Por Mariana Honesko

É um trabalho gigante, feito por formiguinhas. Afinal, transformar milhares de páginas e de informação em arquivos digitais, exige tempo, atenção e muito empenho. As circunstâncias, porém, não parecem desanimar as bolsistas do campus da Universidade Estadual do Paraná (Unespar) em União da Vitória. Quatro delas trabalham todas as tardes, há quase dois anos, na digitalização de todo o arquivo impresso de O Comércio. A ação, uma iniciativa da direção do Grupo Verde Vale de Comunicação, prevê dinamizar as pesquisas da comunidade, bem como suprir publicações históricas com informações dos bastidores.
Narrando o que é noticia há 82 anos, O Comércio é referência para mestres e pesquisadores. Foi durante o processo de digitalização que a bolsista Vanessa Cristina Chucailo, mestranda pela Unicentro, de Irati (PR), encontrou o tema de sua dissertação. Nos próximos dois anos ela vai abordar o que o jornal discutiu entre 1933 e 1941: educação sexual. Sem polemizar, O Comércio mantinha uma coluna que tinha o assunto como tema. “Para mim não tem preço estar trabalhando na digitalização. Aqui está o meu mestrado”, sorri.

O processo de digitalização deve durar ainda mais três ou quatro anos. “Três anos é certeza. Queremos aumentar o número de bolsistas também, para dar mais agilidade ao trabalho”, comenta o coordenador do trabalho, Jeferson Gohl. As ações, iniciadas em julho 2012, já garantiram a digitação de três volumes. Estão prontos para acesso os jornais que circularam nas décadas de 30, 40 e 50, um total de 17 delicados livros. As páginas impressas não serão descartadas. Antes, restauradas e novamente armazenadas em arquivos.
Por dentro do processo
A digitação ocorre no Projeto DOC, no colegiado de História da Fafi, em todas as tardes da semana. Os jornais, então reunidos em arquivos e grandes livros, têm cada folha extraída. O trabalho é bastante delicado. Em média, cada volume consome até três meses de atenção. Todas as páginas são fotografadas e, depois, “tratadas” em softwares próprios para a função. É este material que ficará disponível para consulta. Para facilitar a procura, a equipe criou uma espécie de ferramenta de busca, que localiza os documentos a partir de palavras-chaves. Quem digitar na barra que pede a sugestão o nome do então prefeito, Domício Scaramella, por exemplo, terá acesso à todas as páginas em que ele aparece. As páginas ainda trazem um pequeno resumo da procura, manchetes de destaque e uma síntese das principais noticias.
A direção do Grupo Verde Vale ainda não definiu como vai disponibilizar as páginas virtuais. Estuda-se, contudo, a criação de um espaço na sede do empreendimento e a cessão gratuita, como bônus, para assinantes. Ainda assim, sem estar liberado oficialmente, o arquivo digital e impresso, tem procura. “Tem gente que vem aqui e pergunta se pode pesquisar o material, dar uma olhada. A gente permite”, sorri Vanessa.
A pesquisa nos bastidores garantiu ao sargento Sanches, do 5º Batalhão de Engenharia de Combate Blindado, a redação de parte do livro que celebra o centenário da corporação. Em sua pesquisa, Sanches descobriu, entre outros levantamentos, que na década de 30 uma subunidade da Infantaria, ligada à Ponta Grossa, ficou por cerca de dez anos em Porto União. A pesquisa mostra que era algo temporário já que reportagens da época, publicadas em O Comércio, confirmavam a comoção que a instalação de um batalhão definitivo causava na comunidade. “Nossa principal fonte foram os nossos boletins internos que desde 1913 estão aqui, em bom estado, com poucas falhas, mas tem detalhes que só descobrimos por meio do jornal. Foi uma fonte valiosa”, explicou o sargento. “A cerimônia de instalação só ficou clara por conta das informações do jornal O Comércio”, completou.

As bolsistas Ana Paula Buhrer e Noeli Zettel estão há menos de seis meses trabalhando no processo. Para elas, a digitação é sinônimo de oportunidade. “Você aprende muito, conhece muita coisa”, sorri Ana Paula. “O jornal trazia de tudo, de óvnis à vida rural”, brinca. A mescla de informações também é o que agrada Noeli. Morando na região há pouco tempo, garante que entendeu mais sobre as Cidades Irmãs a partir das páginas do jornal. “A gente consegue ver o passado e o futuro. A gente se transporta para o passado. É um sentimento incalculável”, diz.
Uma rápida folheada nas páginas já amareladas pelo tempo explica a admiração das garotas. Com uma diagramação ousada para os padrões da época, O Comércio tinha sua periodicidade regrada e uma grande circulação até em cidades maiores e distantes, como o Rio de Janeiro e São Paulo. Pudera, as edições, em formato standard – quase o dobro de tamanho do modelo usado hoje – vinham cheias de notícias. Ações dos prefeitos, criticas às greves e uma página esportiva com outro formato, garantiam a preferência. A publicada também era peculiar. As edições eram repletas de anúncios simples, de xaropes, medicamentos para engordar e lançamentos dos novos modelos automotivos. Havia ainda a programação dos cinemas, coluna social e piadas, com suaves pitadas de ironia, destiladas aos políticos da época. Enfim, um senhor jornal.
Um dos volumes digitalizados guarda um pedacinho de história em seu “autógrafo”. O livro, da década de 60, tem em sua capa uma pequena dedicatória. O problema está na assinatura. É provável que ela seja de um “Milis”, já que o jornal foi fundado pela família e com ela permaneceu por várias décadas. Mas, de quem é a assinatura? O jornal O Comércio quer saber a resposta e conta com a ajuda da comunidade para isso. Se você identificou a assinatura, por favor, entre em contato com a nossa redação.
