Por Mariana Honesko

A chegada de um filho é acompanhada de alegria e muita expectativa. A felicidade é ainda mais plena quando a notícia é compartilhada por pais que realmente desejam mais um pequeno integrante na família. Mas, não é exatamente este o sentimento que cerca de 20% das mães da região de União da Vitória sentem.
Dados da 6ª Regional de Saúde mostram que este é o percentual de meninas que deram à luz na adolescência. O levantamento ocorre desde 2000 e não tem tido grandes variações. A série histórica revela uma média de 20 à 22% de mães adolescentes na população. “É um índice bastante alto e que está se mantendo. Com ele você observa a precocidade da gestação. É uma tarefa difícil e a criação destes filhos normalmente vai acabar recaindo sobre os avós”, avalia o obstetra e chefe da Regional, Ary Carneiro Junior.
Os casos são, de fato, comuns. Há um ano, por exemplo, a equipe do Posto de Saúde do Bairro Santa Rosa, em Porto União, acompanhou a situação de uma menina de 11 anos. A jovem tornou-se mãe há um ano. A unidade de Saúde da comunidade é especialidade no município no atendimento da mulher e por estar localizada em um ponto estratégico acaba recebendo um considerável número de mães e gestantes. As adolescentes, que não são poucas, ganham atenção especial. Além do pré-natal, as meninas grávidas são assistidas por nutricionistas, dentistas e psicólogos. “Porque abala muito e geralmente elas não estão preparadas para isso”, comenta a enfermeira auxiliar, Adriana Moreira de Castilho dos Santos.
O cuidado com a saúde mental esbarra na família da jovem. A notícia da chegada um bebê, sem planejamento, geralmente não é digerida com facilidade. “A família vai ter que receber a jovem, a criança e talvez o namorado da menina”, exemplifica a enfermeira. A gravidez na adolescência não aparece como epidemia, mas não tem preferência: jovens carentes socialmente ou não, são alvos idênticos da possibilidade.

Efeitos na educação
Para Carneiro Junior, a mudança de direção depende especialmente de investimento educacional. O preparo que deveria começar em casa, também deveria replicar-se nos bancos escolares. “Os pais precisam estar junto deles, conversando, orientando, para evitar que isso ocorra. O jovem deve pensar sempre em se qualificar, formar um lar para só depois ter seus filhos”, opina.
Mas, é justamente na escola que os primeiros sintomas da gravidez aparecem. A chegada do bebê compromete a frequência escolar e, com o tempo, pode minar as ambições das garotas. “Quando identificávamos uma gravidez, já fazíamos um projeto para que ela não deixasse de frequentar a escola. Fazíamos um trabalho também para não haver discriminação com a pessoa”, conta o secretário da Educação de União da Vitória, mencionando sua experiência como diretora da escola Judith Simas Canellas. Em sua gestão, dois casos, ambos envolvendo meninas de 13 anos, precisaram de atenção. “É preciso persistência porque a tendência é a da desistência”, ressalta.
E muitas desistem. Conforme o chefe do Núcleo Regional da Educação (NRE), mesmo com flexibilização da grade curricular e incentivo à frequência, a evasão escolar não é rara. “Em alguns municípios é um problema mais grave. A gente tem todo um trabalho, mas muitas acabam desistindo”, confirma Ricardo Brugnago. Segundo ele, a desistência que não ocorre na gestação pode acontecer após o nascimento do bebê. “A cabeça da mãe muda, tem a questão da amamentação, dos cuidados com o filho”, aponta. Na região, além da gravidez na adolescência, o trabalho rural e a falta de estrutura familiar – onde até os pais também são evadidos – são motivos para a evasão. Lideram o ranking, por gravidez precoce, os municípios de Bituruna e Cruz Machado. “Embora queiramos abraçar o mundo, somos limitados. Precisamos do amparo dos pais, das mães, da família como um todo para conseguir”, diz.
A adolescente que é mãe também herda as consequências da maternidade. Para a assistente social da Associação de Proteção à Maternidade e à Infância (APMI), de União da Vitória, não há dúvidas: a fase é interrompida. “Ela vai passar por ela sem vivê-la”, pontua Rosane Bilinski. Os efeitos “respingam” nos avós que, ainda que relutantes com a situação, acabam sendo coniventes com o comportamento da jovem. “Os avós acabam criando o neto e acolhendo nora ou genro também. Vejo muitos casos aqui de famílias que até acabam se unindo, para tentar ajudar”, sorri. Para Rosane, o alto índice regional é fruto da liberdade apoiada pela mídia e amparada, mais recentemente, pela legislação. “Isso acaba estimulando os adolescentes. Os pais se sentem banidos de tudo”, diz.
Comportamento
Desde que o levantamento foi iniciado, os índices tem se mantido na mesma faixa. Mais recentemente, contudo, o número de adolescentes grávidas teve oscilações: em 2011, ele marcou 19,62%. Já em 2004, o índice alcançou os 23,47%. O menor percentual registrado foi no ano passado, quando a regional marcou 20,49%. União da Vitória tem um dos índices mais baixos: a média é 19,04% de mães adolescentes. Para as equipes de saúde, até os níveis mais baixos ainda soam como alerta.
Cesárea ou parto normal?
O Ministério da Saúde recomenda e a opinião é unânime entre os médicos: o parto natural aparece como mais saudável e promissor, para mãe e bebê. Os efeitos positivos do nascimento sem “interferência” motivam a escolha do procedimento mas ainda amedrontam por não poupar as gestantes das dores e do intervalo entre o início do “trabalho de parto” ao nascimento do filho. O parto natural, com raras exceções, dói e sua conclusão pode levar horas.
A escolha do método, contudo, nem sempre depende da vontade da mãe. Dados fornecidos pela administrada da APMI, Antônia Donadel Bilinski, mostram uma diferença considerável entre pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) e as dos convênios particulares.
De modo geral mães com maior poder aquisitivo optam pela cesárea. Algumas, inclusive, marcam data e hora para o nascimento. Isso já não ocorre na ala mais humilde. Nela, os partos naturais são maioria. Em abril, dos 101 nascimentos, 65% foram de cesárea e 30% de parto natural. A média global muda na divisão SUS e convênios. Neste caso, o percentual é de 40% de partos normais na ala do sistema único contra 5% na do particular. O comportamento repetiu-se em março. Naquele mês, nasceram 109 crianças. Foram 90% cesarianas particulares e apenas 61%, pelo SUS.
Najila Correa, de 21 anos, e Dayane Juliane Weiss, de 26 anos, endossam o levantamento. Ontem, elas amamentavam pela primeira vez suas filhas, nascidas no dia 4. Ambas as mamães precisaram de cesárea. Atendidas pelo SUS, nenhuma teve condições suficientes para que o parto normal fosse concluído. Ao pegar o bebê no colo, o sentimento era de alívio, pela dor vencida e pela saúde conquistada. “Estou bem, mas dói”, sorri Najila. Mais experiente, Dayane, que já tem outros dois filhos, é mais direta. “A primeira levantada da cama é terrível”, diz, com franqueza.