos – menor nível intradia desde o dia 9, quando foi aos 112.435,11 – e máxima de 115.061,97, da abertura, retrocedendo no fechamento desta quinta-feira ao menor patamar desde o encerramento do último dia 8, aos 113.412,84 pontos, refletindo então a elevação de tom de Bolsonaro no 7 de setembro.

O cenário externo cauteloso, especialmente com relação à China, resultou hoje em novo forte ajuste nos preços do minério, em queda de 8%, após perda de 4% no dia anterior – agora no menor nível desde julho de 2020 e a caminho de sua pior sequência em três anos. Na B3, as ações de empresas com exposição aos preços de commodities, como CSN ON (-6,18%, maior perda do dia), Suzano (-5,75%, segunda maior) e Usiminas (-5,41%, terceira maior queda da sessão entre os componentes do Ibovespa), além de Vale ON (-4,15%) e Petrobras (ON -0,93%, PN -0,87%), refletiram nesta quinta-feira a piora de sentimento em relação à economia global, reforçada por sinais ruins sobre o setor imobiliário da China, altamente alavancado. Entre as ganhadoras do dia, destaque para Cielo (+5,44%), Hering (+4,90%) e Assaí (+3,07%).

“Embora a Bolsa esteja barata, o Ibovespa tende a ficar mais lateralizado no curto prazo, acompanhando a cautela externa, especialmente com relação à China, em meio a temor de que esta grande empresa, a Evergrande, possa quebrar – o que pioraria bastante as coisas. O risco Brasil está mais ou menos precificado com relação a fatores como juros e Auxílio Brasil e, depois da carta de Bolsonaro à nação, a resposta que se viu no Ibovespa foi rápida”, observa Viviane Vieira, operadora de renda variável da B.Side Investimentos.

“Considerando o histórico de P/L, a Bolsa está num patamar muito baixo, o que estimula recompra de ações pelas empresas e mesmo rumores sobre fechamento de capital. Aqui, o teto de gastos, e uma solução para os precatórios que o respeite, continua a ser percebida como fator central para a evolução do fiscal – e se espera que haja uma resposta a isso em breve”, diz Aroldo Holanda, head de mesa variável da Aplix Investimentos. “Além disso, temos a crise hídrica e a retomada de sinais preocupantes de autoridades com relação à política de preços da Petrobras, em momento de pressão adicional sobre a inflação.”

“Lá fora, a China continua preocupando também: antes, com a intervenção em setores como o de metais, afetando os preços de commodities como o minério; e, agora, com problemas na segunda maior empresa do setor imobiliário, a Evergrande, que pode deixar de honrar o pagamento periódico de juros, o que resultaria na possibilidade de paralisações de obras. Como a China tem um sistema fechado, quando um problema como esse aparece e é reconhecido pelo governo, preocupa demais”, acrescenta Holanda.

Hoje, a Capital Economics considerou haver certo exagero nas avaliações sobre a crise na Evergrande. Para a consultoria, um ‘default’ gerenciado ou mesmo descontrolado da companhia chinesa teria pouco impacto global, para além de alguma turbulência nos mercados. Mesmo que outras incorporadoras venham a passar por quadro similar, seria necessário um erro político de Pequim para que isso provocasse grande desaceleração da economia, aponta a Capital Economics. “Em um cenário de pouso forçado, vários mercados emergentes estão vulneráveis. Mas, em geral, o impacto global de mudanças na demanda chinesa é muitas vezes exagerado”, diz a consultoria.

Por sua vez, a perspectiva doméstica, com constantes revisões negativas para o PIB e de alta para IPCA e Selic, contribui para redução da exposição dos investidores a ativos do País, em meio a fatores de dúvida, como o valor e a abrangência do Auxílio Brasil (substituto do Bolsa Família) e a dificuldades do governo para encontrar solução para os precatórios, em um orçamento de 2022 comprimido por nova projeção do próprio governo, mais alta, para a inflação.

Hoje, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), disse que a discussão sobre o Auxílio Brasil e a origem dos recursos para bancar o programa deve se “afunilar” entre os meses de outubro e novembro, sendo “imperioso” que o debate aconteça até 31 de outubro. Lira defendeu que a matéria tramite sem nenhum sobressalto ou “invenção milagrosa”.

O dólar à vista encerrou a sessão desta quinta-feira, 16, em alta firme no mercado doméstico de câmbio, escorado na onda global de fortalecimento da moeda americana, na esteira um avanço inesperado das vendas no varejo nos EUA em agosto, justamente na semana que antecede a reunião do Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano) em que pode ser anunciado o calendário para a redução dos estímulos monetários. Por aqui, investidores monitoraram as notícias sobre a tramitação das reformas no Congresso, em especial da PEC dos Precatórios – cujo desenlace é essencial para a definição do reajuste do Bolsa Família e, por tabela, do Orçamento de 2022.

A despeito da falta de fôlego do real para emendar pregões seguidos de apreciação, analistas notam que o dólar tem encontrado dificuldades para encostar na casa de R$ 5,30 e apresentado oscilações intradia bem mais modestas – o que pode ser interpretado como um sinal de que a alta das taxas de juros locais já serve como anteparo a apostas contra a moeda brasileira.

Em uma dinâmica similar a dos últimos três pregões, o dólar operou hoje em uma faixa estreita (de menos de 5 centavos) entre a mínima (R$ 5,3232) e a máxima R$ (5,2805). No fim da sessão, o dólar à vista era cotado a R$ 5,2650, em alta de 0,53%. Com isso, a moeda americana tem ligeira queda na semana (-0,04%) e ganho acumulado de 1,80% em setembro. Lá fora, o DXY – que mede o desempenho do dólar ante pares fortes – subiu cerca de 0,30%. Na comparação com divisas emergentes, os maiores ganhos da moeda americana forma contra a lira turca e o rand sul-africano, com altas superiores a 1%. Ou seja, desta vez o real não foi o ‘patinho feio’ da turma.

Parte dos analistas afirma até que, caso o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, não tivesse desautorizado a expectativa de aceleração da alta da Selic, a taxa de câmbio poderia estar em nível menor. Com uma alta de 1 ponto porcentual do juro básico na reunião do Copom na semana que vem (dias 21 e 22), o mercado espera o comunicado da decisão para recalibrar as apostas em relação ao ritmo e a abrangência do aperto monetário. Uma Selic mais gorda, além de aumentar o diferencial de juros e, em tese, aumentar a atratividade da renda fixa doméstica, encarece o hedge e desestimula montagem de posições mais fortes contra o real.

Por ora, contudo, o mercado se mantém na defensiva, à espera da Super Quarta (decisões do Fed e do Copom) – que tem potencial para balançar a relação entre risco e retorno da moeda brasileira – e do avanço da pauta econômica em Brasília, em meio ainda há certo ceticismo com a postura menos belicosa do presidente Jair Bolsonaro.

No Congresso, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados começou a analisar nesta tarde o parecer do deputado Darci Matos pela admissibilidade da PEC dos Precatórios, que propõe o parcelamento das dívidas judiciais. Mais cedo, o presidente da Câmara, Arthur Lira, defendeu, em evento, que as Casas legislativas entre em acordo para adoção do rito especial na tramitação da PEC. Em relação aos recursos para bancar o Auxílio Brasil (repaginação do Bolsa Família), Lira disse que o debate deve se “afunilar” entre outubro e novembro. Pela manhã, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), afirmou que espera uma solução definitiva para os precatórios já na semana que vem.

A grande dúvida que paira sobre o Orçamento de 2022 é justamente como o governo vai compatibilizar o pagamento dos precatórios com o Auxílio Brasil sem subterfúgios que abram furos no teto de gastos – considerado a âncora fiscal do País. Para fechar essa conta, é necessário saber também qual será o desfecho da reforma do Imposto de Renda, que está no Senado, e seu impacto sobre a arrecadação.

“Se o quadro político continuar tranquilo, a gente nem precisa de grandes reformas. Ajeitando essa questão dos precatórios, a volatilidade tende a continuar baixa e o real pode se valorizar”, afirma o head de Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weig, ressaltando que o Brasil representa hoje uma oportunidade “bem interessante” para operações de carry trade, quando se observa as expectativas para juros e inflação 12 meses à frente.

Ele observa também que, após um período de extrema volatilidade em agosto, a taxa de câmbio (à exceção dos dias 8 e 9 de setembro, marcados pela relação às manifestações de 7 de setembro e à carta de Bolsonaro) tem oscilado entre faixas mais estreitas, o que pode abrir espaço para um desempenho melhor da moeda brasileira, uma vez que volatilidade menor significa, em tese, menos risco.

Em relação aos ventos externos, Weig espera que o Fed não mude a linha de seu discurso, com sinalização do início do ‘tapering’ no fim deste ano e alta de juros somente no último trimestre de 2022, o que garante ainda um ambiente global de muita liquidez. “As bolsas americanas tiveram uma realização nos últimos dias porque vinham de altas seguidas, mas ainda estão em patamar ainda bem elevado, e as taxas de 5 e 10 anos nos Estados Unidos estão no mesmo nível desde o meio de julho. O cenário externo ainda é favorável”, diz.

Os juros oscilaram o dia todo perto da estabilidade, alternando viés de alta e de baixa durante a sessão para encerrarem próximos dos ajustes anteriores. O movimento reflete o compasso de espera sobre como vão evoluir as reformas pendentes e a questão dos precatórios e, na ponta curta, o mercado já tinha se ajustado à mensagem do Banco Central de que não pretende acelerar o ritmo de alta da Selic e agora é esperar pela decisão da próxima semana. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) mais líquido, o de janeiro de 2023, fechou em 8,975%, de 8,952% ontem no ajuste, e as dos DI para janeiro de 2025 e janeiro de 2027 encerraram estáveis em 10,13% e 10,55%.

No aguardo das definições do cenário fiscal e já embutindo muito prêmio de risco pela expectativa de deterioração, os juros tiveram desempenho até melhor do que os demais ativos – a Bolsa passou o dia em queda firme e o dólar subiu para o nível de R$ 5,26. A estrategista-chefe da MAG Investimentos, Patricia Pereira, afirma que o quadro fiscal está muito no radar, com o mercado ponderando o fluxo de notícias, que ora têm viés positivo ora negativo. “Essa do corte de subsídios pode estar ajudando, ainda que, ao mesmo tempo, a Câmara esteja aprovando manutenção da desoneração da folha para os setores”, disse, lembrando ainda que a questão dos precatórios segue em aberto.

Segundo apurou o , sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, o governo definiu um plano de corte de subsídios tributários e incentivos fiscais, mas com interpretação branda da emenda constitucional que exige a proposta de redução, incluindo, por exemplo, não prorrogação de benefícios já existentes.

Quanto aos precatórios, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara iniciou nesta tarde a análise do parecer da PEC enviada pelo governo e que prevê pagamento parcelado da dívida com valores a partir de R$ 66 milhões. O parecer do relator, deputado Darci de Matos (PSD-SC), é pela admissibilidade do texto. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), disse esperar que uma saída definitiva seja obtida na próxima semana.

O economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, diz ver viés negativo para os ativos com a PEC dos precatórios, na medida em que o parcelamento é equivalente a um calote fiscal. “E, no Senado, há riscos de ajustes no projeto tributário e perda de receita se não passar a taxação dos dividendos”, acrescenta.

Os contratos curtos tendem a ficar mais engessados daqui até o Copom, após a forte chacoalhada promovida pela fala de Campos Neto segundo a qual o BC não vai alterar seu plano de voo a partir de dados de inflação de alta frequência, numa clara referência ao IPCA de agosto acima das estimativas. O mercado ajustou suas apostas para uma nova alta de 1 ponto da Selic na semana que vem, embora as mudanças não tenham alterado a percepção de que o orçamento total levará a taxa básica para perto de 9%. Tanto nos DIs quanto nas opções digitais a expectativa de 1 ponto é amplamente majoritária. Assim como entre os economistas. Na pesquisa do Projeções Broadcast, de 51 instituições, 44 preveem aumento de 1 ponto, para 6,25%.

Na gestão da dívida, o Tesouro elevou hoje a oferta de LTN para 7 milhões, ante 1,5 milhão ofertado no leilão anterior com os mesmos vencimentos. O lote de NTN-F subiu para 300 mil, de 100 mil na semana passada e o de LFT, no entanto, foi menor, com 1,5 milhão.

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