Um olhar de esperança. Assim os iraraenses, nascidos na terra da luz do sol, enxergam nós os Rondonistas. Jovens tidos como atenciosos e sempre com aquele sorriso estampado no rosto.
A chegada em Irará, interior da Bahia, foi celebrada por toda a comunidade. O carro de som logo cedo avisa “Projeto Rondon já está na cidade”. A realidade nessa pequena terra de casas amontoadas mostra o porquê viajamos quase três mil quilômetros e deixamos as nossas vidas acomodadas de lado.

Nada no local lembra os dias de turismo no Mercado Modelo e Pelourinho em Salvador. Ou os dois dias de hospedagem no 19º Batalhão de Caçadores – Batalhão Pirajá. Aqui as casas de barro, os chinelos de dedo trocados e os abraços mais sinceros mostram o quanto nós representamos.
No início da semana, seguimos para a Casa de Amor João Maria José visitar aqueles que não estão na lista de prioridade da família. Chegando, nos deparamos com vários pés de frutas, característico da região, tudo é tirado da terra. E ao entrar na sala, vestidos de amarelo, carregando câmeras e brinquedos nas mãos tudo ficou em silêncio.
A desconfiança estava presente. Comecei a contar minha história, que por sinal não é nada parecida com as histórias dos que estavam por ali. Quando criança, lembro dos finais de semana na casa da minha vó, das brincadeiras no bosque, da despreocupação.
Mas logo parei, percebi que ali não existiram brincadeiras na infância. Quando questionados sobre suas atividades de criança a resposta foi resumida em uma única palavra, inchada.
“Era muito pouco tempo, nós não tinha essas coisa de brinca, e se brincava era com as meninas ali da rua e já já entrava pra dentro de casa, se não o pai brigava. Oxi nega ele era muito arretado (sic)”, contou Dona Alvina com seu jeito baiano, que só após as tarefas de casa, escola e inchada vinham às brincadeiras.

Ao longo da visita, conversamos com todos os 27 experientes daquela pequena sala, mas logo foram para a janta. Eram 17h30. Durante a refeição começou a chuva seguida com trovões incessantes e a movimentação para os quartos foi rápida.
Todos tomaram seus remédios com a ajuda dos enfermeiros que estavam atentos, sempre. Maria, a copeira, com lágrima nos olhos confessou que eles estavam sozinhos. “Nós somos a família deles, fazemos isso por amor.”

Durante o curto trajeto até o quarto de Dona Alvina, as lágrimas insistiam em cair e ao chegar ao pequeno quarto, pude observar uma coleção de 10 bonecas. “Isso é tudo que tenho, todos são meus fio(SIC)”, disse Alvina.
Ao partir da Casa de Amor, a emoção não era mais controlada. E o que resta agora são as palavras de ‘Vá com Deus’ e a lembrança de pessoas com uma longa historia de vida que em um determinado momento ficou esquecido aos olhos dos que mais amam e de quem um dia cuidaram.