Se pela manhã o Ibovespa parecia ter deixado a derrocada de ontem para trás, à tarde o índice sucumbiu ao pessimismo, sobretudo com as alterações na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precatórios. Ao contrário de ontem em que apenas flertou com os 100 mil pontos, hoje o índice fechou cotado em 100.774,57 pontos, queda de 1,12% e menor patamar desde 05 de novembro de 2020. Para além das incertezas dos últimos dias em relação à quando a PEC será votada no plenário do Senado e se há o quórum necessário, pesou nos ativos a intenção dos senadores de já endereçar uma nova mudança no teto de gastos para 2026. A percepção, dizem estrategistas ouvidos pelo Broadcast, é de que isso selaria o fim da âncora fiscal.
“Apesar das mudanças, o teto ainda está vivo. No dia em que achamos que a PEC ia passar, nos 45 do segundo tempo, o (senador e relator da PEC, Fernando) Bezerra diz que talvez vai colocar um mecanismo para furar o teto em 5 anos. É quase dizer, na prática, que está tirando o teto”, afirmou Rodrigo Natali, estrategista da Inversa.
Nem mesmo a intenção trazida pelo relator, no meio da tarde, de votar a proposta hoje no Senado foi suficiente para animar os investidores. Quase no fim do pregão, a sinalização foi invertida contudo e a análise do texto só deve ocorrer amanhã. A aprovação da PEC, apesar da deterioração fiscal causada pela mudança que o texto traz no teto de gastos, é vista como uma das principais incertezas domésticas. Isso porque, a cada dia em que fica no Congresso, a matéria está sujeita a mais mudanças e nova deterioração. “A PEC ainda é um monstro debaixo da cama. Cada dia em que o texto passa por mais um desafio, melhora essa incerteza. A cada novo ruído, piora um pouco”, apontou Antonio Carlos Pedrolin, líder da mesa de renda variável da Blue3.
O mau humor foi acentuado no fim da tarde após a confirmação do primeiro caso da variante ômicron da covid-19 nos Estados Unidos derrubar os ativos globais. Em Nova York, as bolsas devolveram a recuperação do início do pregão e terminaram o dia no negativo. Com isso, o Ibovespa derreteu ainda mais até chegar à mínima do dia, aos 110.726,95 pontos (-1,17%). Bem distante da máxima, pela manhã, aos 104.086,68 (+2,13%).
Pedrolin destaca que o noticiário não tem dado brechas para otimismo e inspira a cautela que ganhou a queda de braço no mercado hoje. Além das dúvidas em relação à PEC no cenário doméstico, a variante ômicron coloca incertezas em relação à possibilidade de novos lockdowns e possíveis impactos no crescimento global e os mercados emergentes ainda digerem a perspectiva de uma retirada de estímulos (tapering) americano mais rápida que o previsto. Um tapering mais acelerado implica em subida de juros antes do estimado pelos EUA e uma fuga de capital natural de emergentes para ativos de menor risco.
“Você vê a PEC, a dúvida em torno dela. Vê Powell com antecipação do tapering. Tudo isso vai trazendo um pouco mais de cautela. Acordamos positivo, com ressaca de ontem, o que é natural por movimento de recompra, mas à medida em que o pregão vai andando e dúvidas vão surgindo, há ajuste natural das posições”, apontou o líder de renda variável da Blue3.
O mau humor doméstico, contudo, não foi suficiente para retirar o sinal positivo das ações da Petrobras, que sobem desde a manhã, apesar de a alta ter perdido muita força após a virada das cotações do petróleo no fim da tarde, que passaram a cair após a notícia da confirmação do primeiro caso da variante ômicron nos EUA.
O mesmo ocorreu com a petroquímica Braskem, que sustentava a maior alta do índice, de mais de 5%. Apesar da cautela com a nova cepa, a percepção é de que uma possível pausa no aumento da produção da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) e a falta de progressos nas negociações sobre o acordo nuclear com o Irã devem diminuir o impacto da variante nos negócios.
Na outra ponta, o varejo segue sofrendo com a tempestade perfeita que se formou no setor: uma combinação de juros elevados, desemprego e endividamentos altos. Além disso, Natali, da Inversa, destaca que uma série de saques de grandes fundos multimercado e de bolsa nas últimas semanas, levados por uma migração de investidores da renda variável para juros, ajuda a derrubar as ações do setor. Destaque para Magazine Luiza, que liderou as quedas no pregão hoje, com recuo de 11,7%.
O dólar inicia dezembro em alta no mercado doméstico de câmbio, escorado em dois pilares: o ambiente externo mais desafiador – em meio à perspectiva de redução mais acelerada de estímulos monetários nos EUA e às preocupações com o avanço da variante Ômicron do coronavírus – e os percalços da tramitação da PEC dos Precatórios no Senado.
Após uma manhã de muita volatilidade e troca de sinais, reforçada pela liquidez bastante reduzida, a moeda americana se firmou em alta ao longo da tarde e passou a operar no patamar de R$ 5,66. Já na reta final dos negócios, o dólar superou a linha de R$ 5,67 e correu até a máxima de R$ 5,6718, para em seguida fechar a R$ 5,6708, valorização de 0,63%.
A aceleração do dólar por aqui veio na esteira de uma recuperação da moeda americana no exterior, em meio à deterioração dos ativos globais após a confirmação do primeiro caso da cepa Ômicron nos Estados Unidos, segundo o Centro de Controle de Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês). Termômetro do desempenho da moeda americana frente a seis divisas fortes, o índice DXY – que caía mais de 0,30% pela manhã – ganhou força e passou a trabalhar em leve alta, acima do limiar dos 96 mil pontos. Entre as divisas emergentes, o dólar também passou a subir frente ao rand sul africano e diminui muito as perdas em relação ao peso mexicano, principais pares do real.
Segundo o operador Hideaki Iha, da Fair Corretora, esse movimento externo pode ter desencadeado ordens de stop loss (limitação de perdas) no mercado local de câmbio. “O dólar havia recuado para uma faixa entre R$ 5,57 e R$ 5,60. Com essa questão da variante Ômicron e a sinalização de que os juros vão subir nos Estados Unidos, diminuindo a liquidez para os emergentes, voltou a superar R$ 5,65”, afirma Iha, destacando que o ambiente interno, de dúvidas em relação à política fiscal e fraqueza do PIB, também limitam o fôlego do real.
O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, repetiu hoje o tom duro em relação à inflação e ajudou na recuperação do dólar lá fora ao longo da tarde. Powell voltou a dizer que é “apropriado considerar acelerar o tapering” no próximo encontro do comitê de política monetária do BC americano. A aceleração do processo de redução dos estímulos, contudo, não deve trazer rupturas aos mercados, já que está sendo telegrafada “de forma apropriada”, disse Powell.
A inflação, que já foi considerada transitória e temporária, agora é vista como “persistente”. Com ontem, o presidente do Fed disse que vai usar todos os instrumentos que possui para que “a alta da inflação não fique enraizada”.
Dados do relatório ADP mostraram que o setor privado dos EUA criou 534 mil vagas em novembro, acima das expectativas, de 506 mil pontos. Os números de setembro foram levemente revisados para baixo, de 571 mil para 570 mil. Na sexta-feira, sai o relatório de emprego (payroll) nos EUA, principal referência do mercado de trabalho para o Fed.
Ao movimento externo se somou o receio diante de possibilidade de adiamento da votação da PEC dos Precatórios para amanhã(o que acabou se concretizando), em meio ao debate entre senadores sobre limites e prazos para pagamento das dívidas judiciais e vinculação do espaço fiscal a determinadas despesas. Sem a aprovação da PEC, essencial para dar visibilidade ao Orçamento de 2022, teme-se que o governo apele para a decretação de estado de calamidade e uso de créditos extraordinários para bancar o Auxílio Brasil.
Uma ala dos senadores quer que a PEC traga um limite para pagamento de despesas judiciais até 2026, e não mais até 2036, como prevê o texto atual. Além disso, há uma pressão para vincular esse espaço fiscal ao Auxílio Brasil e a despesas previdenciárias. Em resposta, o líder do governo e relator da PEC, Fernando Bezerra (MDB-PE), afirmou que a proposta apresentada, de limitar o pagamento de precatórios até 2026 (e não mais até 2036), pode levar a uma revisão do teto de gastos em 2026.
O diretor da corretora Correparti, Ricardo Gomes da Silva, afirma que o dólar foi acelerando os ganhos ao longo da tarde à medida que cresceram as incertezas em relação “ao teor do texto final da PEC dos Precatórios” que será aprovado no Senado. “O movimento aqui foi potencializado também pelas declarações de Powell, nas quais manifestou preocupações em relação ao futuro da economia global diante da nova realidade que se impõe a partir da disseminação da nova cepa do coronavírus”, afirma, em nota, Gomes da Silva, para quem há sinais de que o tapering pode ser encerrado ainda no primeiro trimestre de 2022.
Pela manhã, o Banco Central vendeu US$ 1 bilhão em leilão de linha com compromisso de recompra, com taxa de R$ 5,6168. À tarde, o BC divulgou que o fluxo cambial em novembro (até o dia 26) foi negativo em US$ 4,251 bilhões – fruto de entrada líquida de US$ 2,850 bilhões pelo canal financeiro e saída de US$ 7,101 bilhões via comércio exterior. Dados do Ministério da Economia mostraram que a balança comercial registrou déficit de US$ 1,037 bilhão em novembro. No acumulado do ano, o saldo é positivo em US$ 57,191 bilhões.
Os juros futuros começaram dezembro sem firmar direção única, como tem sido a tônica dos últimos dias, em meio às incertezas sobre os efeitos da variante Ômicron na economia global e consequente resposta das autoridades monetárias e, internamente, à espera do desfecho da tramitação da PEC dos Precatórios no Senado. No fechamento, as taxas curtas estavam em baixa e as longas, com viés de alta. Este trecho passou por uma realização parcial dos lucros após a queda firme nas três sessões anteriores, iniciada no começo da tarde, mas que perdeu ímpeto com a reação dos ativos globais à confirmação do primeiro caso da cepa Ômicron nos Estados Unidos.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 fechou a sessão regular em 11,82%, de 11,886% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2025 ficou estável em 11,49%. A do DI para janeiro de 2027 subiu de 11,383% para 11,42%. No fechamento da sessão estendida, estes DIs tinham respectivas taxas de 11,78%, 11,49% e 11,44%.
“O mercado está um pouco observador com a questão da PEC e sabatina de André Mendonça no Senado. No front externo, ainda não está claro se a questão da ômicron terá efeito desinflacionário pela menor mobilidade das pessoas e novas restrições de atividade”, afirmou o analista de Investimentos Renan Sujii.
A votação da PEC dos Precatórios no plenário estava prevista para hoje no plenário do Senado, mas a sabatina do ex-ministro da Justiça André Mendonça, indicado para compor o Supremo Tribunal Federal, e as difíceis negociações dos ajustes ao texto colocavam em risco a apreciação, que acabou ficando para amanhã. A indicação de Mendonça foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) por 18 a 9 e a votação em plenário pode ocorrer ainda hoje.
Em boa medida, a aprovação da PEC está precificada e um revés do governo tem potencial para fazer estragos nos ativos. “O placar segue incerto, com pequena vantagem para o governo pela aprovação”, afirma a equipe da Necton Política.
Segundo o economista-chefe da Greenbay Investimentos, Flávio Serrano, a curva passou hoje por um movimento de correção dos últimos dias, “após os temores da Ômicron sobre atividade e ativos”. O comportamento dos mercados internacionais contribuiu para o ajuste, em especial o do petróleo, que mostrou avanço em boa parte da sessão, mas ainda sem voltar a US$ 70, e no fim acabou virando para o negativo.
A chance de um alívio nos combustíveis tem contribuído para a visão de um Copom menos agressivo no ciclo de aperto monetário, com a probabilidade de uma alta de 2 pontos porcentuais na Selic no encontro da próxima semana já enfraquecida. “O mercado está consolidando 150 pontos, especialmente nas digitais”, comentou o economista da Greenbay.
No fim da tarde, houve uma piora de humor generalizada nos mercados internacionais e o rendimento da T-Note de dez anos inverteu o sinal para queda, o que tirou fôlego de correção dos DIs longos. O gatilho foi a confirmação do primeiro caso da cepa ômicron nos Estados Unidos. A variante já está presente em mais de 20 países, incluindo o Brasil com três casos confirmados em São Paulo.