A arte de degustar um bom vinho

Enólogo defende postura clássica antes de abrir uma garrafa. Vinhos carregam aromas e histórias distintas

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Atualizado há 13 anos

Por Mariana Honesko

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Mauro Festa vê na degustação uma arte: “Vinho não é literatura. Vinho é prática”

Quando fala dos vinhos, Mauro Cesar Festa usa palavras que combinam com a narração das ações comuns aos seres humanos. O enólogo, formado na Nova Zelândia, ri quando é lembrado dos termos afetuosos destinados ao conteúdo das belas garrafas escuras. “Todo o vinho é igual ao ser humano. Ele nasce, vive e morre”, sorri.

No alto de seus 50 anos, Festa carrega no sangue o prazer pelo trabalho com vinhos. Sua ligação começou com os bisavós. Naturais de União da Vitória, eles já tinham sua própria adega. Aos 18 anos, nas saídas com os amigos, Festa trocava qualquer cerveja por uma taça de vinho. Tal qual o vinho, o gosto foi apurando com o tempo. Fora do Brasil, conheceu novos amigos e, deles, recebeu a oportunidade de trabalhar em uma vinícola. “Meu primeiro trabalho foi cavar 500 buracos para o plantio da uva”, conta. Mais tarde, aprendeu as técnicas de cultivo, de maturação das frutas, da colheita e da produção do vinho. Na faculdade de Enologia, cuja duração é de três anos, certificou o que as lavouras e safras já haviam lhe ensinado.

De volta ao Brasil, Festa tornou pública sua paixão pelo trabalho. Em União da Vitória montou o Wine Educacition. O ambiente aconchegante fica junto da Adega Jurerê, no centro de União da Vitória. “Aqui eu brinco com vinhos”, sorri. Na prática, é bem mais do que isso. Além de uma oferta considerável de opções nacionais e internacionais, o espaço também é sala de aula. Adeptos do estilo participam dos cursos periódicos de degustação promovido por Festa. “Por mais simples que seja a refeição ou a bebida, a degustação é uma arte. Precisa ser feita com calma, com paciência”, ensina.

Enólogo 2
Vinhos de personalidade precisam ser preparados com antecedência antes da degustação

Seus cursos são de duração rápida e incapazes de traduzir tudo o que a apreciação do vinho ensina. Mas, Festa acredita no potencial da ampliação. Mesmo não tendo uma cultura forte voltada ao consumo da bebida, o país começa a entender o valor do profissional e da própria vitivinicultura para a economia. “É cultural e questão de tempo. Na Europa, a média por pessoa de consumo é de 69 litros de vinho por ano. No Brasil, a média é de dois”, compara.

O vinho, contudo, já deixou de ser sinônimo de status social. Segundo o enólogo, há uma grande variedade deles disponíveis ao público por preços populares. Para os mais exigentes, as variações começam, em média, a partir dos R$ 50. Festa defende o consumo pela habilidade que ele exige e pelo benefício que a ingestão pode trazer. “Já foi comprovado que o vinho pode inibir o Mal de Alzheimer, prevenir o câncer próstata, contribuir para a redução dos níveis de colesterol, do Diabetes e até fazer a renovação das células”, aponta.

Como degustar vinhos

Algumas orientações podem ajudar os fãs da bebida a encontrarem prazer em cada gole. Segundo Festa, rituais pré-degustação podem aumentar o aroma e a sensação do paladar. Mas, alguns mandamentos precisam ser respeitados. “Não julgue o vinho pelo primeiro ou segundo gole”, ensina. Para Festa, é só a partir do terceiro ou quarto gole que o vinho mostra realmente quem é. Alguns vinhos são mais exigentes. Algumas garrafas, antes de serem servidas, precisam ser abertas com horas de antecedência. Festa tem explicação. “Em contato com o oxigênio, elas liberam as moléculas e fazem com que o olfato e o paladar aumentem”, explica.

Para todos os casos, vale brincar com a taça na mão. Aquele gesto comum nos filmes, onde as taças giram suavemente nas mãos, é válido. A ação também garante que as moléculas que ficam no fundo da taça subam e provoquem novos sabores. O tempo para degustação também é importante. O ideal é que a garrafa seja consumida no mesmo dia. Deixar para o seguinte é sinônimo de perda de qualidade da bebida. “Vinho não é literatura. Vinho é prática”, sorri.

Melhor vinho

O descendente de italiano defende outra etnia como detentora das melhores vinícolas. “Os franceses tem o melhor vinho”, sorri. “Os mais caros também”, arremata.

Quanto mais velho, melhor?

Nem sempre. De acordo com o enólogo, a maturação do vinho depende de um bom acondicionamento. “Eles precisam estar em um lugar subterrâneo, com umidade adequada e as garrafas precisam ser viradas todos os dias”, explica. Há exemplares únicos pelo mundo. Um deles é o vinho da safra de 1869. “Ainda bebível”, sorri Festa. Mas, por estar nas mãos de um colecionador, é provável que a garrafa alcance outros séculos: provar a relíquia está fora de cogitação.

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