Por Mariana Honesko

Em fevereiro do ano passado, o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo e a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, assinaram a transferência da BR 280 para o Governo Federal. Na ocasião, a rodovia trocou a sigla “SC” por “BR” e ganhou, de imediato, atenção do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit). Na mesma solenidade, representantes do órgão assinaram ordem de serviço de R$ 24 milhões para recuperação da malha.
Embora positiva, a federalização do trecho avançou um pouco demais. Muitos não sabem mas os cerca de três quilômetros de perímetro urbano, entre o 5º Batalhão e a ponte do Pintado, no bairro Santa Rosa, também passaram a ser assistidos pelo governo Federal. Ocorre que, por conta disso, toda e qualquer ocorrência na malha asfáltica precisa ser socorrida pelo posto da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Na região, a unidade mais próxima fica em Canoinhas, há 77 quilômetros de Porto União.

Na manhã de ontem, um policial militar local e o microempreendedor, Gilson Rockenbach, sentiram na pele as dificuldades dessa nova operacionalização. Eles acabaram batendo, de leve, na altura do trevo de acesso à Área Industrial. Ironicamente, o policial de Porto União ficou refém da burocracia. Ele não pode acionar seus colegas no quartel por conta da federalização. Gilson, por sua vez, perdeu tempo e a manhã de serviço. “Isso está muito complicado”, reclamou. Quando conversaram com a reportagem, policial e empreendedor já estavam há duas horas esperando a chegada da polícia federal.
O procedimento adotado pelos envolvidos no pequeno acidente é padrão: quem se acidenta no trecho, precisa ligar para o posto de Canoinhas, a partir do 191. Situações de emergência em relação à vida, porém, são atendidas pelos bombeiros ou órgãos de saúde do município.
O novo formato de gestão também engessa as atividades dos militares rodoviários federais. É que, na região, a área de atendimento deles é grande: começa no início do município de Três Barras e termina em Porto União. O percurso tem quase cem quilômetros de extensão e, por isso, é praticamente impossível de ser coberto em tempo curto.
Conforme informações da Delegacia da Polícia Rodoviária Federal em Mafra, a dificuldade que encontra a comunidade em Porto União se repete em outras regiões, especialmente nas “pontas de trecho”. A equipe explica que no caso da BR 280, o trecho dentro do bairro Santa Rosa, sempre foi rodoviário, porém, administrado de maneira pacífica e por meio de convênio, entre Estado e Município. Com a federalização, a aliança acabou. Com a retomada da estrada para o governo Federal, o trecho precisa ser administrado por militares federais.
A BR 280 é uma rodovia transversal, que inicia em São Francisco do Sul, ingressa no Estado do Paraná e termina na divisa com Santa Catarina em Dionísio Cerqueira, município que faz fronteira com a Argentina. Trata-se de um importante corredor para escoamento da produção do Planalto Norte do Estado para o Porto de São Francisco do Sul.
Relembre a federalização
A assinatura de federalização da então SC 280, entre as cidades de Porto União e Canoinhas, aconteceu em fevereiro, no auditório da UnC. Com o ajuste, a rodovia estadual foi integrada à malha viária federal. O processo contempla a padronização da rodovia. O trecho, do quilômetro 231,4 ao 306,6 entre os dois municípios, foi o último segmento a ser integrado à malha viária federal.
Entenda o que pode e não pode ser atendido no trecho
Acidente simples, sem vítima e pouco dano
É a PRF que precisa atender a ocorrência mas, se for simples, a declaração de acidente pode ser feita em até 30 dias no posto policial. Em breve, esse documento estará disponível na internet. Até lá, os envolvidos no acidente precisam combinar e ir juntos preencher o cadastro
Acidente mais sério
É preciso chamar imediatamente a PRF a partir do 191
Acidente com carros oficiais
Igualmente, chamar a PRF, também pelo número de emergência
Uma casa, dois endereços

O trecho às margens da rodovia amarga ainda outros problemas. Segundo os moradores, a maioria das casas tem dois endereços. Eles se diferenciam nas faturas de água e energia elétrica. No comércio de Maria Salete Portela é assim: na conta de luz, a rua Edmundo Arrabar (que começa no Batalhão), aparece; já na de água, o endereço marca BR 280, Pintado. “Sempre foi assim. Temos uma casa só mas dois endereços diferentes”, comenta.
Segundo ela, entregas e outros serviços urbanos não sofrem alterações na cidade. A confusão é, admite, apenas na malha em asfalto. “A polícia (federal) sempre passa por aqui e está multando os carros que estacionam nas margens”, conta. “Os carros estão usando parte da ciclovia para estacionar e dai são os ciclistas que reclamam”, completa.
A Delegacia de Mafra informa que o estacionamento no trecho considerado acostamento, não é, realmente, permitido. Quem estaciona ao lado da pista, pode ser multado.