O Conselho Regional de Medicina gaúcho (Cremers) vai abrir sindicância para investigar as “graves denúncias” de irregularidades em um estudo que testava a eficácia da proxalutamida em pacientes com covid-19. O Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul também apura o caso. Realizada no Hospital da Brigada Militar de Porto Alegre, a pesquisa não tinha aval da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).
A proxalutamida não tem autorização para ser comercializada no Brasil, mas seu uso no tratamento da covid já foi defendido publicamente pelo presidente Jair Bolsonaro. Ainda não há confirmações sobre os benefícios da droga. O medicamento está sendo desenvolvido como possível tratamento para o câncer de próstata e é fabricado na China. No segundo semestre do ano passado, começou a ser testado como alternativa para tratar a covid-19.
Em nota, o Cremers disse que soube do caso pela imprensa e avisou que vai abrir sindicância para apurar a existência de ilícito ético. O MPF gaúcho informou que havia aberto inquérito civil público no dia 13. A Brigada Militar, como é chamada a PM gaúcha, defendeu o estudo, mas disse que iria apurar em nome “da transparência, da qualidade e da lisura”. A Conep pode iniciar outra investigação. Procurada, a Anvisa ainda não se manifestou.
O caso, que envolveu 50 pacientes, foi revelado anteontem por um site jornalístico gaúcho, o Matinal. O texto relatava o caso de uma paciente diagnosticada com covid que precisou ser internada. No hospital da Brigada, teria assinado termo de consentimento para usar o medicamento experimental. Não há informações sobre o desfecho clínico de todo o grupo que recebe o remédio.
O confirmou que o responsável por comandar o estudo na instituição e ministrar o remédio foi o endocrinologista Flávio Cadegiani – que disse, via assessoria, que o estudo teria sido aprovado pela Conep em 27 de janeiro. No entanto, o coordenador do Conep, Jorge Venâncio, esclareceu que o aval se limitava a um hospital de Brasília. “Eles levaram para o Amazonas e Rio Grande do Sul sem autorização”, disse Venancio. “Fiquei sabendo do estudo pela imprensa”, ressaltou.
O infectologista Ricardo Zimerman também está por trás do estudo. A reportagem tentou contato com ele por diferentes canais, mas não obteve retorno. O apurou ainda que outros médicos foram informados do estudo, mas não se envolveram nas decisões.
Questionada sobre a falta de aprovação da Conep, a assessoria de Cadegiani afirmou que “o estudo foi aprovado com abrangência nacional, tanto que não havia um local de recrutamento especificado”. O coordenador da Conep afirmou que não existe a possibilidade de “aprovação nacional” para um estudo e a comissão deve estar ciente de todos os centros envolvidos.
“Cada estudo tem de ser analisado e aprovado. Precisamos ver se o centro de pesquisa tem condições de fazer o atendimento necessário ao participante, qual é o plano de acompanhamento… Aprovação nacional não existe”, afirmou Venancio.
Em julho deste ano, a Anvisa aprovou a pesquisa envolvendo 50 pacientes do sexo masculino. O estudo é de Fase 3, randomizado, e patrocinado pela empresa Suzhou Kintor Pharmaceuticals, com sede na China.