Em dia negativo em Nova York mesmo com leitura abaixo do esperado para a inflação ao consumidor nos Estados Unidos, divulgada pela manhã, o Ibovespa perdeu fôlego ao longo da tarde, após ter buscado mais cedo, pelo segundo dia, reaproximação de nível anterior ao feriado de 7 de setembro, refletindo relativa melhora da percepção sobre o ambiente político. Hoje, chegou a ser favorecido também por indicação menos ‘hawkish’ do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que levou o mercado a readequar para 1 ponto porcentual a previsão de alta da Selic na reunião do Copom na próxima semana, quando já se preparava para aumento de até 1,5 ponto na taxa básica de juros ante os mais recentes sinais de aceleração da inflação no País.
No entanto, acompanhando piora em Nova York ao longo da tarde, o índice de referência da B3 devolveu os ganhos vistos mais cedo para fechar o dia em baixa de 0,19%, aos 116.180,55 pontos, entre mínima de 115.809,02, à tarde, e máxima de 117.269,82 pontos, pela manhã, saindo de abertura aos 116.404,54 pontos, com giro financeiro de R$ 29,4 bilhões na sessão. Nestes dois primeiros dias da semana, o Ibovespa ainda acumula ganho de 1,66%, limitando as perdas do mês a 2,19% – no ano, cede agora 2,38%.
Com o desempenho negativo de Petrobras (ON -0,74%, PN -1,33%) e Vale (ON -0,71%), além de bancos (BB ON -0,81%), pesando sobre o índice, o Ibovespa se firmou no negativo à tarde, cortando a recuperação ensaiada no dia anterior. “Há uma piora de sentimento no exterior, com a percepção de que a inflação abaixo do esperado nos Estados Unidos possa estar sinalizando estagnação da economia, no momento em que o Fed ainda busca cumprir parte de seu mandato, relacionado ao pleno emprego”, diz Nicolas Farto, assessor de renda variável na Renova Invest.
“Aqui, Vale refletiu a queda do minério de ferro e Petrobras, apesar da alta do petróleo com a formação de nova tempestade em direção aos Estados Unidos, mostra a cautela do mercado ante a presença do presidente Silva e Luna para dar explicações ao Congresso, no dia seguinte a Arthur Lira (presidente da Câmara) ter criticado a política de preços da estatal”, acrescenta.
Na ponta negativa do Ibovespa, Dexco cedeu hoje 3,07%, à frente de CVC (-2,93%) e de BRF (-2,89%). No lado oposto, destaque para Meliuz (+15,10%, pelo terceiro dia segurando a ponta positiva do Ibovespa, com ganhos na casa de dois dígitos nas últimas duas sessões), seguida por Locaweb (+8,21%) e Cosan (+3,89%).
Pela manhã, em evento promovido pelo BTG Pactual, Campos Neto reforçou que o BC fará o que for preciso para alcançar convergência dos preços à meta de inflação no horizonte relevante, mas que não necessariamente reagirá a dados de alta frequência. “Vamos levar a Selic aonde precisar, mas não vamos reagir sempre a dados de alta frequência”, afirmou na manhã desta terça-feira, o que resultou em ajuste nos juros futuros.
O câmbio, por sua vez, seguiu em alta nesta terça-feira, acentuada à tarde (+0,65%, a R$ 5,2573 no fechamento do dólar à vista). “Um dos grandes fatores para pressão na inflação tem sido o câmbio que, por sua vez, tem como fonte as condições institucionais, que seguem frágeis. Assim, não vemos espaço para queda na taxa de câmbio, mesmo com alguma intervenção do BC. Além disso, diante das eleições, há a possibilidade de aumento de gastos fiscais para promover medidas populistas, o que também pode seguir pressionando preços. Assim, hoje cabe quase que somente ao Banco Central o esforço para conter a inflação”, diz Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest.
Para o estrategista-chefe da BTG Pactual Asset Management e ex-diretor do Banco Central, Tiago Berriel, a declaração de Campos Neto desta manhã deixou bem claro que o ritmo de alta de juros deve ser de 1 ponto porcentual e os ajustes em função da piora de cenário devem ocorrer no tamanho do ciclo de aperto monetário. “O ciclo de alta de juros deve terminar no início do ano que vem entre 9% e 9,5%”, disse Berriel, no evento MacroDay 2021, promovido pelo banco, do qual Campos Neto também participou mais cedo.
Em outro evento nesta terça-feira, Luis Stuhlberger, sócio-fundador e presidente da Verde Asset Management, apontou que o Banco Central ficou muito atrás da curva e precisa elevar os juros no curto prazo, “e ponto final”. Ainda assim, o gestor acrescentou não estar pessimista quanto às taxas de juros de longo prazo. Segundo ele, os mercados estão vendo atualmente situação fiscal do Brasil pior do que realmente é, em reflexo da preocupação dos investidores com o ambiente político.
Para o ex-secretário do Tesouro Nacional e atual economista-chefe do BTG Pactual, Mansueto Almeida, o que assusta o mercado é a possibilidade de quebra do teto de gastos para que o governo gaste mais que R$ 18 bilhões, espaço para o Bolsa Família. “O que alguns amigos falam é que o governo deveria aumentar o Bolsa Família, pagar os R$ 89 bilhões de precatórios e calar a boca, cumprir a letra da lei. Essa solução ótima não existe”, disse Mansueto.
Para Stuhlberger, a eleição de 2022 chegou aos preços dos ativos muito antes do esperado, e o presidente Jair Bolsonaro, em vez de surfar a melhora da economia, prefere “pregar para convertido”. Segundo o gestor, o mercado está precificando, no momento, chance de não mais de 10% a um nome alternativo ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a Bolsonaro no segundo turno de 2022. “O grau de incerteza é imenso”, afirmou.
Após manhã de muita instabilidade, com trocas constantes de sinal, o dólar à vista ganhou fôlego ao longo da tarde e registrou novas máximas, encerrando o pregão desta terça-feira, 14, em alta firme. O principal catalisador para a arrancada do moeda americana no fim dos negócios foi a deterioração do ambiente externo, com perdas fortes dos índices das Bolsa em Nova York – que respingaram no Ibovespa – e a piora das divisas emergentes. Depois de trabalhar em queda a maior parte do dia, o Índice DXY – que mede o desempenho do dólar em relação a seis moedas fortes – também se fortaleceu e renovou máxima, operando perto da estabilidade.
Por aqui, operadores relataram certo desconforto com a interrupção da tramitação da PEC dos Precatórios na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara após concessão de vista coletiva do parecer pela admissibilidade confeccionado pelo deputado Darci de Matos (PSD-SC). Trata-se de um sinal de que haverá um caminho árduo até uma solução para o pagamento das dívidas judiciais e, por tabela, para definição do reajuste do Bolsa Família – condição essencial para a definição do Orçamento de 2022.
Com máxima a R$ R$ 5,2638, registrada na reta final de pregão, o dólar à vista encerrou a sessão a R$ 5,2573, em alta de 0,65%. Na B3, o giro com o contrato futuro de dólar para outubro – principal termômetro do apetite por negócios – foi mais uma vez reduzido, na casa de US$ 10,8 bilhões.
A mínima do dólar (R$ 5,1996) veio pela manhã, na esteira da divulgação da alta de 0,3% do índice de inflação ao consumidor (CPI) nos Estados Unidos em agosto, abaixo das expectativas (+0,4%). Esse resultado reforçou a leitura do Federal Reserve de que a alta da inflação é transitória e deu vazão à aposta de que o início da redução da compra mensal de bônus (‘tapering’) virá apenas no último bimestre deste ano.
Na avaliação do diretor de estratégia da Inversa Publicações, Rodrigo Natali, a queda acentuada das bolsas americanas ao longo da tarde trouxe uma onda de aversão ao risco, já que se esperava uma recuperação dos índices após as perdas recentes. “O CPI era o último dado que tinha potencial de ser forte para mexer com a expectativa do tapering. O resultado pesou bem no DXY pela manhã, mas agora parece que o mercado já começa a se ‘hedgear’ para o encontro do FOMC”, afirma Natali, em referência ao encontro do comitê de política monetária do Fed no próximo dia 22.
Por aqui, o mercado de câmbio recebeu, em um primeiro momento, de forma amena a sinalização do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, de que não haverá aceleração do ritmo de alta da Selic – atualmente em 1 ponto porcentual – no encontro do Copom neste mês (dias 21 e 22). Em evento pela manhã, Campos Neto repetiu que vai “levar a Selic aonde precisar”, mas ponderou que o BC não “vai reagir sempre a dados de alta frequência”, no que foi interpretado como uma referência a alta de 0,87% do IPCA em agosto, estopim para que parte do mercado passasse a trabalhar com a perspectiva de alta de 1,25 ponto porcentual ou de até 1,50 ponto da Selic neste mês.
A sinalização de Campos foi criticada por economistas e gestores, por representar supostamente um risco de desancoragem das expectativas de inflação para 2022. Diversas casas já projetam inflação mais elevada e crescimento mais baixo no ano que vem, o que joga contra a moeda brasileira.
Natali, da Inversa, observa que, dada a forte queda dos juros futuros mais curtos, o dólar até que subiu pouco por aqui, já que há uma diminuição da atratividade de operações com arbitragem do diferencial de juros interno e externo. “O desempenho da taxa de câmbio está até tímido, talvez porque tem muita gente vendida em dólar. Hoje pode ser só o começo desse movimento de depreciação adicional do real”, diz Natali, ressaltando que, ajustado pelo risco, a moeda brasileira não é a mais atraente entre emergentes para o carry trade.
O estrategista da Inversa vê hoje três fatores que podem levar a uma alta do dólar nos próximos meses: o início do ‘tapering’ nos EUA, o problema fiscal doméstico e a perspectiva de que se consolide o cenário de polarização nas eleições presidenciais de 2022, com disputa entre Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em evento hoje, o economista-chefe do BTG Pactual e ex-secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, afirmou que, com a melhora das contas externas, o dólar só não está abaixo de R$ 5,00 hoje porque “estamos produzindo muitos ruídos”, em especial em relação ao reajuste do Bolsa Família. Para o economista, se o Brasil mantiver o compromisso com as regras fiscais, a taxa de câmbio deve ficar em R$ 5,00 ou abaixo desse nível nos próximos anos.
Já o estrategista-chefe da BTG Pactual Asset Management e ex-diretor do Banco Central, Tiago Berriel, afirmou que o dólar parece estar respondendo às incertezas fiscais e institucionais domésticas. “Espero que tenhamos tempo de usufruir no câmbio de termos de troca mais favoráveis”, afirmou Berriel.
As declarações consideradas “dove” do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, continuaram alimentando a queda dos juros curtos e intermediários da curva a termo ao longo da tarde e também os ajustes nas apostas para a Selic no Copom da semana que vem. No fim da sessão regular, as taxas curtas tombavam mais de 30 pontos-base e a expectativa de aperto de 1 ponto porcentual da Selic era majoritária ante a opção de 1,25 ponto, com a curva tendo limpado expectativas de avanço mais agressivo de 1,5 ponto que apareceram nos últimos dias. Campos Neto disse que o BC não vai alterar o plano de voo em função de dados de inflação de alta frequência, o que foi lido como um recado claro de que a indicação da última ata do colegiado continua válida.
A mudança sobre a percepção de Selic no curto prazo também engordou o volume de contratos negociados. Com cerca de 1,9 milhão de contratos movimentados hoje, o do Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou com taxa em 7,01%, de 7,324% ontem no ajuste. Na média diária dos últimos 30 dias, este DI girou em torno de 733 mil contratos. O DI para janeiro de 2023 passou de 9,162% para 8,86% e o DI para janeiro de 2027 encerrou a 10,47%, de 10,49%.
A fala de Campos Neto, em evento promovido pelo BTG Pactual, teve efeito avassalador na curva. “Pegou muita gente de surpresa nesta última manifestação permitida antes do período de silêncio do Copom. A curva chegou a colocar na semana passada chance de alta de 1,5 ponto na Selic, o que é uma pedrada”, afirmou o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez.
Na curva a termo, a aposta de alta de 1 ponto aparecia com 80% de probabilidade precificada, ante 20% de chance de 1,25 ponto, segundo o economista-chefe da Greenbay Investimentos, Flávio Serrano. Para o Copom de outubro, o mercado está dividido entre as duas alternativas, com 50% de chance para cada lado. Para o fim do ano, a curva projeta Selic em 8,50%.
Embora a nova sinalização do BC possa não deixar dúvidas sobre o que o Copom vai fazer, ou seja, elevar a taxa básica em 1 ponto, não é essa a opção defendida por boa parte dos economistas. Em meio à crise hídrica e com as pressões inflacionárias de 2021 cada vez mais transbordando para 2022, a percepção é de que a autoridade monetária teria de ser mais firme. O economista João Leal, da Rio Bravo Investimentos, disse que a fala de Campos Neto não altera a necessidade de um aumento de 1,25 pp na próxima reunião. “Não é simplesmente um dado de inflação acima da expectativa, mas uma pressão inflacionária bastante ampla em toda a economia. Uma alta de 1 ponto pode ser um risco bem grande de perder ainda mais controle nas expectativas para o IPCA de 2022”, disse.
Sanchez, da Ativa, manteve sua previsão de alta em 1,25 ponto mesmo depois da fala de Campos Neto. Na sua visão, se a autoridade monetária cumprir sua promessa de fazer o que for necessário para trazer as expectativas de inflação para a meta, terá de ser mais incisiva e “começar a acelerar já”, lembrando que as expectativas de IPCA em 2021 estão perto de 9% e as de 2022, ao redor de 4%. A de 2021 está muito acima do teto da meta de 5,25% e a de 2022, além do centro da meta de 3,5%.
Os contratos de longo prazo oscilaram perto da estabilidade, mas com viés de baixa trazido pelo índice de inflação ao consumidor norte-americano levemente abaixo do esperado, mas que também não alterou a visão do mercado de que o tapering nos Estados Unidos começa este ano.