
Embora os outros sentidos fiquem aguçados quando uma falta, tarefas simples ainda não são desempenhadas com destreza por quem é cego ou tem baixa visão. O aprimoramento de eletrodomésticos e produtos eletrônicos para pessoas com deficiência foi defendido ainda em setembro, em audiência pública interativa na Comissão de Direitos Humanos (CDH). Por iniciativa da senadora Mara Gabrilli (PSDB-SP), a discussão tem como objetivo verificar a adequada concepção e produção de produtos acessíveis ao consumidor brasileiro.
Para os participantes do debate, a oferta de produtos adaptados, como geladeiras, microondas, impressoras, telefones, televisores e máquinas de lavar facilitaria a vida das pessoas com deficiência visual e contribuiria para a inclusão social dessa parcela da população, que hoje chega a sete milhões de pessoas no Brasil.
Durante a audiência pública, foram exibidos vídeos em que pessoas com deficiências visuais sugeriram adaptações diversas em máquinas e utensílios domésticos aos fabricantes. As recomendações incluíram uso de letras ampliadas para baixa visão, alto-relevo, dispositivos sonoros e marcações.

Rubens Antônio Vicentin, membro da Associação dos Deficientes Visuais do Vale do Iguaçu (Adevivi), desenvolveu seu próprio método para poder usar o micro-ondas. Ele cola perolas de adesivo em alto relevo, para saber que botão tocar. “Eu corto e colo, por exemplo, no número um, uma bolinha; no número dois, duas bolinhas”, conta.
Ciro Roberto Alves de Lima, que tem apenas 8% da visão há quatro anos, também encontra dificuldades dentro de casa. Usar eletrodomésticos é uma tarefa ainda complicada para ele. Ciro também frequenta a Adevivi (leia mais sobre a entidade no quadro). “Dentro de casa foram muitos os desafios, desde passar um café, guardar as coisas e não encontrar mais. Eu moro sozinho e não uso mais liquidificador, batedeira, micro-ondas nem se fala! Você não consegue usar. Hoje, a gente tem que se adaptar aos objetos mas acho que eles deveriam vir adaptados”.
Cássia também compartilha das mesmas dificuldades. Ela tem baixa visão. “Dentro de casa, o problema ainda são os digitais, mas eu vou tentar”, diz.
Parâmetros legais e acessibilidade
Idealizador do Movimento pelo Livro e pela Universidade Acessíveis (Molla), Naziberto Lopes de Oliveira disse que existe uma insatisfação muito grande em relação a produtos e serviços que não atendem às pessoas com deficiência visual enquanto consumidores. As informações são da Agência Senado.
Entre os pressupostos legais a favor das pessoas com deficiência, ele citou o Código de Defesa do Consumidor e a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146, de 2015). A norma, que define parâmetros de acessibilidade, incorporou princípios de convenção internacional da Organização das Nações Unidas (ONU) e já conta com dispositivos regulamentados, e outros, em regulamentação.
Chefe de Divisão de Indústrias Intensivas em Mão-de-Obra e Bens de Consumo do Ministério da Economia, Marco Antônio Nunes Bastos disse que a acessibilidade é essencial para o pleno exercício da cidadania. Ele ressaltou que pequenas adaptações já são suficientes para uma considerável melhora da qualidade de vida, e que a adoção de tecnologias assistivas (que ampliam habilidades funcionais) favorece o aprimoramento de diversos produtos eletrônicos.
Presidente da Associação Brasiliense de Deficientes Visuais do Distrito Federal, Justino Bastos Pereira cobrou a sensibilidade de fabricantes de linha branca e marrom, com a oferta de produtos que favoreçam a autonomia de escolha.
Coordenador geral de Acessibilidade e Tecnologia do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Rodrigo Abreu de Freitas disse que a tecnologia beneficia todos os segmentos da população, e não apenas aquela parcela com algum tipo de deficiência.
ADEVIVI
A entidade funciona no prédio do Corpo de Bombeiros de União da Vitória, no centro. Ela recebe os deficientes visuais em três dias da semana. Por lá, embora o espaço seja pequeno, acontecem aulas de informática, de pintura e de como andar com as guias – ambos, ministrados por voluntários. “A entidade foca no entrosamento dessas pessoas na sociedade. Eles nos dão alegria muito grande, ensinamentos. Não são inúteis. Eles provam que a vida tem continuação, que é possível fazer muito ainda”, conta a tesoureira da Adevivi, Cecília Konel.