AMOR DEMAIS: Apego em excesso pode não ser bom sinal

Para a psicologia, quem se apega demais com animais, ao passado e bens materiais, pode estar sofrendo de carência

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Atualizado há 10 anos

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Não faz mal: colecionar faz até bem

Tem gente que não consegue se desfazer nem de uma lata velha, de um brinquedo da infância do filho, de um jogo de jantar caríssimo da bisavô que nunca foi usado. Na mesma plataforma, tem quem se apegue com animais e encha a casa, por menor que ela ou a condição sejam, de cães e gatos de rua, por exemplo. Há ainda quem mime seu bichinho de estimação como se fosse filho, ou até mais que isso: compra, embeleza, investe, dedica-se. Todas essas formas de amor e de apego, embora de um certo ponto lindas, podem não ser exatamente belas. É que para a psicologia, o excesso compromete o equilíbrio. Logo, tudo o que demais, faz mal. Se falta bom senso, pode faltar tudo.

É importante entender que existe diferença entre colecionar e acumular. Um passatempo que envolve guardar peças do mesmo gênero, pesquisados, organizados, é saudável, sem qualquer patologia. Já o acúmulo, é outra história. “Acumular de maneira compulsiva é um transtorno obsessivo”, garante a psicóloga, Daniele Jasniewski. “Ela acaba trazendo riscos para a saúde da pessoa”, completa.

Riscos sérios, inclusive. Por exemplo, há quem junte lixo – isso mesmo – que encontra na rua ou nas lixeiras dos vizinhos, e coloque tudo no quintal ou em um cômodo da casa. Tem quem repita o gesto com animais, e acaba levando cães e gatos de rua para dentro de casa. “A acumulação é patologia e a psicologia tem algumas explicações”, alerta Daniele. Uma delas é que quem tem a acumulação – de coisas ou de animais – por hábito, pode estar tentando compensar uma perda, a solidão. “É um sintoma de carência”, afirma, categórica, a psicóloga Maria Aparecida das Neves. Aparecida, que falou para uma publicação especializada.

Meu bicho, meu mundo

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Dona Cecília tem 45 cachorros

Aparecida, entre outros problemas, alerta para a relação das pessoas que se apegam demais aos bichinhos. Por exemplo, a psicóloga defende que sim, os animais podem ficar sozinhos, se forem condicionados a isso. “Os animais são domesticados, são os donos que educam e definem como eles devem se comportar, como se alimentar e onde fazer suas necessidades. Quando diz que o bicho não pode ficar sozinho, é o dono que está criando uma ilha de ilusão”, acredita. Essa advertência é especial para quem permite que o animal entre na casa e na vida, por completo, substituindo pessoas.

Mas, além de terem “entrado em casa”, muitos animais domésticos acabam, por vezes, substituindo o contato do dono com outras pessoas. Quando as pessoas acabam por se isolar por causa de seus animais de estimação, é preciso ficar atento. Muitas afirmam que não podem sair para se divertir, frequentar festas ou ir à casa de amigos pois seus animais de estimação não podem ficar sozinhos. Nesses casos, é preciso rever a relação com o animal e o que ela significa para o dono.

Quando procurar ajuda

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Para psicóloga Daniele, acumular coisas e bichos, é transtorno: família pode ajudar, mostrando onde está o erro

“Quando ela já tem um risco social, é preciso fazer uma intervenção. A família precisa se unir e mostrar para pessoa que é algo até perigoso”. Este é o botão de alerta na avaliação de Daniele. Gente que acumula lixo em casa, que nem percebe mais a entrada de animais peçonhentos, o mau cheiro e a falta de beleza nisso, por exemplo, precisa de ajuda. A receita vale para quem tem uma casa cheia de animais, mas vivendo em condições precárias, doentes, sem alimento. Ou, pior ainda, quando o colecionador vive assim, por gastar com os bichos, em alimentação e tratamento, por exemplo. “Esse transtorno começa a acontecer lentamente, geralmente após um trauma, uma perda, onde a pessoa não conseguiu se recuperar”, ressalta.

Dona Cecília e seus 45 cachorros

Ela sabe que a chamam da louca. Mas nem liga. Aos 62 anos, Cecilia Sereleski, já dedica três décadas de sua vida cuidando dos animais de rua. Assim, transformou seu quintal em um abrigo para 45 amiguinhos de quatro pata. Isso hoje, por que Cecilia já teve quase 70 bichos em casa. Para manter os hospedes atuais, gasta cerca de R$ 600 por mês. “Acordo às cinco horas para fazer comida para eles”, conta. Cecília mora apenas com o marido. Adoentado, não reclama do carinho da esposa com os bichos. Os vizinhos sim, reclamam do barulho do latido e não escondem o que sentem pela abnegada senhora. “Dizem que sou totalmente louca, que tenho marido doente e recolho o bicho. Dou risada. Vou ligar para que se ninguém faz?”, sorri. E assim segue a vida, vira as costas para o falatório, abrindo o portão para os peludinhos moradores de rua.

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