Por Mariana Honesko

Parece ter sido combinado, mas nesta semana, duas capas consecutivas de O Comércio repetem a história de imigrantes ucranianos. A coincidência é ainda mais surpreendente já que o país vive dias difíceis e um destino pouco confiável. Seja como for, o fato é que o encontro de Sofia Kusma, de 88 anos, soa como um grito de protesto contra as barbáries vivenciadas especialmente desde fevereiro por uma das etnias mais queridas na região Sul.
Sofia mora no Bairro São Basílio Magno, um dos mais populosos em número de famílias ucranianas nas Cidades Irmãs. Com seu jeito simples mas elegante, ela abre seu celeiro de memórias. “Sinto saudade do tempo que perdi”, diz emocionada. A frase não é vazia. Sofia nasceu na Ucrânia em 1926. Aos 14 anos, durante a Segunda Guerra Mundial, ela, seus sete irmãos e seus pais, foram separados. “Nunca mais tive notícia dos meus pais”, conta. O conflito recrutava o serviço dos mais jovens em campos alemães. Sofia era alvo fácil e perfeita aos padrões germânicos. Foi em uma das fazendas que ficou que conheceu o marido, Simão Kusma, falecido há 14 anos, vítima de um atropelamento. “A gente foi se conhecendo, se vendo mais, e decidimos ficar juntos para ficar mais fácil começar uma nova vida”, sorri.
E assim foi. No final da Guerra a Alemanha, derrotada e dividida em quatro territórios, não queria se responsabilizar pelos estrangeiros. Uma intervenção americana, contudo, “negociou” o destino do grupo. Sofia e Simão estavam no trecho francês e em pouco tempo embarcavam, rumo ao que achavam ser o Brasil. “Nos enganaram. Na Alemanha, nos mostravam fotos, imagens, e falavam que aquilo era o Brasil. Quando a gente chegou aqui viu que não era nada daquilo”, explica.
O navio atracou no Rio de Janeiro. A cidade serviu apenas como um porto intermediário da nova mudança. O casal, e outros tantos ucranianos, foram enviados para Fraiburgo (SC). “Os Estados Unidos mandavam comida para gente e nós ficamos em uma serraria, esperando para trabalhar”, lembra. Sofia e Simão já tinham uma filha, um bebê de apenas um ano de idade, que atravessou o oceano sem saber o que o futuro reservaria.
Em Santa Catarina os dias foram longos. O grupo ucraniano passou fome, dormia em condições ruins e não tinha a certeza de receber qualquer salário. Tudo era incerto. “Me lembro que mais tarde, já em 1949, a gente foi para São Paulo. Eu vi pessoas dormindo na calçada, cobertas por jornal. Eu pensei, meu Deus, onde viemos parar”, conta. Em Fraiburgo, Simão encontrou na liderança uma forma de esquecer as dificuldades. Ele mobilizou os imigrantes para o trabalho e, com experiência na área de engenharia, arriscou-se na construção de máquinas para serrar madeiras. Sofia acabou conquistando a confiança das esposas dos donos das fábricas e logo estava trabalhando como doméstica.
Os dias ficaram menos pesados quando a Perdigão se instalou na região. Simão conseguiu uma colocação na empresa e só saiu de lá após 22 anos de trabalho. Na ocasião, por incentivo de amigos, escolheu União da Vitória como cidade para morar. Sofia não aprovou a decisão. “Ele queria vir e trabalhar por conta própria e não tinha como dizer não. Ele vinha mesmo”, sorri Sofia.
Assim, as malas foram novamente feitas. Logo, o casal e agora os três filhos, desembarcavam no lado paranaense das Cidades Irmãs. “Ele viu o terreno e comprou.” A vida autônoma não foi suficiente para o sustento da casa. Simão precisou trabalhar fora. E assim fez sua história em pelo menos duas empresas do ramo madeireiro. Sofia, por outro lado, aprendeu a costurar e conquistou uma grande clientela.
Hoje, a vovó – baba em ucraniano – mora sozinha. Todos os filhos, seus cinco netos e dois bisnetos, vivem em outras cidades. Todos, também, vivem de suas próprias conquistas. Sofia não tem mais contato com qualquer familiar. Desde a guerra, voltou a ver três de seus irmãos apenas mais uma vez. Depois, os endereços perderam-se. “Sinto saudade do tempo que eu perdi”, repete Sofia. “Vivo assim, só com Deus”, sorri.

Assim como outros ucranianos, Sofia é admiradora das obras e da história do poeta, Taras Shevchenko. Neste ano, seu nascimento completaria 200 anos e especialmente agora sua trajetória é lembrada com sentimento de luto. Em União da Vitória, o Clube Ucraniano, os amigos da Praça da Ucrânia e a prefeitura, mobilizam esforços para dar vida à arte do homem que é considerado fundador da literatura moderna ucraniana.
A grande novidade será a colocação de uma estátua de Taras na praça. A produção já ocorre e é desenhada pelos artistas plásticos Roque Correa e Carlos Kussik. Para ambos, um desafio. Para os descentes ucranianos, uma homenagem ao nome mais popular de seu país de origem. “Acreditamos que esta obra vai valorizar muito mais a história dele. Vai também divulgar seu trabalho”, avalia o diretor da praça e presidente do Clube Ucraniano, Vilson José Kotviski. A previsão é de que a peça seja entregue à comunidade em abril. O espírito de festa, contudo, não é mais o mesmo. “Inclusive alguns meios de comunicação já mostraram que parte das comemorações à Taras já foi cancelada por falta de condições que o país vive no momento”, lamenta Kotviski.
Em União da Vitória, a solenidade também não será tão pomposa. Porém, o brilho da peça não fica apagado. Conforme Correia, a estátua terá 2,30 metros de altura, em concreto armado, sobre um pedestal de outros dois metros. “Ao redor dele teremos quatro quadros, feitos pelo Carlos, que mostram as obras de Taras”, lembra o presidente do clube.
A homenagem ao poeta é quase tão antiga quanto à história de nascimento da praça da Ucrânia. Na verdade, as datas quase se confundem. O livro de Atas dos amigos da praça já indicava a vontade de colocar a estátua de Taras há mais de uma década. O sonho quase foi realizado em 2001, quando um canadense, por meio de uma intervenção da representação central dos ucranianos, em Curitiba, conseguiu a peça, em bronze. “Mas por falta de dinheiro para transporte, ela não veio”, sorri Kotviski. “Na época, o assunto morreu”, pontua.
A partir disso outras ideias nasceram. Nenhuma, de novo, saiu do papel. “Mas, neste ano em que se completam 200 anos do nascimento de Taras, a gente conseguiu fechar uma parceria com a prefeitura. O prefeito Pedro Ivo Ilkiv, que também é ucraniano, aprovou e a comunidade gostou”, conta, com entusiasmo. Tão logo esteja pronta, a estátua entra para o roteiro ucraniano, oferecido pela comunidade local aos turistas.
Até lá, as obras de criação seguem nas mãos dos artistas plásticos, em um barracão que cheira criação, no centro da cidade.
Praça da Ucrânia
Ela fica próxima ao quartel da Polícia Militar, de frente para a Rua Alexandre Schlemm, no Bairro São Basílio Magno. Ela foi inaugurada em junho de 1997. O espaço é uma homenagem aos imigrantes e palco principal da celebração do aniversário de independência do país. O uso do terreno, então ocioso, foi uma iniciativa do então vereador, também ucraniano, Eugênio Covalchuk Primo. Em 1990, a comissão de apoio à construção da Praça da Ucrânia foi criada.
Quem foi ele?
Taras Schevchenko foi um poeta, pintor, artista e humanista ucraniano. Foi fundador da literatura moderna ucraniana. Em 1838 foi aceito para estudar na Academia de Artes. Em 1840, publicou sua maior obra, a coletânea poética Kobzar. Taras foi preso, liberto, exilado. Seus últimos anos de vida foram dedicados à arte, bem como à revisão de trabalhos anteriores. Taras morreu em março de 1861, após um dia de seu aniversário de 47 anos.