O adeus ao maior expoente do piano

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Atualizado há 5 anos

O pianista brasileiro Nelson Freire morreu na segunda-feira, 1º, aos 77 anos, em sua casa no Rio. Segundo sua empresária, ele sofreu uma queda durante a madrugada e bateu a cabeça. A Polícia Civil do Rio informou que agentes da 16.ª DP foram à casa do artista, no bairro do Joá, para remover o corpo e realizar a perícia no local. O velório de Freire será realizado nesta terça-feira, 2, das 11 às 16 horas, no foyer do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Freire era o maior pianista brasileiro e um dos principais artistas do instrumento. Seu legado discográfico inclui gravações consideradas como referências de autores como Beethoven, Chopin, Schumann e Brahms, de quem gravou os dois concertos para piano com a Gewandhaus de Leipzig. Suas interpretações eram marcadas pela inteligência musical e pela atenção aos detalhes, com as quais oferecia novos olhares às peças que tocava.

O pianista estava longe dos palcos desde 2019, quando sofreu uma queda enquanto caminhava pelo calçadão, em Ipanema. Ele fraturou o úmero e precisou realizar uma cirurgia de emergência no braço e no ombro direitos. Após meses sem tocar, seu retorno aos palcos estava previsto para o ano passado, mas seu recitais e concertos no Brasil e em países como a França acabaram cancelados por conta da pandemia.

Segundo amigos próximos, a impossibilidade de voltar a tocar mexeu profundamente com o pianista. Há dois meses, ele desistiu de participar como jurado do Concurso Chopin, realizado em Varsóvia, na Polônia, onde estaria ao lado da pianista e grande amiga Martha Argerich, que também cancelou sua participação no concurso e esteve no Brasil com o pianista.

Em 2015, Nelson Freire voltou à sua cidade natal, Boa Esperança, no interior de Minas Gerais. Na casa de uma tia, onde ficou hospedado, mostrou um antigo piano em uma sala tomada por fotos suas. “Foi nele que aprendi a tocar o Concerto de Grieg”, contou. “Eu já vivia no Rio de Janeiro, mas a gente voltava nas férias e, como minha tia Marinha era mais séria e organizada e com uma babá muito brava, aqui era o lugar de estudar.”

Freire começou a demonstrar interesse pelo piano aos 3 anos. Aos 5, fez seu primeiro recital público, em São João del Rey. “Eu era uma criança doente, tinha muitas alergias, era difícil para comer. Eu gostava mesmo só de palmito, ameixa e de feijão com linguiça. Mas o que eu me lembro muito bem na época do recital era a preocupação do meu pai. Ele queria que eu dormisse à tarde, para eu não ter sono à noite, durante a apresentação. Mas quem disse que eu conseguia dormir?” Em 2012, o pianista voltou para São João del Rey, onde reencontrou o piano de seu primeiro concerto e fez recital no Teatro Municipal.

Ainda na infância, Freire mudou-se para o Rio de Janeiro. Aluno de Nise Obino e Lucia Branco, foi um dos vencedores do Concurso Internacional de Piano do Rio. Pouco depois, mudou-se para Viena, onde passou a estudar na concorrida classe de Bruno Seidlhofer. Na Europa, venceria o Concurso Vianna da Mota, em Portugal; nos Estados Unidos, estreou com 24 anos ao lado da Filarmônica de Nova York.

Nos anos 1970 e 1980, suas gravações em estúdio são testemunhos da qualidade com que se dedicava a autores como Brahms ou Chopin, de quem foi um dos maiores intérpretes das últimas décadas. “Não imagino minha vida sem Chopin. Em sua música, tudo soa muito natural, espontâneo, os sons vão direto para o coração das pessoas. Mas, para os pianistas, as obras exigem um trabalho sem igual, entrega completa e muito tempo de dedicação”, escreveu em um artigo publicado no em 2010.

Da mesma forma, as gravações ao vivo feitas por rádios europeias de seus concertos (lançados anos mais tarde em CD pelo selo Decca) confirmam o status de um artista que se colocava naturalmente no cenário internacional do piano, nos principais palcos, com as principais orquestras, os principais maestros.
Mas Nelson Freire não gostava em particular de gravações. Preferia o momento do concerto ao vivo. E ficou quase 20 anos longe dos estúdios. Até que, no início dos anos 2000, assinou um contrato com o selo Decca, revelando a um público ainda maior suas interpretações. “Para um artista que, como eu, não gosta de viajar o tempo todo, o disco tem uma enorme vantagem: ele viaja pela gente”, brincou em uma entrevista concedida em 2003.

Naquele mesmo ano, foi lançado o documentário Nelson Freire, de João Moreira Salles. O filme revelou ao público um pouco da intimidade do pianista. Avesso a entrevistas, entre som e silêncio, ele ia revelando aspectos de sua vida e carreira, como a paixão pelo cinema, pelo jazz, a amizade com a pianista argentina Martha Argerich. Ou então a adoração pela pianista brasileira Guiomar Novaes. Segundo ele, ela possuía o “raro dom de jamais se repetir”. “Para mim, ouvir Guiomar era sempre uma surpresa; a cada sensação tinha-se a impressão de que aquelas obras acabavam de ser compostas”, dizia sobre ela – com palavras que poderiam facilmente ser aplicadas também a ele.

Para a Decca, Freire gravou discos que encantaram a imprensa internacional, que passou a se referir a ele como o segredo mais bem guardado do piano mundial, justamente por sua resistência em gravar e pelo modo como evitava badalações. “Se bem que, agora que comecei a gravar, até que estou pegando gosto pela coisa”, confidenciou, em 2010.

Sua gravação dos concertos de Brahms na Alemanha, com o maestro Riccardo Chailly, ganhou prêmio de publicações como a Gramophone. Um crítico da revista referiu-se ao disco como a mistura perfeita de virtuosismo e profundidade.
A mesma característica aparecia em tudo o que fazia, como em Brahms e Schumann, no repertório brasileiro. E na melodia de Orfeu e Eurídice que, como Guiomar Novaes, oferecia como bis ao final de suas apresentações. Pouco mais de três minutos de música nos quais, em sua interpretação, cabia todo um mundo.

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