JOC 85 ANOS: Uma voz política

Mesmo longe da capital, O Comércio debatia amplamente sobre política nacional sem receio do erro. Debates eram construídos por aqui e grupos direcionados por esses mesmos pensamentos

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Atualizado há 10 anos

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Politizado, debates nacionais não eram descartados das páginas de O Comércio. O jornalista Hermínio Milis deixou clara sua proximidade com o Partido Liberal, isso antes mesmo da folha, mas já em seu primeiro periódico, A Voz do Oeste.

Fonte de pesquisa para muitos historiadores e, também curiosos pela história do Vale do Iguaçu e região, quem estudou os períodos do jornal aponta para um jornalismo político de opinião, posicionamento que estendia o debate para inúmeras edições. “Era comum haver discussões sobre política em que um colunista escrevia algo em uma edição e na outra outro rebatia, ampliando o debate para várias edições. Quando comparamos edições do Jornal O Comércio das décadas de 1930 e 1940 percebemos que pouco se diferenciava de jornais da capital em questões gráficas, número de páginas e relevância dos conteúdos. Isso nos faz refletir o quanto União da Vitória e Porto União eram municípios importantes economicamente e politicamente nesse período”, comenta o doutor em história Wanilton Dudek.

O professor pesquisou as décadas de 1930 a 1940 para sua dissertação de mestrado. Nesse pedaço da história do jornal, Dudek coloca O Comércio como o principal veículo de comunicação do Vale. Assuntos com temas regionais e nacionais eram amplamente discutidos. “’Se você procurar sobre os problemas enfrentados pelos imigrantes frente à campanha de nacionalização do governo Vargas, a II Guerra Mundial, a tentativa do avanço do integralismo e outras questões relevantes para o País na época, tudo isso está lá, e discutido regionalmente”, comenta.

Mesmo com uma proposta de posicionamento independente e imparcial, O Comércio ganhou as bancas pela paixão do jornalista Hermínio Milis ao Partido Social Progressista, com Adhemar de Barros à frente.

A ligação era tão estreita que o então governador de São Paulo chegou a ficar hospedado na casa de Milis na época em que concorria à Presidência da República.

Contudo, nos 85 anos de O Comércio a folha nunca deixou de mostrar o fato, tal como ele é, de se posicionar e, algumas vezes, de mostrar o caminho. Além de contar e preservar a história. “A importância de um acervo histórico como o do Jornal O comércio é incalculável. O conteúdo rende pesquisas que podem revelar muito sobre a nossa história, além de nos fazer entender a importância de se ter uma imprensa com qualidade para contribuir com o desenvolvimento regional”, argumenta Dudek.

Para Vanessa Cristina, mestre em história que também estudou O Comércio durante sua primeira década, os primeiros anos do jornal foram bastante peculiares, tanto no que diz respeito ao próprio formato do jornal quanto em seu conteúdo. As edições eram menores, variando entre 4 a 8 páginas, dependendo da quantidade de informações a serem publicadas ou até mesmo da disponibilidade de papel em estoque para serem impressas as edições. “Destacamos que durante essa primeira década de circulação o jornal tinha uma preocupação especial em se afirmar enquanto um periódico pertencente a cidade de Porto União, ressaltando em suas páginas aspectos políticos, sociais e culturais enquanto cidade catarinense, distanciando-se sempre que possível da sua “gêmea” paranaense, União da Vitória”, conta. “Podemos interpretar tal fato como uma das consequências do acordo de limites resultante do Contestado, que dividiu a cidade em duas: enquanto uma cidade permaneceu sob jurisdição paranaense, utilizando inclusive o mesmo nome, a outra precisou buscar sua legitimidade enquanto nova partícula adquirida por Santa Catarina. União da Vitória era praticamente inexistente no Jornal O Comércio nessa primeira década de circulação, fato que foi se modificando a partir de 1940”, explica.

Em sua dissertação Vanessa fala que essa necessidade de afirmar a identidade enquanto cidade catarinense no Jornal O Comércio é, de certa forma, movida por interesses políticos locais. Tal afirmação pode ser em parte sustentada quando em 1952, por exemplo, a direção do jornal acaba solicitando que as prefeituras tanto de Porto União quanto de União da Vitória, regulamentassem a publicação dos atos oficias de ambas através das necessárias verbas repassadas ao jornal, uma vez que se tratando de um periódico do interior, as despesas quase sempre são maiores do que os gastos, deixando em aberto o pronunciamento dos prefeitos locais, senhores Alfredo Metzler e Domício Scaramella. Logo o prefeito de Porto União, Alfredo Metzler, vetou a proposta declarando que não pagaria qualquer tipo de aumento na subvenção que já era paga pelo município, esclarecendo à Câmara Municipal que “o município não paga subvenção de espécie alguma a esse jornal, e sim tem pago a publicidade dos atos oficiais do município, pois que, o já referido jornal até a presente data ainda não foi declarado ser de utilidade Pública”.

Muito pouco se tem escrito sobre Porto União. Uma vez que sua história acaba sempre a sombra da sua cidade irmã União da Vitória, são poucas as obras que abordam apenas a história de Porto União, especialmente nos seus primeiros 30 anos de fundação.

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