Por Mariana Honesko

A sessão desta terça-feira da Câmara de Vereadores de Porto União foi dividida. De um lado, um auditório comovido e lotado, fruto da falta de respostas para um problema sério, fatal e que, no final de semana, vitimou um casal de jovens e seu bebê, que em dezembro completaria seu primeiro ano de vida. De outro, bem menos tenso, às voluntárias da Rede Feminina de Combate ao Câncer, lembradas e elogiadas na sessão pelo desempenho impecável dentro do movimento Outubro Rosa.
Mas, a noite não estava para a comemoração. Embora no silêncio, o luto falou mais alto.
Bandeira

Moradores do Distrito de São Miguel da Serra, especialmente, ainda comovidos pela recente perda, abraçaram a dor dos familiares e dos amigos das famílias Dalmolin e Tomko. Na Câmara, protestaram juntos, com o sentimento calado quebrado apenas pelas lágrimas.
O pedido é por solução ao trecho conhecido como “Curva do Tomate” ou “Curva da Morte”, uma associação pouco agradável mas que confirma os quase 20 óbitos registrados no mesmo local. O espaço é curto, sinuoso mas embalado pela alta velocidade. “Queremos sair do zero, da comodidade. Queremos, de arrancada, uma lombada já para essa semana, para começar. Na sequência, temos que fazer muito mais, puxar aquela curva”, disse o porta-voz dos manifestantes, Gilberto Renato Knapick, morador do Bairro Santa Rosa e amigo das vítimas. Oficialmente, este é o primeiro pedido oficial por melhorias no perigoso trecho. “Antes morria alguém de fora e era estatística. Agora, se não fizermos nada, é covardia, palhaçada”, destacou.
Elisangela Melnik, também moradora do Santa Rosa, endossa o pedido. Conforme ela, o trecho que é roteiro diário dos ônibus escolares é também “parque de diversões” de muitos caminhoneiros. “Por ali passam ônibus que vem de São Miguel para a cidade, cheios de estudantes. Os buracos são enormes e as carretas pensam que ali é tobogã”, afirmou. “A serra já tem vários nomes. Que outros nomes falta para darmos ali?”, questionou.
Do plenário

A sessão que começou com um minuto de silêncio em homenagem às vítimas, logo foi pautada pelos discursos altos, de repúdio contra o que os vereadores julgam ser descaso do Governo Estadual e pela falta de solução para um trecho estreito e mortal.
Foram do vereador Gildo Masselai (PP) as proposições mais aplaudidas. Ele já reivindica a intervenção no trecho há mais tempo e com o incidente do final de semana reforçou seus disparos contra a gestão do governador Raimundo Colombo. “Com obras eleitoreiras, o povo só ganhou sofrimento. Politicamente paira uma nuvem negra sobre Porto União. Os governos não enxergam a cidade como integrante do mapa do Estado”, alfinetou. “O casal que morreu pagava impostos e também tinha o direito de andar em uma estrada boa. Não foi o que aconteceu”, continuou.
Masselai rotulou como obra eleitoreira a reforma paliativa de parte da SC-135, onde está a “Curva do Tomate” e a comparou com o asfalto que une as comunidades de Lança e Santa Cruz do Timbó, ambas no interior de Porto União. É do vereador, ainda, o convite para um novo manifesto de protesto contra a falta de intervenção no trecho. Ele ocorre no sábado, às 8 horas, próximo à curva. “Quero ser o primeiro a parar o carro lá e protestar”, garantiu.
O vereador Carlos Roderlei Pinto propôs a realização de uma audiência pública, ainda neste mês, ouvindo e falando para autoridades políticas do Estado. “Isso é o mínimo, em respeito à comoção que nossas cidades estão vivendo”, afirmou.
Em seu pronunciamento Sandro Luciano Calikoski voltou ao passado, precisamente há quatro anos. Ele também foi vítima de um acidente automobilístico na “Curva do Tomate”. “Por ironia do destino estavam também eu, minha mulher e meu filho. Um caminhão de tomate tombou sobre nosso carro. Estávamos indo para um casamento e tivemos mais sorte”, contou. Ele também reclamou do descaso e lembrou do engavetamento do projeto de revitalização do trecho entre Matos Costa e Porto União. “Já tinha visto o projeto há mais de um ano e ele está engavetado”, confirmou. Calikoski também confirmou sua participação no protesto de sábado.
Autopsia de corpos ocorrem no IML de Canoinhas

Até o encerramento desta edição as informações eram desencontradas. O que se sabe, até o momento, é de que o Instituto Médico Legal (IML) de Porto União não fez a autopsia dos corpos das vítimas do acidente de sábado. O processo ocorreu no IML de Canoinhas. O fato, ainda em apuração, causou revolta.
Na Câmara de Vereadores, manifestantes usaram cartazes para “gritar” contra o descaso e a dor de velar os corpos mais de 15 horas após o acidente. Segundo os familiares, o guardamento começou apenas às 14 horas do domingo. As mortes ocorreram por volta das 22 horas do dia anterior.
O IML de União da Vitória, conforme o legista Carlos Eduardo Moura, não poderia ter atendido a ocorrência, ainda que emergencialmente, por estar instalado em outro estado e ter suas próprias leis para respeitar.
A tragédia
Na noite de sábado o casal Rodrigo Dalmolin, de 24 anos, e Letícia Tomko, de 22, e Angelina, um bebê de 11 meses, tiveram morte instantânea após serem atingidos por um caminhão carregado de toras de pinus.
Segundo informações coletas pela reportagem logo após o acidente, registrado por volta das 22 horas do dia 1º, o motorista teria perdido o freio e não controlou a direção do caminhão.
O casal e a criança que ocupavam o Ford Ka, com placas de Porto União, não resistiram aos ferimentos. Já o motorista do caminhão – com placas de General Carneiro (PR), de 22 anos, e o carona, de 15, não foram atingidos.
O que pode ser feito no local
Masselai, apoiado por outros vereadores, acredita que a intervenção no local pode ser pequena e já funcional. No plenário, ele apresentou com desenhos o alinhamento do trecho ou a ampliação de uma terceira faixa no local. Para os moradores, lombadas já garantiram a redução de velocidade e, em consequência, dos acidentes.
Entenda o trecho e a SC-135
A rodovia está pavimentada há dez anos. A ação ocorreu na gestão do então governador Luiz Henrique da Silveira. Antes chamada de SC-302, ela foi rebatizada para SC-135. A rodovia liga Porto União à Caçador e para, um pouco antes dos dois destinos, na comunidade de São Miguel da Serra, Distrito de Porto União.
O trecho é bem sinuoso mas é na “Curva do Tomate” que os maiores problemas ocorrem. Mais de dez mortes já aconteceram no local dentro desta primeira década de “vida asfáltica”. A referência ao tomate lembra os primeiros oito acidentes registrados no mesmo local: todos tiveram o tombamento de carretas carregadas com o fruto.