O Brasil perdeu o último grande arquiteto que ainda projetava na prancheta, com a indefectível lapiseira bege, sem se render a computadores e softwares. Aos 92 anos, Paulo Archias Mendes da Rocha morreu no domingo, 23, de câncer. Desde a morte de Oscar Niemeyer (1907-2012), ele era o mais renomado arquiteto brasileiro. E, inconteste, o mais premiado de todos eles.
Para o arquiteto e urbanista Lucio Gomes Machado, professor da Universidade de São Paulo, Rocha foi “o mais importante arquiteto brasileiro da atualidade, seja pelo conjunto da obra, seja pelo enorme contingente de discípulos”. “Suas obras destinam-se a um amplo espectro de programas e escalas de intervenção e apresentam soluções que as unificam em torno de princípios evidentes em toda sua carreira.”
Nascido em Vitória, no Espírito Santo, em 1928, Paulo Mendes da Rocha formou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, em 1954. Dessa época, tornou-se próximo de colegas como Jorge Wilheim (1928-2014) e Carlos Millan (1927-1964) e, juntos, passaram a pensar – e, mais tarde, a produzir – a arquitetura moderna paulista. “Paulo Mendes da Rocha pertenceu à primeira geração de arquitetos formados nas escolas de arquitetura que se tornaram independentes de escolas de engenharia”, contextualiza Machado. “O ensino no Mackenzie, onde se formou em 1954, era então orientado pela arquitetura Beaux-Arts, revisada pelo filtro da Escola da Filadélfia, onde seu mentor, Cristiano Stockler das Neves, havia se formado. Muitos dos alunos reagiram a essa orientação e passaram a estudar a arquitetura moderna e a praticá-la dentro e fora da escola.”
Foi influenciado pelas propostas de João Batista Vilanova Artigas (1915-1985) que Rocha passou a conceber as primeiras obras, como o ginásio do Club Athletico Paulistano. Torna-se representante da chamada Escola Paulista, isto é, passa a lançar mão de concreto armado aparente, estruturas racionais e amplos espaços abertos. O projeto do Paulistano foi premiado na Bienal de São Paulo – e isso rendeu notoriedade ao então jovem arquiteto.
Tornou-se professor na Universidade de São Paulo (USP) em 1961, como assistente de Artigas. Anos mais tarde, durante o regime militar, acabou sendo compulsoriamente afastado pela ditadura. Machado pontua que o trabalho acadêmico de Paulo Mendes da Rocha foi “profícuo”, contribuindo para a “renovação do ensino de projeto” e para a “formação, de forma decisiva, de sucessivas gerações de arquitetos pautados por sua obra e de Artigas”. “Paulo Mendes da Rocha foi um educador generoso, não apenas como professor, mas também na convivência diária com os colegas com quem trabalhou em projetos e em obras”, pontuou ontem o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil.
Foi após a redemocratização que o arquiteto passou a desenvolver suas mais importantes obras públicas. Foi a partir de sua prancheta que a Pinacoteca do Estado, em São Paulo, assumiu a configuração que a consolidaria como um dos mais importantes museus de arte do País. Ele também concebeu o Museu Brasileiro da Escultura (MuBE), a reforma do Centro Cultural da Fiesp e a Capela de São Pedro Apóstolo (em anexo ao Palácio Boa Vista, em Campos do Jordão). Mas nem todas as suas obras são unanimidade pública. A reconfiguração da Praça do Patriarca, em São Paulo, bem como a cobertura da Galeria Prestes Maia, acabaram sendo bastante criticadas.
Nos anos 2000, Paulo Mendes da Rocha foi contratado para a intervenção que proporcionou novo programa para a Estação da Luz, com a criação do Museu da Língua Portuguesa. Ele também projetou as novas instalações do Museu Nacional dos Coches, em Lisboa. Rocha foi reconhecido em 2001 com o prêmio Mies Van Der Rohe, o mais importante da arquitetura europeia.
Cinco anos mais tarde, ganhou o Pritzker, condecoração norte-americana reconhecida como “o Nobel da Arquitetura” – dentre os brasileiros, apenas ele e Oscar Niemeyer (em 1988). Ganhou ainda o Leão de Ouro na Bienal de Arquitetura de Veneza e o Prêmio Imperial do Japão, em 2016, e a medalha de ouro do Instituto Britânico de Arquitetos (2017).
“Paulo Mendes da Rocha foi um poeta da forma, da linha reta e da precisão, contraponto complementar ao Oscar Niemeyer de curvas e informalidade”, analisa o arquiteto e urbanista Henrique de Carvalho, pesquisador da Universidade de São Paulo, blogueiro do Portal Estadão e proprietário do Ateliê Tanta. “Hoje, infelizmente, perdemos o arquiteto do concreto flutuante. É a vida nos lembrando que os gênios da sensibilidade também partem.”
Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o arquiteto e urbanista Valter Caldana define Rocha como um “mestre dos mestres”. “O que define um mestre? Sem dúvida, sua capacidade técnica, seu conhecimento profundo, sua competência reconhecida, sua energia criativa”, comenta. “Mas o que faz dele um mestre dos mestres? Além disso tudo, sem a menor sombra de dúvida sua sensibilidade na percepção do mundo à volta, sua capacidade de construir critérios claros para compreendê-lo, sua profunda sabedoria e, sobretudo, sua generosidade para com o outro.”
No ano passado, Paulo Mendes da Rocha optou por doar seu acervo à Casa de Arquitectura, museu e centro expositivo de Matosinhos, na região metropolitana do Porto, em Portugal. A decisão dividiu opiniões, entre críticos à atitude, afirmando a necessidade de o Brasil conservar uma coleção como a dele, e os que o apoiaram. “Essa decisão foi tomada há dois anos. Nunca procurei ninguém, foi o (diretor executivo Nuno) Sampaio que me fez a proposta de abrigar o acervo e convidou Catherine Otondo para fazer o inventário da obra”, contou ao , à época. O acervo tem quase 9 mil peças, entre maquetes, fotografias e desenhos originais.
No Facebook, ontem, Pedro Mendes da Rocha, filho do famoso arquiteto, publicou uma homenagem após a morte do pai. “Depois de tanto projetar edifícios em concreto e aço, meu pai foi projetar galáxias com as estrelas!”