Durante a pandemia, Catarina Evangelista, de 76 anos, recorreu a duas paixões. Uma delas é companheira de longa data: suas peças de bordado. Já a outra é um amor recente: o smartphone. “Se não fossem eles, tinha ficado louca.” É pelo WhatsApp que a moradora de Jundiaí (SP) conversa com sua família de Minas Gerais – algumas vezes em chamada de vídeo – e mantém contato com seus 25 netos. “A família é grande e está todo mundo no ‘zap'”, conta ela, que também está no Facebook.
Assim como aconteceu com ela, muitos idosos enxergaram nos apps – e na internet – boas companhias durante o período de distanciamento social. Os usos, porém, não se limitam mais a trocas de mensagens no ‘zap’. Segundo a pesquisa Painel TIC Covid-19, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), 89% dos usuários de internet acima de 60 anos conversaram por chamada de voz ou vídeo durante a pandemia. Outros 84% usaram redes sociais.
Houve também um salto no uso de serviços financeiros: 77% das pessoas dessa faixa etária com acesso à internet fizeram consultas, pagamentos ou outras transações financeiras pela internet – em 2019, esse número era de 40%.
Maria da Conceição Firmino, de 73 anos, aprendeu de vez a usar apps de bancos – agora, é por lá que paga todas as contas. “Passei também a comprar pela internet, em sites como Magazine Luiza e Lojas Americanas”, diz a moradora de Fortaleza.
Quem também sentiu o gostinho de gastar online nos últimos meses é Helia Rezende, de 65 anos. A lista de compras da quarentena é grande: TV, microondas, forno elétrico, ventilador e aspirador. “Tinha um notebook, mas não tinha muita paciência. Na pandemia, fui aprendendo na marra.” Tinha de ser assim: ela mora sozinha em Ribeirão Preto (SP). E o caminho parece não ter volta: “Na internet, tem mais promoção. Não vejo mais motivo para ir em loja física.”
Nos últimos meses, usar ferramentas digitais tornou-se uma questão de sobrevivência, dizem especialistas. “A solidão tem um peso maior na vida dos longevos. Passou a ser essencial trabalhar o isolamento de forma remota – além de continuar em atividade de alguma forma”, diz o arquiteto e urbanista Jorge Costa, professor da Universidade Aberta da Terceira Idade da UERJ e membro da Sociedade Brasileira de Gerontecnologia. “A educação digital focada no idoso está mostrando cada vez mais sua importância.”
Catarina e Helia aprenderam a mexer no smartphone com a ajuda dos filhos. Já Maria da Conceição preferiu não depender de ninguém: ela faz curso de informática em um espaço de Gerontologia Educacional chamado Universidade Sem Fronteiras, em Fortaleza. Frequentadora da instituição há dez anos, desde abril ela passou semanalmente a ter aulas online sobre tecnologia pelo Zoom. “Tive aulas inclusive sobre o Pix . Se precisar, eu sei usar”, diz, em referência ao meio de pagamento instantâneo do Banco Central.
O professor de Maria da Conceição é o pedagogo Ricardo Temóteo, que há 23 anos trabalha ensinando ferramentas digitais – desde a época em que as pessoas aprendiam a usar disquetes. Ele desenvolveu um método próprio para ensinar o idoso a usar a internet. “As pessoas idosas são muito heterogêneas. Tem o idoso empresário, a dona de casa, o religioso… Tem também o idoso ativo e o fragilizado. Antes de começar a ensinar, sempre procuro pensar: qual é o perfil?”
As demandas do momento trouxeram para as aulas de Temóteo ensinamentos sobre comércio eletrônico e segurança digital.
Para montar o curso, o professor se preocupa em usar uma linguagem didática, além de entender os interesses e as motivações. “Uma das maiores dificuldades é a ansiedade de aprender rápido. O mais importante é acreditar que é capaz de aprender”, diz Temóteo.
Essa capacidade também vai no sentido de não limitar, e até infantilizar, o idoso. “Há celulares adaptados para a terceira idade, que pensam em um idoso limitado. É essencial se desvincular de estereótipos como o ‘idoso coitadinho’ ou o ‘super idoso’, que consegue tudo”, diz.
Segundo o professor, as aulas online têm funcionado bem – mesmo com a suposta barreira que o método impõe. Afinal, para aprender sobre ferramentas digitais, o aluno precisa também acessar uma plataforma digital. Poderia ser um problema? Nem tanto. “A demanda para aulas tem aumentado. Estou com turmas remotas também em São Paulo e no Rio Janeiro.”
Na visão de Renato Giacomini, coordenador do curso de Engenharia Elétrica da FEI, a tendência é que as tecnologias sejam cada vez mais acessíveis para idosos. “Tem ficado clara a importância da facilidade do uso de ferramentas digitais. Quanto mais evoluírem, mais intuitivas elas ficarão”, afirma Giacomini.
Dentro dessa simplificação está a aproximação da linguagem tecnológica para a humana, explica o professor. “Serão mais frequentes interfaces de voz e visuais.” Catarina, por exemplo, prefere se comunicar por mensagens de voz. “Acho que fica até mais fácil que discar no telefone”, diz ela.
O maior desafio à frente, segundo especialistas, é a frequência das mudanças e atualizações. Botões diferentes e novas funcionalidades podem atrapalhar a assimilação, comenta Jorge Costa, da UERJ.
Mas, para Maria da Conceição, é possível lidar com isso. “Se a gente aprender passo a passo, dá certo. É como se fosse uma receita de bolo”, diz.