Dólar cai 0,71% no dia com permanência de Guedes, mas sobe 3,16% na semana

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Atualizado há 5 anos

O mercado doméstico de câmbio viveu uma sessão agitada e de muita volatilidade nesta sexta-feira, 22, com oscilação de mais de 13 centavos entre a mínima e a máxima, em dia marcado por especulações em torno da permanência de Paulo Guedes – outrora “posto Ipiranga” do presidente da República, Jair Bolsonaro, e último fiador do governo junto ao mercado – à frente do ministério da Economia.

O dólar já abriu o dia em forte alta e varou o teto de R$ 5,70 logo na primeira hora de negócios, ainda espelhando a debandada na equipe econômica, puxada pela saída na quinta à noite do secretário especial do Tesouro e Orçamento, Bruno Funchal, e do secretário do Tesouro Nacional, Jeferson Bittencourt, na esteira da mudança das regras do teto de gastos embutida da PEC dos Precatórios.

No início da tarde, no auge da boataria de que Guedes estava demissionário, a moeda norte-americana chegou a ultrapassar a marca de R$ 5,75, ao correr até a máxima de R$ 5,7545 (+1,53%). O movimento altista arrefeceu após notícia de encontro entre o presidente Jair Bolsonaro e Guedes, às 14h30.

O alívio do mercado financeiro veio de vez quando Bolsonaro e Guedes apareceram juntos, selando a permanência do ministro no governo. Embora Guedes tenha perdido grande parte da sua credibilidade entre os investidores, sua presença ainda serve de contraponto para as tendências mais populistas da ala política do governo, afirmam operadores.

Com mínima a R$ 5,6223, registrada na reta final do pregão, o dólar à vista encerrou a sessão desta sexta-feira em queda de 0,71%, a R$ 5,6273. Apesar disso, a moeda norte-americana termina esta semana com valorização de 3,16% e já acumula alta de 3,33% em outubro – o que evidencia uma reprecificação relevante do real nos últimos dias.

“O mercado estava precisando de mais informações e as explicações de Guedes acabaram fazendo preço. Tivemos um estresse muito grande ontem e em parte do pregão de hoje, com o dólar flertando com 5,80, e era de se esperar que houvesse alguma correção”, afirma o gerente da mesa de derivativos financeiros da Commcor DTVM, Cleber Alessie Machado, que chama a atenção para a fala de Guedes sobre dados positivos da arrecadação, em uma tentativa de dizer que o aumento de gastos com o Auxílio Brasil não prejudica a política fiscal.

Em sua fala, Bolsonaro disse que tem “confiança absoluta” em Guedes e que o ministro “entende as aflições que o governo passa”. Após defender o Auxílio Brasil no valor de R$ 400, o presidente diz que o governo tem responsabilidade e não fará “nenhuma aventura”.

Guedes, por sua vez, refutou que tenha pedido demissão e disse faltou tolerância aos “jovens” da equipe econômica para conciliar a solução técnica com a fiscal, em referência a Bruno Funchal e Jeferson Bittencourt, cujas saídas ele classificou como algo “natural”. O substituto de Funchal será o Esteves Colnago, que hoje ocupa a Assessoria Especial de Relações Institucionais do Ministério da Economia. “A preferência da economia era manter o teto e pedir uma autorização para gastar um pouco mais, ali ao lado. Mas, tecnicamente, (a mudança no teto) é defensável”, disse Guedes cuja proposta inicial era de gastos de R$ 30 bilhões fora do teto, mas que acabou cedendo à reformulação da âncora fiscal.

O ministro disse que foi mal interpretado quando disse que era preciso “licença para gastar um pouco mais”, ao se referir ao Auxílio Brasil, e ressaltou que a solução costurada na PEC dos Precatórios não altera os fundamentos fiscais da economia brasileira. “As finanças não foram abaladas. Não estou preocupado se foi extrateto ou levantamento do teto”, comentou.

A economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte, vê a queda do dólar após o discurso do Guedes como um “pequeno ajuste” depois de um período de grande estresse, mas ressalta que a percepção de risco segue em nível elevado. “O fato de o Guedes continuar deu algum ânimo e possibilitou esse ajuste, já que ele é o único braço relativamente liberal no governo”, diz Consorte. “Mas o dólar no patamar atual sugere que o mercado não gostou das mudanças fiscais, que ainda são vistas como ‘pedaladas’. Devemos ver ainda bastante volatilidade”.

Para Machado, da Commcor DTVM, após as movimentações dos últimos dias, a taxa de câmbio já carrega um prêmio de risco considerável, o que pode, em tese, abrir espaço para uma queda do dólar. A disputa pela formação da taxa Ptax de fim de outubro na semana que vem e eventuais fluxos podem, contudo, levar a moeda a flertar novamente com R$ 5,75. “Pelos fundamentos, é mais plausível o dólar ir para R$ 5,50, porque o pior momento do ajuste de prêmios já passou. Mas é preciso ver a questão do fluxo e da demanda”, ressalta Machado.

A expectativa dos analistas é que o BC continue a atuar com leilões extras de swaps cambiais para suprir demandas específicas, além das ofertas ligadas ao dos bancos e das rolagens de contratos vincendos. A perspectiva de uma aceleração do ritmo de aperto monetário pelo Copom na próxima semana pode dar também algum fôlego ao real, caso não haja novas surpresas no front fiscal.

Os juros desaceleraram o ritmo de avanço no fechamento da sessão regular, com alguns contratos mais longos chegando até mesmo a zerar a alta no fim da sessão, após a confirmação de que o ministro da Economia, Paulo Guedes, permanecerá no cargo com demonstração de apoio do presidente Jair Bolsonaro. As taxas abandonaram os níveis estratosféricos atingidos no começo da tarde, mas fecharam ainda bastante pressionadas no miolo da curva, refletindo o reforço nas apostas de que a política monetária terá de ser agressiva para se contrapor aos efeitos do terror fiscal na inflação. Com os contratos até o trecho intermediário subindo bem mais que os longos, a curva terminou a semana com forte desinclinação, em torno de 30 pontos-base.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 encerrou a sessão regular sem 10,85%, de 10,495% no ajuste anterior, após tocar no limite de alta de 11,45% mais cedo. O DI para janeiro de 2022 fechou com taxa de 8,148%, de 7,922% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2025 terminou com taxa quase estável, em 11,50% (mínima), de 11,497% na quinta-feira.

O anúncio das saídas de quatro integrantes da equipe econômica, incluindo o secretário do Tesouro e Orçamento, Bruno Funchal, e o do secretário do Tesouro, Jeferson Bittencourt, na quinta à noite já trouxe estresse à curva pela manhã, que foi ganhando força na medida em que cresciam as especulações de que Guedes também deixaria o cargo. O ministro negou tudo em entrevista no período da tarde desta sexta. “Vamos trabalhar até o fim do governo”, disse.

“Guedes amenizou o problema, deu um ‘fico’ e disse que é R$ 400 e não mais, que era o que caberia. Isso deu uma segurada nesse dia horroroso para os mercados locais”, disse o gestor de renda fixa da Sicredi Asset, Cassio Andrade Xavier.

A leitura é de que a permanência de Guedes estanca a sangria no curtíssimo prazo, mas o quadro para as contas públicas continua muito fragilizado pelas pressões políticas, até porque agora a PEC dos precatórios que vai abrir caminho para o Auxílio Brasil tem de ser aprovada nos plenários da Câmara e do Senado, para não gerar novos problemas de percurso.

As apostas para o Copom da próxima quarta-feira estão cada vez mais agressivas, com a expectativa de alta de 1,5 ponto na Selic amplamente majoritária. Nos Departamentos Econômicos, as previsões também tem sido revisadas. O Bradesco informou que agora espera avanço de 1,25 ponto porcentual, de 1 ponto antes, mesmo movimento feito pelo Credit Suisse.

Guedes praticamente avalizou a aceleração no ritmo de aperto ao afirmar que com a piora fiscal, “o BC tem de correr um pouco atrás com juro”. Ele alertou que é “obrigação do BC” não ficar atrás da curva e que é sua obrigação “dar cobertura” para a autoridade monetária.

O Ibovespa conseguiu limitar as perdas ao longo da tarde para fechar o dia em baixa de 1,34%, aos 106.296,18 pontos, tendo chegado na mínima desta sexta-feira aos 102.853,96 pontos, menor nível intradia desde 13 de novembro de 2020 (102.508,77), com giro financeiro muito intenso, a R$ 58,7 bilhões. O nível de fechamento foi o menor desde o último dia 20 de novembro (106.042,48 pontos).

O Ibovespa, que mais cedo havia chegado a cair quase 5 mil pontos entre a mínima e a máxima do dia, de 107.749,34 pontos, fechou a semana com perda de 7,28%, que chegou a se aproximar de 10% no pior momento da sessão – na semana anterior, avançou 1,61%, vindo de leves perdas de 0,06% e 0,34% nas precedentes.

Ainda assim, foi o pior desempenho semanal desde o auge do temor sobre a pandemia, em março de 2020, superando por pouco a do intervalo encerrado em 30 de outubro de 2020 (-7,22%), há quase um ano, quando prevalecia cautela desde o exterior com a eleição americana – aquela semana fora a pior para o Ibovespa desde o tombo de 18,88% entre 16 e 20 de março, o intervalo que precedeu o início da quarentena e que se mantém, até aqui, como o ponto mais baixo da pandemia. No ano de 2021, o Ibovespa cede agora 10,69%, com perda de 4,22% no mês de outubro.

Nesta sexta, com a acomodação da percepção de risco ao longo da tarde, ações como as de Petrobras e as de grandes bancos, de forte peso no Ibovespa, encerraram o dia limitando a correção vista mais cedo, quando mostravam perda em torno ou acima de 5% na sessão. Ao final, as quedas ficaram entre 0,45% (Unit do Santander) e 3,84% (Itaú PN) nas maiores instituições financeiras, e entre 0,98% (PN) e 1,97% (ON) para as de Petrobras.

Reagindo ao preço do minério de ferro na China (+2,22%), o desempenho de Vale (ON +1,22%) e de ações de siderurgia (Gerdau Metalúrgica +2,08%, Usiminas PNA +1,34%) contribuiu desde cedo para que as perdas do índice da B3, superiores a 4% no pior momento desta sexta-feira, não fossem ainda maiores.

Movidas pelo fortalecimento de 3,16% do dólar ao longo da semana, Klabin (+7,56%) e Suzano (+7,32%) seguraram a ponta positiva do Ibovespa na sessão, à frente de Qualicorp (+2,81) e Gerdau Metalúrgica (+2,08%). Na face oposta, novo dia de realização de lucros em Getnet (-15,52%), à frente de Locaweb (-8,89%) e Banco Inter (Unit -6,65%).

Desde cedo, os rumores quanto a eventual saída do ministro da Economia, Paulo Guedes, após os pedidos de exoneração apresentados na noite anterior por quatro importantes secretários das áreas de Tesouro e Orçamento, acentuaram os temores do mercado quanto à direção do fiscal no caminho para 2022, ano eleitoral, punindo severamente os ativos brasileiros.

À tarde, a busca por uma imagem de pacificação entre o presidente e o ministro contribuiu para firmar a limitação de perdas na Bolsa e a acomodação do câmbio, que já vinham sendo observadas antes da manifestação conjunta.

A rápida definição do servidor de carreira Esteves Colnago, ex-ministro do Planejamento no governo Temer e que já integrava o quadro de Guedes na Economia, para a secretaria especial do Tesouro e do Orçamento, no lugar de Bruno Funchal, foi recebida de forma favorável, contribuindo para limitar a percepção de risco.

“O rompimento do teto foi bem precificado e a aparição de Bolsonaro e Guedes juntos traz um pouco mais de tranquilidade, embora ninguém tenha gostado dessa notícia da semana, a ruptura do teto, uma medida populista, 100% voltada para eleição”, diz Viviane Vieira, operadora de renda variável da B.Side Investimentos, escritório ligado ao BTG Pactual. “A curva de juros abriu bastante, permitindo encontrar prefixados com taxas melhores, em momento de risco para a renda variável, para as ações.”

Para Viviane, a depender da definição dos novos nomes para recompor o Tesouro, e dos desdobramentos da próxima semana, pode haver alguma recuperação gradual tanto para o real como para o Ibovespa, que esta semana esteve bem descolado de Nova York, com S&P 500 em novo pico histórico, refletindo a positiva temporada de balanços trimestrais nos Estados Unidos.

“A debandada no Tesouro foi uma sinalização ruim, deixando Paulo Guedes isolado, o que explica a reação negativa, estressada, do mercado”, diz Leonardo Milane, sócio e economista da VLG Investimentos, para quem a “poeira não está baixando”, com outros fatores de risco ainda pendentes no curto prazo, como a possibilidade de paralisação de caminhoneiros. “A curva de juros abriu mais ainda. O estouro do teto mostra que o Guedes não está mais lá para impedir que o teto seja furado”, acrescenta Milane, observando que, na prática, “com teto furado, o mercado precifica que o ministro já caiu”.

Nesta sexta, ao lado de Bolsonaro, Guedes tentou se desvincular da imagem de “fura-teto”. Segundo o ministro, seu papel é o de avaliar o limite de aumento de gastos para não abalar os fundamentos fiscais. Em outro momento, Guedes disse que a mudança no indexador do teto de gastos é “defensável tecnicamente” e que não altera os fundamentos fiscais da economia.

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