Por Mariana Honesko

Quase um metro abaixo desde seu ápice, quando chegou aos 8,13 metros, o nível do Rio Iguaçu é sinônimo de esperança. Às 16 horas desta segunda-feira, 23, o recuo era considerável. Na régua, a leitura era de 7,17 metros. Os números, favoráveis aos cálculos dos órgãos de Defesa Civil, foram entendidos como trabalho para quem começou a ver sua casa e outros bens, de volta, em solo seco.
No final de semana o tempo frio, mas ensolarado, motivou várias famílias ao trabalho braçal. Hoje, 23, raro foi encontrar quem não estava com a mão na massa nas Cidades Irmãs. Na casa de seu Lourival Kuritza, de 78 anos, a família trabalhava na recuperação do que sobrou. “E ele quer voltar logo”, conta Lourimar Fábio, filho do idoso. Lourival mora há 40 anos no Bairro São Bernardo, enfrentou as outras duas grandes cheias e, agora, amarga prejuízos deixados pelo mau cheiro, pelos móveis danificados, carpe e assoalho arruinados. Perto dali a professora Erna Gohl recebia ajuda do vizinho, o aposentado José Francisco Szyminovicz, para garantir a entrada de casa limpa. “Não entrou mas faltou pouco”, sorri. O empresário Rolf Siems ficou fora de sua casa durante 15 dias. Neste início de semana, voltou para contabilizar o prejuízo. “Perdi alguns móveis e o piso, que era de madeira”, afirma.
Mas, mangueiras e baldes à parte, a volta para casa também depende de atenção. Em União da Vitória, nesta segunda-feira, a Defesa Civil montou uma força-tarefa para cuidar exatamente da limpeza dos imóveis. O recuo das águas deixou um rastro de lama, odor e muito lixo. No município, a parceria com a Ecovale, Cooperativa de Trabalho dos
Agentes Ecológicos de União da Vitória (Coopertrage) e secretaria de Obras, já está formada. Ela garante o recolhimento dos resíduos sólidos que podem ser recicláveis, bem como a limpeza dos espaços públicos. “Pedimos que as pessoas coloquem separados na calçada o que é de madeira, com madeira, plástico, com plástico. Se estiver tudo junto, atrasa o nosso trabalho”, orienta o vice-prefeito Jair Brugnago.

Hoje, a ação começou às 13 horas no Centro Universitário da Cidade de União da Vitória (Uniuv) e bairros São Bernardo e Navegantes. Hoje, ela tem sequência e atinge especialmente o Distrito de São Cristóvão. “Além disso, vamos disponibilizar caçambas em vários pontos. Temos muitos móveis, sofás, eletrodoméstico, que as pessoas não têm mais como usar. Vamos com essa força-tarefa recolher todo este tipo de material”, lembra Sidnei Cieslak.
Ainda hoje o prefeito Pedro Ivo Ilkiv foi à Curitiba e posteriormente até Brasília para discutir ações junto ao Exército, bem como com a equipe da presidente Dilma Rousseff, sobre a liberação de recursos para recuperação dos danos.

Preocupação é com a saúde
O retorno para casa vai além da limpeza bem feita. Além da água contaminada, a lama também é vilã. “Ela tem um poder infectante ainda maior que a água”, aponta o secretário de Saúde de Porto União, Jair Giraldi. A recomendação sugere o uso de botas e luvas para a execução da limpeza. Elas precisam estar integras, sem cortes ou furos.
O que ficou dentro de casa, precisa de ainda mais atenção. Alimentos, por exemplo, ainda que “protegidos”, não devem ser consumidos. Água, apenas a de torneira ou mineral. “Nesta época as águas de bica e fontes podem causar problemas”, diz. Banhos nas águas alagadas também não são bem-vindos. Além dos riscos de encontrar insetos, material cortante ou algo do gênero, a água é transmissora da leptospirose, doença potencialmente grave, transmitida pela urina do rato. Se não tratada, a enfermidade pode até matar. A vacina contra tétano segue disponível em todas as unidades de saúde e pode ser solicitada em qualquer momento. Nos abrigos temporários, inclusive, ela é administrada pelas equipes de saúde.
Casas financiadas tem seguro para reforma
É preciso ficar atento ao contrato. Quem tem imóvel financiado por bancos ou financeiras pode ser beneficiado pelas cláusulas do documento. Uma delas é o seguro que está embutido nas prestações. “Esse seguro, via de regra, cobre também os gastos com as reformas dos estragos causados pelas enchentes. Assim, antes de promover a reforma ou até a compra de móveis e utensílios domésticos, é importante verificar essa questão”, orienta o advogado Valdir Gehlen. É importante ainda evitar gastos com o recurso do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). “Mas sim se utilizar do seguro, inclusive, em caso de estrema necessidade guardar bem as notas fiscais e fazer as compras à crédito”, diz.
Outra sugestão envolve a confecção de um arquivo de tudo o que aconteceu ou pode acontecer com o imóvel atingido pela cheia. Diante da demanda, é possível que o número de peritos seja insuficiente para a reunião de todos estes dados. A iniciativa “por conta” auxilia na comprovação dos danos e, em consequência, na liberação do seguro. “Filme e fotografe tudo na casa, de preferência com data, acione e encaminhe o pedido do seguro no banco urgentemente, promova três orçamentos do que for necessário reformar ou trocar na casa, inclusive mão de obra e, se possível, obtenha um laudo através de engenheiro, que pode ser apresentado ao perito do banco ou servirá de prova caso tenha que discutir a questão judicialmente”, recomenda o trabalhista.
É preciso ter também uma certidão de que o imóvel realmente foi atingido. Em caso de dúvida, é importante procurar a agência financiadora, a prefeitura e os órgãos de defesa civil.
Distribuição de kits limpeza
Em União da Vitória, a distribuição do material ainda não acontece. Conforme a assessoria de comunicação da prefeitura, a cessão é a terceira etapa do processo. As primeiras envolveram a distribuição de alimentos e água bem como a limpeza da cidade. Já em Porto União, o material é entregue a partir dos cadastros da Ação Social. O “QG” fica na unidade de saúde do Bairro Santa Rosa.