Em uma ação inédita, Facebook, Instagram e YouTube retiraram do ar a live em que o presidente Jair Bolsonaro relacionou vacina contra a covid-19 à aids. A declaração, mentirosa, provocou reação de cientistas e da classe política. Deputados apresentaram uma notícia-crime contra Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal, e a CPI deve incluir a fala do presidente no relatório final, que, entre diversos crimes que teriam sidos cometidos pelo presidente, aponta disseminação de fake news. O relator, senador Renan Calheiros, afirmou na segunda-feira, 26 que pretende incluir no texto um pedido de banimento de Bolsonaro das redes sociais.
Na transmissão, feita na quinta-feira passada, Bolsonaro afirmou que pessoas que tomaram duas doses da vacina contra o novo coronavírus no Reino Unido estão desenvolvendo aids. “Relatórios oficiais do governo do Reino Unido sugerem que os totalmente vacinados estão desenvolvendo a síndrome de imunodeficiência adquirida muito mais rápido do que o previsto”, disse o presidente enquanto lê um texto. “Não vou ler para vocês a matéria porque posso ter problema com a minha live, não quero que caia.”
No verso da página que Bolsonaro lê durante a transmissão, está estampada a marca da página Before Its News, um site que difunde teorias da conspiração e notícias falsas – como, por exemplo, a de que filho do ex-presidente dos EUA John F. Kennedy, John F. Kennedy Jr., morto em 1999, estaria vivo.
Ontem, Bolsonaro disse ter se informado por uma matéria publicada na revista , mas ele distorce o conteúdo e erra a data de publicação. “Na segunda-feira, a revista Exame fez uma matéria sobre vacina e aids, eu repeti essa matéria na minha live. Dois dias depois a revista Exame falou que eu falei fake news. Foi a própria Exame que falou da relação de HIV e vacina. Eu apenas falei sobre matéria”, disse o presidente em entrevista à rádio sul-mato-grossense Caçula.
A reportagem a que Bolsonaro se refere foi publicada em outubro de 2020, e não na semana passada. O texto, que foi atualizado ontem, tem o título “Algumas vacinas contra a covid-19 podem aumentar o risco de HIV?” e diz que, até aquele momento, “não se comprovou que alguma vacina contra a covid-19 reduza a imunidade a ponto de facilitar a infecção em caso de exposição ao vírus.”
O presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL) – a quem cabe acatar pedido de impeachment de Bolsonaro – disse ontem que ele precisará “pagar” se a declaração não tiver comprovação científica. “Se não tiver nenhuma base científica para isso, ele vai pagar pela declaração. Espero que tenha.”
Renan disse que a ideia é incluir, no relatório final a ser votado hoje, um pedido ao STF de medida cautelar contra Bolsonaro. “Vou fazer um registro duro no relatório da CPI e estamos, adicionalmente, entrando com ação cautelar junto ao STF para bani-lo das redes.”
Em nota, o YouTube afirmou que a remoção se deu por violação de “diretrizes de desinformação médica sobre a covid-19”. A plataforma informou que Bolsonaro deve ficar suspenso por 7 dias – ele já havia sido alertado por publicar conteúdo que feria as políticas internas em julho. Assim, não conseguirá realizar sua live semanal na plataforma nesta quinta-feira.
Segundo o Facebook, apoia “o trabalho da comunidade global de saúde pública para manter as pessoas seguras e informadas durante esta crise” e que o vídeo de Bolsonaro infringiu a política da empresa em relação à vacina da covid-19. Esta é a primeira vez que a companhia tira do ar uma live de Bolsonaro. “Nosso objetivo é garantir que todos tenham acesso a informações precisas, removendo conteúdo prejudicial e apoiando pesquisadores de saúde com dados e ferramentas”, diz a companhia.
Dona do Instagram, o Facebook afirma que ambas as redes sociais têm como política a responsabilidade de “reduzir a disseminação de notícias falsas” e “criar uma comunidade mais bem informada e em reduzir a disseminação de notícias falsas”. O Instagram diz trabalhar “com verificadores de fatos independentes no mundo todo que analisam conteúdo em mais de 60 idiomas”.
A fake news que relaciona vacinas com o desenvolvimento da aids já era conhecida a ponto de a Organização Mundial de Saúde (OMS) ter reforçado a importância de portadores de HIV serem imunizados contra a covid-19. Em nota, o Comitê de HIV/aids da Sociedade Brasileira de Infectologia afirmou que não se conhece nenhuma relação entre qualquer vacina contra a covid-19 e o desenvolvimento de síndrome da imunodeficiência adquirida, e repudiou “toda e qualquer notícia falsa que circule e faça menção a esta associação inexistente”.