ENTREVISTA: Para historiador, preconceito é questão nacional

Polêmica envolvendo os amigos do ginasta Ângelo Assumpção coloca o assunto novamente no divã. Doutorando Ilton Martins fala sobre o assunto

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Atualizado há 11 anos

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Especialista: Ilton Martins é membro do grupo de Pesquisa Escravidão e trânsito de culturas. (Foto: Arquivo)

As cenas de racismo foram emolduradas na recente história que envolveu o ginasta Ângelo Assumpção, campeão da etapa da Copa do Mundo de Ginástica em São Paulo. Por ser negro, ele foi alvo de comentários de mau gosto de colegas da seleção brasileira. As imagens ganharam o País, já que foram postadas nas redes sociais. A Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) assumiu uma posição inédita e puniu os três atletas brasileiros por conta das injúrias.

Se a punição é justa, as opiniões se dividem mas, para o historiador e pós-doutorando Ilton Martins, professor no campus de União da Vitória da Unespar, brincadeiras com a raça não deveriam existir. “Existe brincadeiras e piadas contra negros, contra homossexuais. Provavelmente por conta do convívio entre os atletas, alguns se acharam no “direito” de produzir aqueles comentários infelizes. Mas este exemplo nos dá bastante ideia de como o problema se processa. Os atletas se reproduziram aquelas palavras infelizes porque acreditam que ela produz sentido e significado para alguém. Ou seja, a crença de que no fundo ainda se partilha a ideia de que negros são ruins, lixos e outras associações que eles puderam produzir”, avalia. “Ninguém conta uma piada e põe na internet sobre judeus nos campos de concentração, outros dizem que os chargistas do Charlie Hebdo mereceram sua morte por terem provocado a religião dos outros, no caso, muçulmanos. Mas ninguém acha que terá problemas se ofender negros”, completa.

O Comércio (OC) – O que é racismo?

Ilton Martins (IM) – Basicamente a ideia de racismo sustenta um pressuposto absolutamente tolo de superioridade de um grupo perante outro, tendo por base a cor da pele ou outras características físicas ligadas a determinada “raça”. Esta ideia, enquanto “perspectiva científica” é relativamente recente, tendo seus grandes pensadores centrados no século XIX. O crime de racismo possui penas superiores, é imprescritível e inafiançável, impede o exercício de determinado direito, enseja a propositura da ação pública incondicionada, e viola o princípio fundamental da dignidade da pessoa humana. No crime de injúria racial, o réu pode responder em liberdade. Desde que pague a fiança, sua pena é menor e a prescrição é a determinada pelo artigo 109, inciso IV, do Código Penal, em oito anos.

OC – Acredita que vivemos em um país racista?

IM – Acredito piamente que vivemos numa sociedade ainda profundamente racista, e que este racismo se configura de maneira mais completa uma vez que institucionalizado. Exemplos concretos que se tornaram públicos: Santos e Grêmio em agosto do ano passado, tivemos o goleiro Aranha sendo chamado de macaco. Baile de Carnaval em fevereiro deste ano e as ofensas sofridas pela Gloria Maria, repórter da Rede Globo. Na política tivemos o caso da candidata ao governo de Minas Gerais, Cleide Donária (PCO), que foi parar no hospital depois de ser agredida por um homem não identificado em setembro, durante o primeiro turno das eleições. Ela foi abordada com um soco e foi chamada de “prostituta” e “negra vagabunda”. Aqui cito exemplos de pessoas de projeção social ou não, ou seja, ele é capaz de perpassar diferentes instâncias sociais, muito embora no Brasil se constitua um “crime” muito mais grave ser negro e pobre, se além disso a pessoa for homossexual temos um “crime perfeito”. Agora, melhoramos sim, pois estas questões só têm vindo à tona por conta de nossa maior atenção e cuidado acerca destas questões. Mas temos muito que andar ainda.

OC – E nas nossas cidades? Como encara essa situação já que a região é formada por descendentes europeus, de maneira mais intensa?

IM – Foi em nossas cidades que tivemos no ano passado aqueles anúncios em rede social vendendo negros. Acho que isso não é um problema de nossa cidade, é uma questão nacional e que tem desdobramentos mais ou menos intensos em diferentes regiões. Mas isso não quer dizer que aqui não exista isso de forma bastante perceptiva. No acidente lá da Serra Dona Francisca, muitos comentários sobre o fato de que eram praticantes de Umbanda me deixaram horrorizados. E o que é pior, muitas vezes veiculado dentro de espaços que deveriam ser capazes de ofertar alento e uma palavra amiga, ou seja, espaços religiosos. Chegou-se a dizer que o acidente era castigo divino e a pior parte ainda me omito de falar. Triste demais.

OC – Como vê o papel do negro na sociedade, sua inclusão e contribuições?

IM – Retire o negro da história do Brasil e jamais teríamos o Brasil. Está na hora dos brasileiros conhecerem pessoas com contribuições maravilhosas nas ciências, como o grande Milton Santos, ganhador do Nobel de Geografia com o prêmio Vautrin Lud em 1994. Para mim soa impossível que nossos cursos não consigam dar ênfase em seus currículos as suas contribuições. No dia-a-dia temos milhões de negros e afrodescendentes que com seu trabalho, sua dedicação, sua perseverança ajudaram e ajudam a construir o nosso país, como professores, garis, jornalistas, diaristas, empregadas domésticas, engenheiros, advogados, médicos, políticos entre outras. A questão ainda passa muito pelo acesso aos diferentes espaços, como um projeto claro de escolarização e acesso e permanência na universidade, o que ainda é um grande problema. Mas aí daria para desdobrar as reflexões mais demoradamente, o que podemos fazer outra hora.

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