CRIME: Passional ou ego?

Familiares de Anderson revelam detalhes dos dias que antecederam o crime

Ainda faltam palavras para entender o que realmente aconteceu. Toda história tem duas versões, dois lados, duas moedas. E as vezes falar sobre o que houve ajuda a amenizar o sofrimento. Para o casal Nair e José, pais de Anderson Kuroski – o homem que matou a ex mulher e depois se suicidou na Estação União no dia 14 de setembro – as várias perguntas ainda não tiveram respostas.

Perto do primeiro mês da tragédia que terminou com as vidas de Rosane Aparecia Guis, de 31 anos e de Anderson, muitas perguntas chegam, e as respostas ainda são vagas. O que motivou o crime? Para os pais de Anderson, ele nunca aceitou o fim do relacionamento de mais de dez anos com Rosane. “Eu falava para ele que existem outras mulheres, mas ele dizia que só queria a Rosane”, contou a mãe emocionada.

Segundo a família, Anderson não estava bem há algum tempo. Até antes da separação que aconteceu em dezembro de 2018, dava sinais de que precisava de ajuda. O trabalho não saia a contento e talvez esse fosse um dos motivos que Rosane resolveu terminar o relacionamento e voltar para a casa dos pais na comunidade do Rio Vermelho – interior de União da Vitória.

O casal também enfrentava problemas financeiros. Eles adquiriram um empréstimo para comprar gado leiteiro. O negócio estava indo bem, mas com o tempo as coisas começaram a mudar. Foram várias idas e vindas à bancos para tentar reverter a situação.

A saudade dos netos é grande, muito grande
A saudade dos netos é grande, muito grande

Segundo a mãe, depois que as crianças foram embora, o que já era complicado ficou ainda mais, e Anderson só queria uma coisa: o relacionamento e a família unida de novo. Mas, Rosane já havia decidido que não queria mais. Conforme sua família, ela cansou das agressões e do relacionamento conturbado. Queria uma vida nova e diferente. Se queixava da falta de ajuda de Anderson.

Nestes últimos meses, Anderson procurou ajuda, foi há alguns encontros com psicólogos, mas não dava sinais de melhora.

Em julho, sofreu um acidente de trânsito na BR 476, e por pouco não morreu. Rosane e os filhos foram até o hospital, as crianças segundo a avó paterna abraçaram o pai, Rosane não, só acompanhou os filhos.

Ameaças aos netos

Nas semanas após o crime, conversas surgiram dizendo que o avô paterno, “iria terminar o serviço que o filho começou”, ou seja, o alvo da vez seriam as crianças, os filhos da Rosane e do Anderson. “Eu jamais faria isso”, disse o pai com lagrimas nos olhos. Atualmente enfrente problemas de saúde, sendo diagnosticado com Alzheimer tipo 1. “Eu quero ver como eles estão, ajudar a cuidar, eles sempre estavam aqui em casa, nosso convívio sempre foi bom”, completou a avó.

Segundo ela, era bem comum a convivência com os netos. “Tomavam café, jantavam, almoçavam aqui, quando eles não podiam buscar no ponto de ônibus, nós íamos, eu atendia todos os desejos. A pequena adorava purê de batata e o menino maior, pizza”.

O dia do crime

Na manhã do sábado, dia 14, data do crime, Anderson não estava em casa. Durante este período um oficial de justiça teria ido até o local entregar uma intimação sobre a audiência do divórcio, litigioso, marcada para o dia 18 de setembro.

A mãe de Anderson recebeu o documento e deixou em cima da mesa da cozinha. Anderson retornou para casa e a mãe avisou sobre isso. Na sexta-feira, 13, Anderson já tinha saído mas retornou de madrugada. Alguém, conforme contaram o pai e a mãe dele, teriam falando que Rosane estava em uma festa em União da Vitória. “Ele me questionou e disse: ‘mãe se ela está na festa não está cuidando das crianças’”. Naquele dia ele não almoçou, preferiu tomar café e comer pão. Durante a tarde, se ocupou arrumando uma peça do carro. Falou sobre a vontade trocar de veiculo.

Naquela tarde de sábado, Anderson teria ido buscar uma vaca que estava doente. Retornou, ajudou um pouco a mãe, tomou banho. Enquanto isso, a mãe fez pastel. Anderson comeu e resolveu sair.
“Rezamos o terço como sempre fazemos e o pai pediu uma benção especial para o Anderson. Ele fez o nome do pai e o abençoou”, lembrou a mãe.

As horas foram passando. Anderson não chegava. “Eu acordava a qualquer barulho de carro e olhava para ver se era ele”, contou a mãe. Por volta das 6 horas, ela começou a ligar para o celular do filho, mas, não havia resposta.

Ela, então ligou para a filha, que mora no Faxinal, interior de Paula Freitas. A irmã de Anderson logo chegou. Novas ligações foram feitas, todas sem suceso. “Um vizinho escutou no rádio o que tinha acontecido em União da Vitória, não falaram nome, mas como ele não chegava em casa ficamos desesperados”, lembrou a mãe.

O desespero foi tomando conta, até que ligaram para a polícia por volta das 8h30 do domingo, 15, e a confirmação veio: o homem que matou a ex esposa na Estação e depois se suicidou, era Anderson.

Passado os primeiros momentos depois da notícia, a mãe encontrou na casa do filho uma espécie de carta de despedida. O papel escolhido foi as costas da intimação sobre a audiência do divórcio. “Ele escreveu que tinha lutado e tinha feito de tudo, que estava cansado”, disse a mãe. As botas usadas pelo Anderson na tarde daquele sábado ainda estão na porta. “Não tive coragem de mexer em nada, tudo está igual”.

Crime Passional

 

O crime passional pode ser definido como aquele que é cometido por paixão, ou seja, por uma motivação emocional. Normalmente, ele ocorre quando uma pessoa visualiza a outra como sua propriedade, exigindo que o seu amor seja exclusivo e em uma medida acima do normal. O relacionamento se torna um círculo vicioso, com base em uma paixão doentia e apresentada de forma violenta.

Quando a vítima já não corresponde às expectativas do dominador ou, mais grave ainda, fere o seu orgulho, é que o crime acontece, no qual o companheiro comete o atentado contra a vida daquela pessoa.

Com fundamentos reais ou fantasiosos, o suspeito visualiza seu ato como uma consequência das atitudes que a vítima estava tomando. Ou seja, em sua cabeça, o culpado ou a culpada da situação sempre será a vítima.

O crime passional não figura no Código Penal Brasileiro, sendo tipificado como Feminicídio.
Segundo a psicóloga Daniele Jasniewski, o senso comum atribui esses crimes ao amor, mas os profissionais da área entendem que o crime passional é o oposto do amor, é um crime motivado pelo ego. Tudo que se refere ao ego de alguém é o oposto do amor. “O amor não mata”, lembra Daniele.

Para ela, o ego pode impedir que alguém saiba lidar com frustrações e decepções. Hoje, essa resposta serve como alerta. “As crianças, por exemplo, não estão sendo expostas à frustrações. É uma geração de pessoas com incapacidade de lidar com situações de perdas por menor que seja”, observa a profissional.

E engana-se quem acha que as pessoas nascem assim. “Qualquer ser humano pode cometer um crime passional ao longo da vida”, alerta Daniele. “Se a pessoa não sabe lidar com as negativas, elas cometem crimes passionais, querem acabar com a situação onde o ego está sendo ferido”, completa.

Segundo as Organizações das Nações Unidas (ONU), a taxa de feminicídios no Brasil é a quinta maior do mundo. O número de assassinatos chega a 4,8 para cada 100 mil mulheres.

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