
É quase difícil acreditar que se trata de um cemitério. O portão fica aberto o tempo todo, dia e noite, como denunciam os vizinhos. Já na entrada, após uma íngreme escada danificada, amontoam-se vasilhames, papeis, garrafas e vasos cheios de água: tudo exatamente ideal para a proliferação de insetos, peçonhentos e, agora, do temível mosquito da Dengue.
Todo o restante do cemitério, no Bairro Rio d’Areia, zona Sul de União da Vitória, acompanha o “cartão de visitas” e tem perfil parecido, e até pior, que sua entrada. Lápides antigas, como as de 1936 e 1941, encontradas por lá, estão cobertas pela vegetação, o que revela que, há muito, nenhum familiar visita o espaço. Algumas cruzes, por exemplo, quase desaparecem no meio do mato alto.
Mas, o pior e a mais improvável de todas as cenas é o encontro de restos mortais, expostos para qualquer visitante, em vários túmulos semiabertos. É só esticar um pouco a cabeça para ter o choque: fêmur e parte de crânios ficam praticamente ao ar livre. Conforme os moradores, o descaso com os corpos ficou mais evidente após as duas enchentes, no ano passado. Por conta da força das enxurradas, alguns túmulos desceram para a parte baixa, já próximo à rua, no acesso da pedreira Kerber. E, mesmo depois de tanto tempo, os destroços – e os restos mortais – continuam lá. “Por aqui apenas vem o pessoal para limpar em datas específicas, como o Finados, por exemplo”, conta a funcionária pública Edilenia Screcz.
Foi justamente por conta da reclamação dos vizinhos que a denúncia chegou até a redação de O Comércio. Além do abandono, a comunidade questiona a presença e ações de jovens em horários noturnos no espaço. A maioria, dizem os vizinhos, esconde-se atrás dos poucos mausoléus disponíveis para o que chamam de “atitudes suspeitas”.
De quem é a responsabilidade
A história do cemitério do Rio d’Areia é desconhecida. Faltam informações, inclusive na prefeitura, sobre o espaço. Não há, por exemplo, um histórico de datas ou de responsáveis.
O que se sabe, porém, é que neste momento a Igreja São Basílio Magno luta para que a Administração assuma o cemitério. Segundo o pároco Josafá Firmann, foi em 1980, aproximadamente, que a gestão do espaço passou para a comunidade. “A administração do cemitério é uma coisa antiga, na época os padres assumiram a responsabilidade. Mas, não tem nada de oficial”, explica. Conforme ele, a igreja não tem nem pessoal nem recursos para manter a gestão do espaço. Por isso, desde o ano passado, negocia com a prefeitura a doação do terreno. “Queremos passar o terreno para que a prefeitura administre”, reforça o sacerdote.
Segundo o administrador de Cemitérios em União, Rudimar Empinotti, mesmo sem ter “batido o martelo”, a prefeitura vai monitorar com mais frequência o local. Rudimar prometeu, ainda, que nos próximos dias vai providenciar a limpeza do espaço. “Vamos ver isso, recolher o lixo, roçar, vamos cuidar”, garantiu.


