Por Mariana Honesko

União da Vitória vive hoje seus 124 anos. Não é uma simples comemoração. Afinal, lá se vão mais de um século de história, de lutas, de perdas e vitórias. O tempo passou, a cidade se transformou e hoje, especialmente hoje, faz uma homenagem às pessoas que a escolheram, por acaso ou não, para viver e aqui ser feliz.
De uma forma ou de outra, os imigrantes trouxeram sua contribuição e na região, adaptaram-se. Para União da Vitória, entre outros ganhos, os bônus garantiram mais luz e pitadas consideráveis de entretenimento. Historiadores apontam os alemães como os pais das primeiras sessões de cinema e como autores dos projetos para instalação do sistema de energia elétrica.
Mas, não foram apenas os germânicos que deram impulso à cidade. Conforme o livro “União da Vitória, História e Geografia”, produzido pela Secretaria da Educação do município, os sírio-libaneses contribuíram para dar ritmo ao comércio; os italianos, à navegação e agricultura; os ucranianos, que mantiveram as tradições folclóricas, também foram excelentes na agricultura e os poloneses, hábeis no cultivo de terra. “Depois teremos o acréscimo dos tropeiros que também deixaram importante contribuição para a formação da população em nossa região. Com a ação do Coronel Amazonas teremos a chegada dos imigrantes alemães, depois os eslavos. Acrescente-se igualmente a participação da população negra que simplesmente foi apagada de nossa história por tanto e tanto tempo”, diz o professor adjunto da Unespar, coordenador do subprojeto História da África e da Cultura Afro-brasileira, Ilton César Martins.
Sim, União da Vitória é uma colcha cultural, formada por pessoas de várias tonalidades de pele, sorrisos e sotaques. Na cidade, famílias de todos os endereços, encontraram seu porto seguro e dela, jamais saíram. O perfil acolhedor aparece com leveza oficial na letra do hino da cidade. A composição é dos anos 80 e a autoria de Raulino Bortolini e Valdeci Maia. O refrão fala justamente sobre a acolhida. As frases são receptivas com quem acaba de pisar em solo desconhecido. “União da Vitória, nos abrigas tão gentil. União da Vitória, és um braço do nosso Brasil”, diz a letra.
Muito mais que responder com gentileza aos que escolheram a cidade para morar, a diversidade cultural é responsável pela construção de novos conceitos, especialmente os culturais. Já dizia com sabedoria o poeta e antropólogo Darcy Ribeiro, que “nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo.” De fato, a beleza está na mistura, que é o resultado final. “Acho que isso explica não só nossa cidade, mas todo o Brasil. Agora, entre a beleza da miscigenação e o aceitar das diferenças existe uma distância muito grande, inclusive em nossa cidade. Todas contribuíram com seu trabalho, seu suor, sua cultura, seu jeito de ser e de se expressar, mas conhecemos e reconhecemos umas como mais legítimas, outras como menos legítimas e uma que nem faz parte”, avalia o historiador.

A opinião dos especialistas é unânime: essencialmente diferente, as pessoas aprendem muito mais quando estão próximas de quem destoa de si. As diferentes maneiras de agir, pensar e ser, deveriam enriquecer cada um.
Para Martins, a possibilidade de aprendizado, em União da Vitória, é única mas, nem sempre tão bem aproveitada. “Nos aproveitamos dos braços de todos, da força de todos, do trabalho de todos mas isso ainda não foi o suficiente para enriquecer ou dar condições de vidas minimamente aceitáveis a todos. Nossa sociedade reproduz os mesmos quadros de exclusão de discriminação que outros espaços brasileiros. Avançamos muito, sem dúvidas. Mas a discriminação contra negros, pobres, mulheres, idosos ainda bate a nossa porta com uma violência que deve doer em todos, deve tocar a todos”, avalia Martins.
A psicóloga Daniele Jasniewski reforça o que Martins defende. Para ela, quando se vive em um ambiente com influências de diferentes padrões, crenças e valores, inevitavelmente se adquire parte dessas diferenças. “E formamos um todo único, exclusivo e rico, o qual podemos chamar de ‘realmente nosso’”, sinaliza. “Talvez essa característica é o que torna nossa cidade um lugar que agrada a todos, pois temos aqui um pouquinho de diversos lugares do mundo”, sorri.
Impossível esquecer a história
Nesta edição, o historiador Odilon Muncinelli fala um pouco mais sobre o nascimento da cidade. Há 124 anos, o perfil local era bem diferente. Mas, a certeza é de que a história não chegou ao seu ponto final. As contribuições de cada povo, bem como dos ciclos de produção, foram e ainda são, fundamentais. Hoje, porém, é o “ciclo” da educação, aos olhos de Muncinelli, o fator mais relevante. “A cidade de União da Vitória é um verdadeiro pólo educacional”, afirma.
Darcy Ribeiro
“Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Como descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da maldade destilada e instilada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria. Ela, porém, provocando crescente indignação nos dará forças, amanhã, para conter os possessos e criar aqui uma sociedade solidária”