Dólar firma alta e vai a R$ 5,31 com ata do Federal Reserve

·
Atualizado há 5 anos

O dólar subiu pela manhã, em meio ao ambiente mais adverso a risco nesta quarta-feira no mercado internacional com preços do bitcoin despencando, e chegou a zerar a alta no começo da tarde. A moeda, porém, voltou a ganhar força com a divulgação da ata da reunião de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano). Prevaleceu no documento a visão de que a aceleração da inflação nos Estados Unidos é um movimento “transitório”, o que frustrou os participantes do mercado, preocupados com os números mais altos dos últimos índices de preços, sobretudo em abril.

Ao mesmo tempo, houve a primeira menção na ata de “alguns dirigentes” sobre a intenção de começar nas próximas reuniões a discussão da redução das compras de ativos.

Nesse ambiente, o dólar voltou a superar os R$ 5,30, enquanto as taxas de retorno dos juros longos americanos também foram para as máximas do dia e as moedas de emergentes perderam força, em meio a um movimento generalizado de fuga de ativos de risco. O noticiário político doméstico foi agitado e contribuiu para o clima de cautela.

O real, que vinha tendo o melhor desempenho recente ante o dólar, nesta quarta-feira foi a moeda que mais perdeu força no mercado internacional, considerando uma cesta de 34 divisas mais líquidas. No fechamento, o dólar à vista terminou a quarta-feira em alta de 1,17%, a R$ 5,3158. No mercado futuro, o dólar para junho tinha ganho de 0,99% às 17h35, a R$ 5,3195.

A consultoria inglesa Oxford Economics prevê que o Fed vai oficialmente anunciar seus planos para reduzir as compras mensais de ativos em agosto, durante o simpósio anual de Jackson Hole, organizado pelo próprio BC americano e que tradicionalmente é aberto com discurso do presidente da instituição. O simpósio já foi usado no passado recente para anunciar mudanças da política monetária.

A redução das compras deve começar no início de 2022, prevê a economista-chefe para os EUA da Oxford, Kathy Bostjancic, em relatório. Já a elevação dos juros deve começar no início de 2023. Estes dois movimentos devem ajudar a fortalecer o dólar e nesta quarta já foi possível ver o reflexo disso nas cotações.

Com a influência do exterior prevalecendo nesta quarta no câmbio, os eventos domésticos foram apenas monitorados, mas reforçaram a visão de cautela com Brasília, incluindo o depoimento do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, na CPI da Covid no Senado, e a operação da Polícia Federal contra o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, envolvendo denúncias de exportação de madeira.

Como ressalta um gestor carioca, estes eventos não foram determinantes para os preço nesta quarta no câmbio, mas adicionam ingredientes para piorar o ambiente político em Brasília, com potencial de trazer volatilidade pela frente.

O Ibovespa chegou a zerar perdas pontualmente logo no início da divulgação da ata do Federal Reserve no período da tarde, mas voltou a terreno negativo, interrompendo nesta quarta-feira a sequência de quatro ganhos ao fechar em leve baixa de 0,28%, aos 122.636,30 pontos, com giro a R$ 35,3 bilhões, entre mínima de 121.595,27 e máxima de 123.013,40 pontos na sessão. Na semana, o índice da B3 avança 0,62% e, no mês, 3,15% – no ano o ganho está em 3,04%.

Na ata, o reconhecimento, na visão de “alguns” do colegiado, de que o BC americano pode iniciar nas próximas reuniões debate sobre o programa de afrouxamento quantitativo (QE) colocou os juros dos Treasuries nas máximas da sessão, assim como o dólar à vista no Brasil, a R$ 5,32. Na ata, o Fed pondera que o debate sobre o fim do QE depende de avanços na economia.

No texto, as autoridades monetárias reiteram que a inflação nos Estados Unidos aumentou, em grande parte, devido a fatores transitórios, e que a compra de ativos será mantida até que haja “progressos substanciais” quanto aos preços e o emprego. Além dos índices de ações em Nova York (Dow Jones -0,48%), o dia também foi negativo para o Brent, em queda de quase 3% para o contrato de julho, na ICE – Petrobras PN e ON fecharam o dia respectivamente em baixa de 0,76% e 0,31%.

“A sinalização de que o Fed pode diminuir o ritmo de compra de ativos gerou um efeito de realização nos mercados, que também chegou por aqui”, diz Júlia Aquino, especialista da Rico Investimentos.

Ainda que cercado de ressalvas, o início das discussões sobre “tapering” contribui para a cautela dos investidores, na medida em que, desde a última reunião do Fed, apenas o presidente da distrital de Dallas, Robert Kaplan, havia apontado publicamente que a recuperação da economia ensejava a possibilidade de início da discussão sobre a retirada de estímulos. Nesta quarta, antes do anúncio da ata, o presidente do Fed de St. Louis, James Bullard, disse que o BC americano estava “mais perto” de iniciar o debate sobre a redução do QE.

Entre os setores do Ibovespa, os papéis de mineração e siderurgia voltaram a pesar sobre o índice, em resposta à queda nas cotações do aço e do minério de ferro na China, aliviadas do “receio de restrições adicionais a siderúrgicas no país, que poderiam levar a cortes de produção” no segmento, observa a analista Paloma Brum, da Toro Investimentos, chamando atenção também para a “expectativa de desaceleração de atividades de construção em meio à proximidade da chegada da estação de chuvas (na Ásia).”

Assim, CSN ON segurou a ponta negativa do Ibovespa na sessão, em baixa de 3,98%, superada apenas por Cyrela (-4,03%) – Vale ON fechou o dia em baixa de 2,05%. No lado oposto, Cemig fechou em alta de 5,07%, BRF, de 4,56%, e Eletrobras ON, de 4,17%. Além de Cemig, destaque positivo também, pelo segundo dia, para Eletrobras (PNB +3,62%), com a expectativa para votação de MP sobre a privatização da empresa.

Além do avanço do IGP-M, acima do esperado na segunda prévia de maio, o que favorece as receitas de empresas vinculadas ao índice, como as transmissoras de energia, o desempenho de ações do segmento tem reagido também a mudança de classificação tarifária. “Ao longo das últimas semanas muito tem se discutido sobre o nível dos reservatórios e, consequentemente, sobre o preço de energia”, observa em nota Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos. “Em junho esperamos alcançar a bandeira vermelha 2 e, no final do ano, deverá convergir apenas para o patamar vermelha 1”, acrescenta.

A divulgação da ata da mais recente reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) devolveu aos juros futuros o viés de alta visto na etapa matutina. A revelação de que alguns membros do Federal Reserve disseram ser apropriado começar a debater a redução das compras de ativos nas próximas reuniões fez acelerar as taxas no exterior e, por tabela, no Brasil. No cenário doméstico, as pressões inflacionárias no atacado seguem preocupando, após leituras fortes dos índices de preços da Fundação Getulio Vargas.

A taxa do Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 subiu de 4,97% na terça a 5,00% no encerramento da sessão regular nesta quarta, maior nível desde 24 de março de 2020. O DI janeiro 2023 passou de 6,808% a 6,835%. O DI janeiro 2025 foi de 8,295% a 8,34%. E o janeiro 2027 avançou de 8,866% a 8,92%.

Mais importante evento da agenda da semana, a publicação da ata do Fed ocorreu no meio tarde. A reação foi primeiramente tímida, à medida que o documento reforçou a visão de que o atual choque inflacionário nos EUA é transitório. Minutos após, contudo, a pressão nas taxas – em termos globais – se impôs, uma vez que o texto da autoridade monetária americana revelou também que dirigentes apontaram ser apropriado iniciar o debate em torno da redução do relaxamento quantitativo (QE).

“Prevemos que o Fomc anunciará formalmente os planos de redução gradual em agosto, no Simpósio Econômico de Jackson Hole, e a redução começará no início de 2022”, afirmam analistas da Oxford Economics, em relatório enviado a clientes.

Domesticamente, à medida que o mercado assimilava a ata do Fed, as taxas mais longas do DI iam subindo. Os contratos fecharam próximo dos mais altos níveis do dia.

De certa forma, o vocabulário do Fed deu novo fôlego ao temor registrado pela manhã no mercado local. Havia viés de alta desde cedo, com a forte aceleração da segunda prévia do Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), da FGV, a 3,83% em maio, após 1,17% em igual decêndio de abril. Esse salto veio na esteira da surpresa, na segunda-feira, do IGP-10, que superou o teto das estimativas.

Para a agenda da quinta-feira, o mercado de renda fixa observa os dados da arrecadação federal de abril, que podem começar a mostrar os efeitos da segunda onda da covid-19 no Brasil. Há também o leilão de prefixados do Tesouro, no fim da manhã.

Fique sempre atualizado

Entre no nosso grupo do WhatsApp e siga nosso perfil no Instagram para não perder nenhuma notícia!