Pelo segundo dia consecutivo, o dólar subiu a R$ 5,80 em uma manhã de volatilidade para depois arrefecer na etapa vespertina dos negócios. O movimento de apreciação do real, que também foi positivo nos ativos domésticos nesta terça-feira, 30, contrasta com um exterior ruim onde os rendimentos dos treasuries de vencimento mais longo avançavam, as cotações dos contratos futuros de petróleo recuavam, as moedas de pares emergentes perdiam valor frente à divisa americana e, ainda, os principais índices das bolsas de Nova York operavam no vermelho.
Neste último dia antes do fechamento do trimestre, o comportamento dos ativos locais em direção oposta ao exterior pode ser explicado por uma tendência técnica de ajuste de carteiras.
O dólar à vista encerrou o dia cotado a R$ 5,7619, em baixa de 0,08%, mas oscilou no range entre R$ 5,8024, na máxima intraday e R$ 5,722, na mínima.
“O chamado ’embelezamento das carteiras’ leva o movimento para a contramão dos sinais externos, mesmo diante do caos político e sanitário no qual o país está envolto”, afirma Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos, que nota que os investidores, ainda assim, estão vendo todo o cenário negativo, tanto que o Credit Default Swap (CDS) de 5 anos do Brasil, termômetro do risco-País, avançou à marca dos 231.39 pontos no período da tarde, ante 228.38 pontos na véspera. “O investidor também está digerindo o que foi a reforma ministerial e avaliando o quanto isso pode ser positivo ou negativo em relação à ala mais ideológica.”
Para Mauro Morelli, estrategista da Davos Investimentos, nos últimos dias, o real estava muito pressionado e houve uma melhora nesta terça. “Não vejo grande mudança de cenário, apenas houve um retorno do exagero que estava tendo”, afirmou, ressaltando que a sessão tem ares de correção técnica.
Segundo Morelli, alguns analistas estão dizendo que o país está no pior momento da pandemia, tendo chegado ao pico da crise sanitária e já se mostram um pouco menos pessimistas. E, do ponto de vista político, a leitura é a de que, com as mudanças nos ministérios, o chamado Centrão ganhou um pouco mais de poder para fazer um contraponto ao governo. “O Centrão é muito pragmático, não vejo desprezando sinais, como até onde pode ir e o que pode ultrapassar, ainda mais no contexto em que foi procurado por empresários”. A despeito disso, a cena política, afirma, ainda é complexa e disfuncional.
Um conjunto de fatores do cenário doméstico nesta terça-feira trouxe alívio à curva de juros, com taxas em queda, mais acentuada nos vencimentos curtos e miolo, que tem concentrado as maiores posições do mercado. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 encerrou a sessão regular em 4,655%, de 4,776% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2023 caiu de 6,654% para 6,42%. O DI para janeiro de 2025 fechou com taxa de 8,07%, de 8,266% na segunda-feira, e a do DI para janeiro de 2027 terminou a 8,69%, de 8,834%.
O operador de renda fixa da Terra Investimentos Paulo Nepomuceno afirma que o dia não teve um driver claro, mas que a reforma ministerial ajudou, embora tenha sido, para ele, feita de forma “atabalhoada”. “A curva ganhou muito prêmio nas últimas sessões com apostas de que haveria ruptura do governo com o Centrão, o que não ocorreu”, explicou. Ao contrário, os partidos do Centrão ganharam espaço. A Secretaria de Governo foi destinada à deputada Flávia Arruda (PL-DF), o que foi visto como um gesto de aceno ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).
A indicação também agrada pelo fato de a deputada ter atuado como presidente da Comissão Mista de Orçamento (CMO), e pode ser uma aliada da equipe econômica para a questão da peça orçamentária. O secretário do Tesouro, Bruno Funchal, disse que, por ter presidido a CMO, ela tem habilidade para entender “como precisa ser conversado para resolver o problema” porque participou de todo o processo. O Orçamento virou o grande bode na sala e, após a repercussão negativa das manobras para acomodar emendas no texto, o mercado confia que ajustes serão feitos. O ministro Paulo Guedes fez um apelo aos parlamentares para que os acordos políticos caibam nos orçamentos.
Os dados do dia também ajudaram a desanuviar o ambiente. O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) de março subiu 2,94%, maior alta do mês no Plano Real, mas o mercado preferiu olhar para o fato de que a mediana era de 3,02%. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de fevereiro mostrou criação de 401.639 posto de trabalho, o melhor resultado para o mês na série histórica e acima do teto das estimativas (283.936). Por fim, o déficit do Governo Central, de R$ 21,2 bilhões em fevereiro, ficou melhor do que a mediana de déficit de R$ 26,3 bilhões.
Nepomuceno, da Terra, afirma que, apesar dos fatos do dia, a médio prazo, o que preocupa o mercado é a inflação. “O mercado precifica muito mais do que o BC está imaginando para a política monetária, do que o BC gostaria. E acho que desta vez o mercado está certo”, disse, citando o câmbio médio em patamar muito elevado, assim como os IGPs.
O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, reforçou nesta terça que a decisão de fazer um aumento da Selic mais rápido e forte pode fazer com que a alta total da taxa seja menor no fim do ciclo. “O movimento mais rápido e forte pode fazer a alta total da Selic ser menor”, disse Campos Neto no Encontro Daycoval.
Na penúltima sessão do mês, o Ibovespa resistiu ao teste dos 115 mil pontos (114.999,15 na mínima do dia) e retomou a linha dos 116 mil ainda pela manhã, pouco antes da 11 horas, para não mais deixá-la até o encerramento, em alta de 1,24%, a 116.849,67 pontos, apesar do dia negativo em Nova York e para o petróleo, com a normalização da passagem pelo canal de Suez. Nesta terça-feira, em quarto ganho consecutivo, o índice atingiu o maior nível de fechamento desde 19 de fevereiro (118.430,53 pontos), indiferente ao aumento da temperatura em Brasília, em meio à repentina troca de comando das Forças Armadas por iniciativa do presidente Jair Bolsonaro.
Em março, faltando apenas a sessão da quarta-feira, 31, o Ibovespa acumula ganho de 6,19%, limitando as perdas do ano a 1,82%. Na máxima desta terça, o índice da B3 foi aos 117.090,07 pontos, maior nível intradia desde 22 de fevereiro (118.388,07). O giro, ainda relativamente acomodado, foi a R$ 33,0 bilhões nesta sessão.
“No Brasil, a reforma ministerial sinaliza mais proximidade do governo com o Congresso, o que agrada, em um cenário fiscal ainda complicado. Com isso, o real performou bem, favorecendo o Ibovespa desde a manhã, assim como a perspectiva de aceleração da vacinação e de reabertura gradual da economia”, diz João Vitor Freitas, analista da Toro Investimentos. “O real teve desempenho mais forte, na contramão dos pares emergentes, como rublo e peso mexicano. Os yields dos Treasuries de 10 anos seguiram pressionados por temores relacionados à inflação nos EUA, que poderia interferir na política monetária estimulativa, no médio prazo.”
Assim, descolado do dia moderadamente cauteloso em Nova York após o blue chip Dow Jones ter renovado máxima histórica no dia anterior, a proximidade do fim de mês e trimestre, na quarta, suscitou um ajuste nas carteiras, favorecendo as compras de ações, com diversas ofertas de desconto.
Na B3, o desempenho negativo dos papéis ligados a commodities nesta terça-feira (Petrobras ON -0,30%, Vale ON -0,93%) foi compensado com folga pelo avanço das ações de bancos (BB ON +3,09%, Bradesco ON +2,35%) e de siderurgia (Gerdau PN +1,59%, CSN +1,21%). Na ponta do Ibovespa, Embraer fechou em alta de 9,30%, à frente de Gol (+8,56%) e Azul (+6,94%). No lado oposto, Suzano cedeu 3,31%, PetroRio, 2,26%, e Klabin, 1,08%.
A leitura amena do mercado sobre o afastamento dos comandantes de armas decorre da percepção, nas palavras de um gestor, de “cortina de fumaça, mais uma”, do presidente Bolsonaro para desviar atenção dos problemas reais, relacionados à fraca economia e à dificuldade em lidar com a pandemia, em momento no qual ainda disputa protagonismo com governadores, especialmente o de São Paulo, João Doria (PSDB). A expectativa é de que mesmo sob novo comando, ainda que mais alinhado ao Planalto, as Forças Armadas preservarão seu papel institucional, dissociado da política. O afastamento simultâneo dos três chefes das forças, contudo, é considerado sem precedentes, no que configuraria a maior crise entre poder civil e militar desde o início da redemocratização, em 1985.
Ainda assim, mais do que à cena político-institucional, a atenção do mercado segue concentrada na situação fiscal, especialmente após a aprovação do controverso Orçamento para 2021, com subestimação de despesas de custeio para encaixar emendas propostas por parlamentares. “O nosso apelo final é para que os acordos políticos caibam nos orçamentos públicos”, disse Guedes durante apresentação dos dados do Caged de fevereiro, acima do esperado, o que mais uma vez contribuiu para desempenho positivo do Ibovespa.
Por sua vez, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), admitiu nesta tarde a possibilidade de o Congresso abrir mão de emendas parlamentares para cumprir o Orçamento deste ano. Ele afirmou, porém, que o projeto aprovado na semana passada foi negociado com o governo do presidente Jair Bolsonaro e que ainda é preciso avaliar a necessidade de manutenção ou alteração. A equipe econômica aponta a necessidade de cortes para cumprir o teto de gastos neste ano.