O Ibovespa engatou o segundo dia de recuperação parcial, embora, como ontem, em marcha mais lenta do que a observada em Nova York, com os investidores, por aqui, ponderando dados econômicos, como a forte arrecadação federal em junho como no consolidado do primeiro semestre, e políticos, especialmente a proximidade de nova readequação ministerial para acomodar melhor o Centrão e reforçar o apoio ao governo no Senado, onde tem sofrido derrotas na CPI da Covid. Entre um fator e outro, o índice da B3 fechou nesta quarta-feira não tão distante da estabilidade, em leve alta de 0,42%, a 125.929,25 pontos, entre mínima de 125.246,63 e máxima de 126.111,75 pontos, saindo de abertura aos 125.404,24 pontos.
Na semana, vindo de perda de 1,24% na segunda-feira, quando prevaleciam temores globais decorrentes da variante Delta sobre a retomada econômica, o Ibovespa limita as perdas a apenas 0,02%, em baixa de 0,69% no mês – no ano, acumula ganho de 5,81%. Enfraquecido como ontem, o giro financeiro desta quarta-feira ficou em R$ 24,7 bilhões.
“Apesar de um ajuste natural na margem, tivemos hoje leitura bem positiva sobre a arrecadação federal em junho, no maior nível para o mês desde 2011, e o melhor primeiro semestre da série histórica. Mas os ruídos políticos atrapalham, e a expectativa de desmembramento na Economia para recriação do Ministério do Trabalho pode refletir uma tentativa de agradar a base, após o veto sinalizado pelo governo ao fundo eleitoral. Lembrando que em agosto, com o fim do recesso, há duas reformas importantes – administrativa e tributária – e possivelmente a privatização dos Correios”, diz José Falcão Castro, especialista em renda variável da Easynvest.
“Desde que renovou topo aos 131 mil pontos em 7 de junho, o Ibovespa entrou em correção de curto prazo, por motivos evidentes, inclusive lá fora, com a variante Delta e os temores relacionados a inflação. Depois dos excessos vistos na segunda-feira, também no exterior, os mercados colocaram nessas últimas duas sessões os pés um pouco no chão”, acrescenta Castro, destacando, na sessão, a recuperação na casa de 4% observada nos preços do petróleo, que contribuiu para ganhos acima de 1% em Petrobras ON (+1,61%) e PN (+1,39%) no fechamento desta quarta-feira.
Como pano de fundo, no exterior, a variante Delta segue ainda no radar, o que ofuscou em certo momento parte do brilho de uma positiva temporada de balanços corporativos nos Estados Unidos e também na Europa. Assim, embora se espere manutenção da orientação da política monetária na zona do euro, os mercados estarão atentos amanhã à decisão do Banco Central Europeu (BCE) e às declarações de sua presidente, Christine Lagarde, observa Castro.
Na ponta do Ibovespa nesta quarta-feira, destaque para ganho de 8,50% em IRB, de 4,59% em Braskem e de 3,00% em Embraer. Na face oposta, Americanas ON cedeu 5,67%, Lojas Americanas, 5,16%, e Fleury, 2,87%. Entre as blue chips, Vale ON fechou em alta de 1,15%, com desempenho positivo também para as ações de bancos (Santander +1,05%) e siderurgia (Gerdau PN +2,26%, CSN ON +2,22%).
O enfraquecimento global da moeda americana abriu espaço para uma rodada de apreciação mais forte do real na tarde do pregão desta quarta-feira, 21. Renovando mínimas de forma sucessiva, o dólar à vista não apenas rompeu o piso de R$ 5,20 como passou a ser negociado na casa de R$ 5,18.
Segundo analistas, a recuperação do apetite ao risco no exterior, com alta firme das Bolsas americanas, do petróleo e do rendimento dos Treasuries, se sobrepôs aos ruídos políticos locais e abriu espaço para a “correção dos exageros” na depreciação do real, que liderou a perda entre divisas emergentes no auge dos temores globais com a cepa Delta do coronavírus.
Não se descarta também o rompimento de suportes técnicos quando do dólar furou o piso de R$ 5,20, o que teria levado ao disparo de ordens de ‘stop loss’ (limitação de perdas) e zeragem de posições. Ainda mais pelo fato de o dólar à vista ter ensaiado uma alta pela manhã, chegando a operar no nível de R$ 5,27.
Entre a mínima (R$ 5,1821) e a máxima (R$ 5,2774), o dólar à vista oscilou mais de 9 centavos, o que dá uma dimensão da volatilidade que tem pautado os negócios no mercado de câmbio. A moeda americana acabou fechando em queda firme, de 0,76%, aos R$ 5,1916, emendando o segundo pregão de perdas. Apesar disso, o dólar ainda acumula alta de 1,49% na semana e valorização de 4,39% em julho.
Hideaki Iha, operador da Fair Corretora, destaca que a queda do dólar ontem, de 0,37%, foi modesta comparada com a alta de 2,64% na segunda-feira. “A correção ontem foi pequena e sobrou uma gordura para queimar, o que aconteceu agora com o cenário externo melhor. Pode ter havido também fluxo mais forte”, diz Iha, que ainda vê as indefinições no quadro político como um entrave para o fortalecimento maior do real. “Tem essa questão do fundo eleitoral, a reforma do ministério e, mesmo com o recesso parlamentar, pode sair algo da CPI da Covid”.
Depois do veto ao fundo eleitoral, de R$ 5,7 bilhões, o presidente Jair Bolsonaro disse hoje que vai anunciar uma “pequena mudança ministerial” na segunda-feira, 26. Fontes ouvidas pelo Broadcast afirmam que o presidente e o ministro da Economia, Paulo Guedes, já acertaram o recriação do Ministério da Previdência e Trabalho, que seria comando pelo atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni. Bolsonaro também anunciou que vai “descontigenciar” todos os recursos do orçamento dos ministérios, pretextando aumento da arrecadação federal.
Nas mesas de operação, teme-se que a perda de popularidade de Bolsonaro esgarce seu capital político, abale sua base no Congresso e impeça a votação das reformas. Depois de “morder” com o anúncio de veto ao fundo eleitoral, Bolsonaro estaria tentando afagar o Centrão, em uma tentativa de reagrupar sua base parlamentar e se proteger das acusações da CPI da Covid. Na Casa Civil, o presidente deve alocar o senador Ciro Nogueira (PI), presidente do Progressistas, o principal partido do Centrão.
“Olhando a conjuntura política, um dólar ainda acima de R$ 5 ainda faz muito sentido”, afirma a economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte, que vê a queda da moeda americana hoje como um movimento natural de correção, em meio ao ambiente externo mais propício aos ativos de risco. “Nosso cenário ainda é de dólar a R$ 5,20 no fim do ano, e com muita volatilidade no meio do caminho. Tudo o mais constante, a Selic mais alta diminuiria a taxa de câmbio. Mas o retrato do Brasil ainda é muito ruim. Não vejo um fluxo grande de recursos nos próximos meses.”
Dados divulgados pelo Banco Central mostram que o País registrou fluxo cambial negativo de US$ 1,086 bilhão em julho até o dia 16 – com saída líquida de US$ 2,716 bilhões no segmento financeiro e entrada líquida de US$ 1,630 bilhão pelo lado comercial. No ano, até 16 de julho, o fluxo cambial é positivo em US$ 14,254 bilhões, mas o canal financeiro ainda amarga saída líquida de US$ 717 milhões.
Os juros futuros operaram com avanço moderado durante a quarta-feira, 21, de agenda doméstica limitada ao dado da arrecadação, que não chegou a interferir nos negócios. No fim da sessão regular, a curva sucumbiu às mínimas do dólar ante o real na casa de R$ 5,18 e as taxas terminaram estáveis, preservando viés de alta em alguns contratos.
Ao longo do dia, a dinâmica foi ditada pelos mercados internacionais e pelo câmbio, e a virada do dólar para baixo à tarde tirou força do avanço das taxas, que haviam encerrado a primeira etapa nas máximas junto com a moeda.
Lá fora, os receios com o avanço da cepa delta hoje foram colocados em stand by e uma série de balanços considerados positivos alimentou o apetite pelo risco, deslocando o fluxo dos títulos americanos para as Bolsas e, com isso, causando avanço nos retornos.
Esse contexto limitou o espaço para a continuidade da devolução de prêmios na curva local, que havia já fechado bem nos últimos dias. O cenário político segue sendo fator de desconforto, mas com influência secundária hoje nos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI).
As taxas dos DIs para janeiro de 2022 e janeiro de 2023 terminaram estáveis em 5,77% e 7,12%. O DI para janeiro de 2025 encerrou com taxa de 8,12%, de 8,095% ontem, e a do DI para janeiro de 2027 passou de 8,563% para 8,57%.
Sem condutores fortes para os negócios, a oscilação foi, de maneira geral, contida, assim como a liquidez ficou abaixo da média diária dos últimos 30 dias.
A agenda da quarta-feira ficou restrita à arrecadação, que, segundo a Receita Federal, em junho foi de R$ 137,169 bilhões, pouco abaixo da mediana das estimativas, de R$ 137,450 bilhões.