O Ibovespa aparou a recuperação parcial vista na véspera do feriado e chegou a voltar a terreno negativo na tarde desta quarta-feira, 3, à espera da votação da PEC dos Precatórios, essencial à viabilização do Auxílio Brasil, que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), tentará mais uma vez colocar em votação nesta noite.
O líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), disse à tarde que o governo trabalha para conseguir os votos necessários para aprovar a PEC ainda hoje, no plenário da Casa. Segundo ele, o relator, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), trabalha em mudanças no texto para ampliar a aceitação da proposta. Por outro lado, a bancada do PT, segunda maior da Câmara dos Deputados, fechou questão hoje contra a PEC dos Precatórios.
Mesmo com as incertezas políticas, que reverberam sobre a situação fiscal, o Ibovespa chegou a acompanhar a melhora de humor em Nova York logo depois do comunicado sobre a decisão de política monetária do Federal Reserve, que confirmou, conforme esperado, o início do processo de retirada de estímulos monetários, o chamado ‘tapering’. Enquanto S&P 500 e Nasdaq começavam então a renovar máximas, em leve viés positivo na sessão, o Ibovespa limitou a 0,02% a perda, mas voltou a se firmar no negativo até a entrevista coletiva do presidente do Fed, Jerome Powell, recebida como o ponto de inflexão do dia.
Com Powell, o Ibovespa chegou a subir 0,93%, a 106.535,53 pontos, perto da máxima do dia, de 106.754,42 pontos, vista mais cedo. Powell disse na entrevista coletiva que o foco da reunião desta semana foi o ‘tapering’, e não uma possível elevação da taxa básica de juros. Ele afirmou também que o apoio do Fed à recuperação da economia continuará, o que também ressoou bem no mercado. Segundo o BC americano, o ‘tapering’ será de US$ 5 bilhões por mês, em títulos atrelados a hipotecas, e de US$ 10 bilhões em Treasuries. “Estamos preparados para ajustar a política monetária caso surjam riscos”, observou também o Fed no comunicado.
“O Fed sinalizou bem o que viria hoje, e o volume de US$ 15 bilhões anunciado ficou em linha com o que era aguardado”, diz Lucas Mastromonico, operador de renda variável da B.Side Investimentos, chamando atenção, na B3, para o desempenho negativo das ações de mineração e siderurgia, ainda refletindo receios de que os preços do minério de ferro sigam em correção negativa em razão de pressões das autoridades chinesas, e positivo para as de varejistas na sessão, com alguma melhora nos juros longos, benéfica para a demanda do setor.
Ao final, minguando nos últimos minutos, o índice de referência da B3 mostrava leve ganho de 0,06%, aos 105.616,88 pontos, saindo de mínima na sessão a 104.204,66, com abertura aos 105.547,05 pontos e giro financeiro reforçado, a R$ 41,9 bilhões no encerramento. Na semana, o Ibovespa avança 2,04%, com perdas no ano ainda a 11,26%.
O dia foi negativo para o setor de commodities, especialmente Vale ON (-7,59%, maior perda da carteira Ibovespa na sessão, à frente de Bradespar -7,54%)), e também siderurgia (Usiminas PNA -5,57%, terceira maior perda do Ibovespa; CSN ON -4,58%), ajustando-se às idas e vindas nos preços do minério de ferro nos dois últimos dias. Com o petróleo em queda entre 3% e 4%, devolvendo o Brent à casa de US$ 81 por barril, Petrobras ON e PN fecharam o dia, respectivamente, em baixa de 4,25%, na mínima do dia, e 4,11%.
Por outro lado, as ações de grandes bancos buscaram acompanhar a expectativa positiva para o balanço do Itaú Unibanco, a ser divulgado após o fechamento de hoje. Assim, Itaú PN avançou 0,95%, BB ON, 0,65% e Unit do Santander, 0,25%, enquanto Bradesco ON e PN cederam 0,29% e 0,83%, respectivamente. Na ponta positiva do Ibovespa, destaque para Lojas Americanas (+13,33%), à frente de Locaweb (+9,07%) e Grupo Soma (+8,90%).
A possibilidade real de votação da PEC dos Precatórios na Câmara dos Deputados hoje à noite e, especialmente, o tom ameno do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, desautorizando apostas em alta dos juros nos EUA no primeiro semestre de 2022, derrubaram o dólar na sessão desta quarta-feira, 3.
O movimento de apreciação do real, contudo, não foi linear. Nas primeiras horas de negócios, o dólar trocou algumas vezes de sinal e chegou a se aproximar de R$ 5,70, ao registrar máxima a R$ 5,6990 (+0,51%). Isso a despeito do tom duro da ata do Copom, que chancelou a perspectiva de taxa Selic em dois dígitos no fim do atual ciclo de aperto monetário.
Já no fim da manhã, a moeda americana perdia força por aqui, movimento atribuído por operadores a fluxo comercial e realização de lucros. No início da tarde, as perdas se acentuaram, com o dólar tocando a casa de R$ 5,60, em meio à informação de que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), havia convocado sessão da Câmara dos Deputados para 18h, com o objetivo de votar a PEC dos Precatórios.
As mínimas da sessão, com a moeda americana não apenas furando o piso de R$ 5,60 como passando a ser negociada momentaneamente na casa de R$ 5,57, vieram com o enfraquecimento global do dólar, na esteira de declarações de Powell, em entrevista coletiva após o Fed anunciar o início do “tapering”, com redução do volume mensal de compra de títulos em US$ 15 bilhões.
A leitura predominante é que o tom da fala de Powell foi “dovish”. Embora o “tapering” possa terminar em meados de 2022, o presidente do BC americano disse que há espaço para os integrantes do Fed serem “pacientes com a taxa de juros”. Powell afirmou também que vai continuar a apoiar à recuperação da economia e que ainda há um longo caminho a percorrer para atingir a meta de pleno emprego nos EUA, um dos objetivos da instituição. Tudo temperado, como sempre, por ressalvas de que o Fed pode modular suas ações de acordo com os indicadores econômicos.
O sócio e economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, observa que houve uma mudança recente na precificação do mercado futuro em torno da alta de juros nos EUA. Há cerca de dois meses, o mercado espelhava chance de 50% de elevação dos juros em novembro e dezembro. “Nas últimas semanas, essa precificação tinha mudado, com mais de 50% de chance de alta em junho. De certa forma, o Fed reduz essa expectativa novamente, sinalizando implicitamente que só vai subir os juros no segundo semestre”, diz Velho, acrescentando que isso tira um pouco de pressão da taxa de câmbio.
Após a fala de Powell, o índice DXY – que mede a variação do dólar frente a seis moedas fortes – passou a trabalhar em queda, abaixo dos patamar do 94,000 pontos. Divisas emergentes pares do real, o peso mexicano e o rand sul-africano, que perdiam força, trocaram de sinal e passaram a operar com ganhos firmes frente à moeda americana.
Por aqui, o dólar à vista chegou a tocar na casa de R$ 5,57, ao descer até a mínima de R$ 5,5782 (-1,62%). Com leve desaceleração na reta final do pregão, a moeda encerrou o dia em queda de 1,42%, cotada a R$ 5,5897.
Estrategista da Davos Investimentos, Mauro Morelli vê a taxa de câmbio pressionada por forças antagônicas, dado que o cenário externo é positivo, com maior propensão ao risco após o Fed, enquanto o ambiente interno ainda é de muita incerteza. A leitura de Morelli e que o BC americano, com a fala de Powell, sinalizou que não vai subir os juros até o fim do ano que vem.
A manutenção da política monetária frouxa nos EUA, aliada a possibilidade de uma alta mais forte da Selic, se traduz em aumento do diferencial de juros interno e externo. “Isso pode tirar um pouco de pressão do dólar no curto prazo. Mas a volatilidade tende a continuar”, diz Morelli, ressaltando que o ambiente econômico ainda é frágil, com inflação alta e perspectiva de crescimento menor do PIB por conta da Selic mais alta. “E vamos ter também no ano que vem o risco da eleição impactando o câmbio”.
Em sua ata, o Copom fez uma alusão à mudança no teto de gastos ao afirmar que os “questionamentos em relação ao arcabouço fiscal elevaram o risco de desancoragem das expectativas de inflação”. Isso implica, segundo o colegiado, “maior probabilidade para cenários alternativos que considerem taxas neutras de juros mais elevadas”. Embora o Copom tenha já sinalizado nova alta da Selic em 1,50 ponto porcentual em dezembro, a maioria dos analistas avalia que o BC deixou aberta a possibilidade de elevação em ritmo ainda maior, cenário que já foi discutido no encontro de outubro.
O mercado acompanha de perto as negociações para votação ainda hoje da PEC dos Precatórios no plenário da Câmara. Embora abra espaço para a mudança da regra do teto dos gastos, em uma manobra com cheiro de contabilidade criativa, a PEC traz alguma luz sobre o que será, de fato, o Orçamento de 2022, ao garantir o financiamento do Auxílio Brasil e, assim, afastar a possibilidade de que o governo prorrogue o auxílio emergencial via créditos extraordinários. Além do novo programa social, há dúvidas sobre como o governo vai encontrar espaço para pagar as dívidas judiciais caso a PEC não vingue. “Diminui um pouco a incerteza, já que tira uma espada importante que estava sobre a cabeça do governo. Mas está longe de resolver os problemas fiscais”, afirma Morelli, em referência a eventual aprovação da PEC dos Precatórios.
Os juros futuros fecharam o dia em queda, como resultado da leitura da ata do Copom combinada à expectativa de votação ainda nesta quarta-feira, 3, da PEC dos Precatórios na Câmara. No documento, diretores admitiram terem avaliado na última reunião a possibilidade de uma alta da Selic maior do que a de 1,5 ponto porcentual aplicada na semana passada, o que consolidou na curva as apostas de uma aceleração no ritmo de aperto nas próximas reuniões. Inicialmente, a ponta curta reagiu com avanço firme, mas, na medida em que crescia a movimentação em Brasília indicando esforço para a votação do texto, os curtos inverteram o sinal, dada a avaliação de que a política monetária está refém da política fiscal.
Do exterior, declarações consideradas “dovish” do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, puxaram ainda mais para baixo as taxas na reta final da sessão regular, em entrevista coletiva após a reunião da instituição, cujo comunicado foi considerado dentro do previsto. O Fed confirmou as previsões, anunciando que o tapering começa este mês, com redução de compras em US$ 15 bilhões.
Apesar do alívio, boa parte das taxas segue rodando na casa dos 12%, com inclinação negativa em alguns trechos. A do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou em 8,38%, de 8,397% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2023 caiu de 12,296% para 12,09%. A taxa do DI para janeiro de 2025 fechou em 12,03% (12,496% no ajuste anterior) e a do DI para janeiro de 2027 encerrou em 12,04%, de 12,534%.
O economista-chefe do Banco Original, Marco Antônio Caruso, considera que a questão da PEC na sessão de hoje teve um pouco mais de relevância para o mercado, na medida em que a leitura da ata deixa claro o quanto a política fiscal é determinante nas apostas para a Selic. “Quando se lê a ata, fica bem explícito o que o Roberto Campos Neto já tinha dito, que a política monetária é passageira da política fiscal”, disse Caruso.
Na ata, os diretores afirmam que o “esmorecimento no esforço de reformas” e “alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas podem elevar a taxa de juros estrutural” e que “a assimetria no balanço de riscos, resultante dos desenvolvimentos no cenário fiscal, implica elevação do risco altista para as projeções do seu cenário básico” e que “esse viés de alta é agora maior do que o anteriormente considerado”. O documento traz ainda que o Comitê avaliou cenários com ritmos de ajuste maiores do que 1,5 ponto, prevalecendo, no entanto, a visão de que trajetórias de aperto em tal passo, considerando taxas terminais diferentes, são consistentes, neste momento, com a convergência da inflação para a meta em 2022.
Desse modo, pela manhã a curva chegou a precificar 215 pontos de avanço na Selic no Copom de dezembro, mas por volta de 15h30, com as taxas curtas já tendo invertido a alta, esse prêmio desacelerava a 204 pontos, mas ainda mostrando chances de aumento de mais de 2 pontos. “Não podemos descartar uma alta de 150 pontos na próxima reunião mas se assumirmos somente essas duas possibilidades as probabilidades seriam de 84% para 200 e 16% para 225”, disse o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno.
A curva como um todo começou a melhorar no meio do dia, conforme o noticiário informava sobre o vaivém relacionado à votação da PEC, da qual depende a definição do programa Auxílio Brasil. Várias reuniões de lideranças, costuras de acordos e convocações para o plenário fizeram crescer o otimismo em relação à aprovação, já que a alternativa a um fracasso do texto – risco de novo estado de calamidade e despesas sem freio – seria muito pior para as contas públicas. “De alguma maneira, a PEC gera algum tipo de constrangimento ao aumento das despesas, ao contrário das ‘outras soluções’ que escancararam que é muito fácil mudar as regras para aumentar gasto”, avaliou Caruso. “Mesmo se passar, não acho que os prêmios da curva voltam ao que eram antes, mas ainda assim teremos algum alívio”, acrescentou.