Dólar zera queda e termina estável a R$ 5,55 com cautela externa e feriado

O dólar chegou próximo de engatar o sexto dia seguido de queda ante o real, mas no final dos negócios o movimento perdeu força e a moeda norte-americana acabou encerrando o dia perto da estabilidade. A mudança ocorreu refletindo comportamento semelhante da divisa americana no exterior, que passou a renovar máximas nos países desenvolvidos e em alguns emergentes, como o México, em meio a um movimento de realização de ganho após as quedas recentes e preocupações com o avanço da pandemia ao redor do mundo.

No mercado doméstico, operadores destacam que prevaleceu também a tradicional cautela antes do feriado da quarta-feira, 21, um dia antes do prazo final para o presidente da República, Jair Bolsonaro, sancionar o Orçamento de 2021, que após acordo do Planalto com o Congresso deixa R$ 125 bilhões em despesas fora do teto e provocou uma mistura de sensação de alívio com frustração nas mesas de operação.

No fechamento, o dólar à vista encerrou o dia estável (+0,01%), a R$ 5,5508. No mercado futuro, o dólar para maio subia 0,23% às 17h40, cotado em R$ 5,5625.

Na esperada participação do ministro Paulo Guedes na tarde desta terça na entrevista da Receita para apresentar a arrecadação de março, que veio com números fortes, o ministro disse que no acordo para o Orçamento, embora com despesas fora do teto, os gastos obedecem compromisso com a saúde e com o fiscal. “Gastos recorrentes continuam sob o teto e mostram compromisso com responsabilidade fiscal”, disse ele.

As declarações não afetaram os preços, mas foram monitoradas de perto e nas mesas de operação havia um misto de alívio pelo impasse do orçamento ter finalmente chegado ao fim com frustração por gastos fora do teto e constatação de que o compromisso com a disciplina fiscal em Brasília, ao contrário do que Guedes falou, já não é forte e pode diminuir.

“O debate do Orçamento caminho para um desfecho. Se o resultado não será o pior dos mundos imaginado anteriormente, tampouco traz uma confiança grande no comprometimento com o ajuste fiscal do país”, comenta o estrategista-chefe e sócio da TAG Investimentos, Dan Kawa, em sua análise diária.

Se a pandemia não der trégua, a pressão em Brasília para aumentar gastos públicos além do teto vai persistir, a menos que as taxas de aprovação de Bolsonaro melhorem, avaliam os economistas do Citi nesta terça-feira. O banco americano vê despesas superando o teto de gastos este ano em R$ 158 bilhões, o equivalente a 2% do Produto Interno Bruto (PIB). A estimativa anterior do Citi era que o rombo ficasse em 1%, ou R$ 75 bilhões, mas o número ficou ultrapassado.

“O balanço de riscos permanece enviesado em direção a números maiores de déficits”, alertam os economistas do Citi para Brasil, Leonardo Porto, Paulo Lopes e Thais Ortega. “O que acabou acontecendo no Brasil (com a pandemia) superou até as mais pessimistas das avaliações”, completam. “Mais medidas fiscais devem vir em breve.”

O Ibovespa lutou e conseguiu conservar a linha dos 120 mil pontos no fechamento desta véspera de feriado no Brasil, com mercado aberto lá fora na quarta-feira. Superado o impasse sobre o Orçamento de 2021 na noite anterior, o dia ainda assim foi negativo para o índice da B3, que operou correlacionado a Nova York e ao petróleo na sessão, contribuindo para que Petrobras (PN -1,89%, ON -2,48%) devolvesse parte dos ganhos da segunda-feira, 19, quando reagiu bem ao discurso de posse do novo presidente da estatal, Joaquim Silva e Luna. Nesta terça-feira, o Ibovespa fechou em baixa de 0,72%, aos 120.061,99 pontos, entre mínima de 119.841,33 e máxima de 121.353,82 pontos, com giro financeiro a R$ 32,1 bilhões.

Na semana, cede 0,87%, limitando os ganhos do mês a 2,94% – no ano, ainda avança 0,88%.

A falta de reação das ações de bancos, com perdas que chegam a 21% no ano (BB ON), e o desempenho negativo de Vale ON (-1,46%) na sessão, com dados de produção abaixo do esperado para o primeiro trimestre, contribuíram para manter o Ibovespa em terreno negativo na maior parte do dia, de realização em Nova York.

“O yield da T-note de 10 anos tem se acomodado na faixa de 1,55% a 1,60%, após ‘spike’ que o levou além de 1,70%. E os índices de Nova York vêm de máximas. Temos uma situação externa favorável, que se reflete nos preços das commodities e nos ajuda”, diz Ricardo Campos, sócio e gestor da Reach Capital. “No Brasil, há muita coisa acontecendo nas empresas, com movimentações sobre aquisições e fusões no varejo, setor que com as administradoras de shoppings e as utilities – estas pela alta dos juros longos – sofreram. Há espaço para o Ibovespa andar, especialmente no segundo semestre, com as vacinas”, acrescenta. “O IBC-Br mostrou que o primeiro trimestre, para o PIB, não vai ser tão ruim quanto se temia, de novo – e os juros continuam baixos. Passado o Orçamento, a atenção se volta, na próxima semana, para o discurso de Bolsonaro na Conferência do Clima. Se for na direção certa, os gringos podem olhar um pouco melhor pra gente.”

Nesta terça, após indecisão ao longo da tarde, o Ibovespa conseguiu se sustentar acima dos 120 mil pontos pelo quinto fechamento consecutivo, mesmo com o investidor optando por colocar algum dinheiro no bolso, na véspera do feriado de Tiradentes. Um grau maior de volatilidade era esperado por analistas nesta aproximação do feriado em que, apesar do encaminhamento de solução para o Orçamento, fica a sensação de que mais uma vez o recurso à criatividade abriu espaço para despesas ficarem fora do teto. Ainda assim, há o contraponto, positivo, de que se está perto de desfecho para a longa negociação e deliberação sobre a peça orçamentária, com divergência aberta entre a base política e a equipe econômica.

Na B3, o dia foi negativo para o setor de commodities e siderurgia (Usiminas -1,63%, CSN -1,62%), com a maioria das ações de bancos também em baixa, à exceção de BB ON (+1,62%) e Santander (+0,21%). Na face positiva do índice, destaque para alta de 8,92% em Pão de Açúcar, seguida por Marfrig (+4,60%), Cemig (+3,85%) e Carrefour (+3,29%), após a filial brasileira da rede de supermercados francesa divulgar forte desempenho das vendas no primeiro trimestre. No lado oposto, Yduqs cedeu 5,29%, Lojas Renner, 4,05%, e Gol, 3,93%.

Os juros fecharam a terça-feira em alta, que foi mais acentuada nos vencimentos de longo prazo e, com isso, a curva voltou a ganhar inclinação. A despeito do recuo do dólar em boa parte da sessão, da queda nos rendimentos dos Treasuries e de dados positivos da arrecadação federal, o mercado de juros reagiu mal ao resultado do acordo para o Orçamento de 2021, aproveitando para realizar lucros após quatro sessões consecutiva de baixa nas taxas.

Se na segunda-feira, 19, numa primeira leitura, trouxe algum conforto a ideia de que o impasse havia finalmente chegado ao fim, hoje, com mais detalhes dos ajustes feito ao texto, a conclusão é de que a responsabilidade fiscal ficou comprometida, ainda que oficialmente tenha havido respeito ao teto de gastos.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) de janeiro de 2022 fechou a sessão regular a 4,69%, de 4,636% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2025 subiu de 7,876% para 7,98%. A do DI para janeiro de 2027 encerrou em 8,63%, de 8,494% na segunda-feira.

“A curva entrou numa correção. O Orçamento foi resolvido de forma a não romper formalmente o teto e do ponto de vista político foi ‘ok’, mas não mostrou comprometimento grande com o fiscal”, disse a economista-chefe da Azimut Brasil Wealth Management, Helena Veronese.

Embora o imbróglio do Orçamento tenha “se resolvido”, os cenários fiscal e político ainda devem continuar mantendo a curva inclinada, na medida em que outros riscos no radar recomendam cautela, como a CPI da Covid e a pandemia.

Na agenda, a terça-feira trouxe dados bons da arrecadação, mas relegados, na medida em que foram inflados pelo câmbio, via receitas obtidas com a tributação de importações, e que os números de abril já devem mostrar piora com o aumento das restrições à circulação e à atividade.

A arrecadação somou R$ 137,932 bilhões em março, acima do teto das estimativas de R$ 128,8 bilhões. “Para abril, a expectativa é de número mais fraco, já que passamos um mês praticamente dentro da pandemia”, afirmou Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset.

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