Prezado leitor. União da Vitória e Porto União são belíssimas cidades de reconhecida importância, no pretérito e no presente, outrora e hoje, ricas em tantos adjetivos que as fazem sobressair. Os atributos culturais dos povos, que constituem a suas maiores riquezas e, se delas fossem desprovidos, simplesmente desapareceriam, são essenciais para a existência de suas identidades peculiares, o que os distinguem uns dos outros. E, para um resgate cultural, impreterivelmente se faz necessário um retrospecto histórico, realizando uma espécie de estudo antropológico-social, pois os legados e os costumes de cada povo residem já dentre os seus bens culturais, bastando apenas localizar e estuda-los, a fim do entendimento da própria razão de existir de cada indivíduo. Por isso apoio e lanço aplausos a todo e qualquer projeto de ordem cultural, seja de iniciativa pública ou particular, ciente de que o patrimônio cultural das civilizações é sagrado, e a ele não se pode negar acesso.
Hoje resolvi chegar à beira do prelo do “O Comércio” e redigir um artigo sobre um tema que julguei interessante, recorrendo às raridades históricas, uma vez se está diante de um conceituado e dos mais lidos veículos informativos do Vale do Iguaçu e região: trata-se da histórica 1ª edição do referido jornal, a qual ostenta 74 (hoje 85) anos.
Fundado pelo jornalista Hermínio Milis, uma das grandes inteligências dessa terra, saíam da redação e oficinas situadas à rua Prudente de Morais nº 31, em Porto União, os primeiros lotes do exemplar Ano I, Número I de “O COMMERCIO –semanário independente” aos 11 de Junho de 1931. Hermínio era seu redator-chefe, tendo por “braço direito” o ilustre Nicola Codagnone que ocupava as funções de Diretor-Comercial, ambos, amigos fiéis de meu bisavô ANTIOCHO PEREIRA, o qual, nesta época era Prefeito Municipal da cidade catarinense em cujo cargo já se encontrava há quase um ano.
Formato standard, com dimensões aproximadas de 44×31, composto de quatro páginas, foi impresso num papel de tonalidade salmão, uma espécie de material bem resistente e que não perdeu de forma acentuada a sua qualidade de impressão, passados tantos anos.
“Surge O Comércio, para a defesa dos interesses do nosso povo e, consequentemente, para pugnar pelo progresso desta grande e poderosa zona, sem dúvida, uma das mais ricas do território barriga-verde”, palavras do emérito Hermínio Milis no texto de apresentação.
Figuravam as seguintes notícias: Dr. Nereu Ramos (detalhes de sua passagem por Porto União), A ação construtora do sr. Prefeito Antiocho Pereira (com foto em primeira página), Chefia Escolar de Porto União (nomeação do digníssimo Sr. Juvêncio Braga ao cargo de Chefe Escolar), Partido Liberal Catarinense (noticiava informações para organização do Partido Liberal de SC), A Data (comemoração alusiva à Batalha do Riachuelo), D. Joaquim Domingues de Oliveira (nota anunciando o aniversário deste, então arcebispo de Florianópolis), O ensino religioso nas escolas públicas, Des. Antero de Assis (noticia de seu afastamento das lides forenses), Festa de Corpus-Christi em Porto União, Dr. Luis L. Delpy (passagem do ilustre engenheiro da Brington & Cia., distribuidores de aparelhos “vitaphone”), Coronel Severiano Maia (então prefeito provisório de Mafra), Tenente José Bernardes Junior (confirmação no posto de 2º tenente, por parte do Governo Provisório da República), O dever dos brasileiros, A comissão da reforma eleitoral, Tribunal do Júri, Festas de Santo Antonio, Club Apollo, Notas Sociais, Editais, Coronel João Theodoreto Barbosa (notícia de nomeação deste ilustrado conterrâneo ao cargo de comandante da Força Militar do Estado do Paraná), Recordando a passagem do Dr. Euclides de Mesquita pela promotoria pública de Porto União (com fotografia na qual estão os senhores Hortensio Baptista dos Santos –promotor público em exercício-; Aloísio Friedrich –1º suplente do juiz de Direito-; Affonso Ligorio de Assis –2º tabelião público da Comarca-; e José Pereira –encarregado da Estação do Telégrafo Nacional em Porto União), A coqueluche constitucional, entre outras notas. Anúncios: da Confeitaria Saxona (propriedade de Curt Kranke, era especializada em sorvetes, comercializava doces em geral, bebidas nacionais, chá, café, chocolates e artigos para fumantes; aceitava encomendas para festas e comemorações diversas; seu estabelecimento situava-se na Praça Hercílio Luz, nº 5); Dr. M. de Quintanilha (médico diplomado na Bahia, que atendia crianças e adultos no Hotel Sampaio) e uma propaganda do periódico “O Jornal” (um dos periódicos de maior circulação no Brasil).
Tenho em vista, daqui a algum tempo, concretizar um livro biográfico correlato à vida do meu digno bisavô Antiocho Pereira, “o homem, o intelectual, o sacerdote da farmácia, o político, o botânico”, figura reverenciada com total devoção, homem que integra a galeria daqueles espartanos colaboradores à monumental construção da história desta próspera região. Iniciei pesquisas e muito ainda tenho que investigar, debruçado em documentos, relatórios, atas e fotografias. Com paciência de pesquisador, terei muito o que garimpar na região Porto União e União da Vitória. Depoimentos e colaborações serão muito bem vindos, bastando entrar em contato por e-mail.
O exame atencioso de jornais antigos são por demais importantes ao estudo da história social, política e cultural de um local. Procurei reportar-lhe a este passado, atendo-me a expô-lo da melhor forma, a fim de rememorar nomes ainda presentes na memória de muitos leitores, quiçá descendentes (filhos, netos e bisnetos) de alguns dos nobres senhores citados acima, como eu, bisneto do então prefeito Antiocho Pereira. Almejei destacar os fatos que foram notícia a fim de tanger e avivar as recordações de muitos que despontam agora, no presente, como “testemunhas da história”, para confirmar e elucidar os acontecimentos para a posteridade, em prol das gerações vindouras, que ainda estão por nascer.
Fui ao berço iluminado e culto de “O Comércio”, o qual está agora em vossas mãos, 74 (85) anos depois, caro leitor. Esta matéria serve-nos para atestar a competência jornalística de um órgão, que ultrapassou décadas e mais da metade dum século, e sem dúvida, adentrará no alpendre do centenário, tendo ao fundo os vitrais que refletem as suas grandes obras e, em frente, uma vista panorâmica de todo o Vale do Iguaçu, região que viu florescer e que dela hoje colhe muitos frutos, através da total acolhida do povo, seus fiéis leitores de todos os dias. Sempre avante!