O Jornal O Comércio é um dos meios de comunicação mais importantes da região, com 85 anos de circulação. O futuro de O Comércio está em boas mãos. Moderno e respeitado pela sua história, O Comércio é o pioneiro do jornalismo impresso em União da Vitória e Porto União. Influenciou na criação de todos os outros jornais da região. E não são poucos. Foram várias pessoas que trabalharam para essa evolução do veículo. Seria necessário mais que uma grande reportagem para retratar a maioria desses profissionais e colaboradores.
Tudo isso começou na primeira metade do século 20, em Porto União, pelo ideal do jornalista Hermínio Millis. União da Vitória (PR) e Porto União (SC) ainda não contavam com um jornal que circulasse com regularidade e as notícias eram tratadas como boatos, corriam de boca em boca nos locais de concentração de pessoas.
Homem culto e progressista, Hermínio Millis idealizou um periódico para contar não só as notícias locais e regionais, mas tudo o que se ouvia de outros centros populacionais do País. Estava inaugurada a era da informação escrita no Vale do Iguaçu.
Millis, o jornalista
Em meio ao alvoroço das festas de Natal, Hermínio Millis nascia em Florianópolis, em 24 de dezembro de 1893. Teve uma infância humilde e feliz ao lado da família trabalhadora e empreendedora espalhada pela capital e no oeste de Santa Catarina. Iniciou sua carreira profissional muito jovem em Florianópolis como alfaiate, tendo também se dedicado à arte musical, ministrando aulas de música na Banda da Polícia Militar de Santa Catarina, tomando parte ativa como integrante da Sociedade Musical Amor à Arte, na capital catarinense.
Como batalhador das causas culturais do Estado, recebeu convite do próprio governador Adolpho Konder e reorganizou a Biblioteca Pública de Florianópolis. Mais tarde foi nomeado inspetor escolar em Porto União e professor de Português no Colégio São José. Como jornalista, exerceu suas atividades no diário A República, de Florianópolis, e em Porto União foi redator do jornal A Nota, de propriedade do empresário Nicolau Codagnone e fundador dos semanários A Voz do Oeste (órgão de caráter eminentemente político) e O Comércio, nos quais deixou sua marca pessoal. O Comércio é considerado pioneiro da imprensa na região de União da Vitória e Porto União por ser o primeiro veículo de comunicação impressa local a circular regularmente.
O começo
A história de O Comércio começou em 11 de junho de 1931 pelas mãos do já falecido jornalista, poeta, músico e escritor Hermínio Millis, que veio de Florianópolis para atuar em Porto União como cartorário. Os primeiros anos do jornal não foram nada fáceis, porque as matérias eram censuradas e o veículo sofria ameaças de ser fechado pelo regime militar da época.
No início de 1932, Hermínio Millis chegou a ser preso e mandado para a cidade de Florianópolis, mas, em maio do mesmo ano conseguiu reativar a empresa. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o jornal teve muita dificuldade para circular, pois o papel estava em falta, com isso ele foi reduzido em número de exemplares.
O jornal de 1932 era impresso com apenas oito páginas, dividido em quatro colunas, com tipos grandes no corpo do texto. A estrutura do jornal era a seguinte: a capa com os destaques e notas diversas; a página dois oferecia uma coluna social geralmente recheada com notas de aniversários; a página três estampava notas e artigos dos colaboradores; a página quatro foi preenchida com a publicidade; a página cinco tinha reprodução das notícias nacionais e publicidades; a página seis oferecia boletins estatísticos e notícias da área econômica; a página sete era comprometida com a publicidade e a contracapa com notas políticas e de interesse geral. A composição manual foi até 1972 e a oficina estava localizada na Rua Prudente de Morais, onde hoje funciona o Cartório Ollinger.
Apesar de funcionários e colaboradores não serem nominados, pessoas ilustres passaram por O Comércio. A família Augusto era um dos pilares da empresa. Maria da Luz Augusto (Lulu), René Augusto e Lamartine Augusto, todos já falecidos, fizeram parte da equipe do jornal O Comércio até 1953.
O fim e o recomeço
Segundo o neto mais novo do fundador do jornal, Sérgio Millis, homem de fala serena e pausada, farmacêutico aposentado e voluntário no Lar Espírita União, O Comércio chegou a fechar em 1963. O jornalista Ari Millis, proprietário do jornal, estava com dificuldade para comandá-lo, porque, além de ser gerente da Caixa Econômica Federal, em União da Vitória, era muito ligado ao Centro Espírita Amor e Caridade, em União da Vitória; estava envolvido em várias atividades.
Nesse período estava também como suplente de deputado estadual e assumiu por vários meses o cargo na Assembléia Legislativa do Paraná. “Ele não tinha muito tempo e teve alguns problemas sérios na família. O filho mais velho dele (sic) que teria hoje a mesma idade que eu, Ari Ozzi Millis, faleceu, vítima de acidente na BR-476, que nem era rodovia federal ainda, estavam iniciando o asfaltamento, era terra daqui a Curitiba, chão batido. O problema de saúde da esposa dele. Ele estava com o jornal parado”, explica Sérgio.
Ari Millis sentiu a necessidade de reativar o jornal. Isso porque Porto União, em 1967, completaria o cinquentenário, e ele queria reativar o jornal nessa data importante para o município. No entanto, a era Millis chegou ao fim quando o jornalista Ari vendeu o jornal da família para um grupo liderado, na época, pelo proprietário da Rádio Colméia, João Carlos Côas, em 1977. Ari Millis chegou a fundar outro jornal, o Traço de União, absorvido anos mais tarde pelo Jornal O Comércio. Côas chamou o radialista Ivo Dolinski, que já trabalhava na Rádio Colméia para assumir como editor-chefe do jornal.
Trinta e cinco anos de O Comércio
Ivo Dolinski lembra do jornal O Comércio desde que era menino. Na adolescência ficou praticamente seis anos estudando e morando em Curitiba junto com sua irmã. Voltou para União da Vitória durante o golpe militar de 1964, porque a empresa e a escola onde estudava e trabalhava em Curitiba foi fechada pelos militares. Ele conta que teve de voltar e procurar emprego para ajudar os pais.
Em 1966, Ivo Dolinski iniciava a carreira mais longa dos quadros de funcionários e colaboradores do Jornal O Comércio. Em União da Vitória e Porto União só existia O Comércio, que circulava todos os domingos e o rádio vivia uma “época dourada”, com as emissoras já instaladas, funcionando como referência de informação e entretenimento nas duas cidades.
O jornal também enfrentou os “anos de chumbo”, como ficou conhecido o período da ditadura militar. Para se ter uma ideia, a direção do jornal recebia telegramas com orientação do Serviço Nacional de Informações (SNI) sobre o que poderia e o que não poderia publicar. Segundo Dolinski, o comando militar local tratou a imprensa com brandura, havia até certa simpatia do povo com o exército brasileiro.
“A gente tinha que se adaptar, saber que não podia fazer, não fazia. Dava bastante cobertura para o comandante do 5º BEC, na época era inegavelmente a maior autoridade das duas cidades e da região, não era o prefeito como deve ser. Não era de direito, mas era de fato, então não tinha problema, eram pessoas que se envolviam muito com a comunidade, inclusive teve um coronel, o Ricardo Gianordolli, que foi o fundador da Associação Atlética Iguaçu”, justifica Dolinski.
Sobre o jornal, ele diz que o veículo de comunicação foi muito importante e continua sendo. “O jornal de 1931 tem oitenta e cinco anos. Ele foi importante, como importante foi o que nasceu em função da existência dele, o jornal Caiçara e todos os outros que vieram depois. O Comércio é uma espécie de arquivo histórico, um arquivo valiosíssimo da nossa cultura, da nossa história, da nossa política, na nossa economia. “Eu tive a honra de escrever talvez 30, 40% do que aconteceu de importante durante mais de três décadas, como editor do jornal O Comércio”, conta Dolinski.
O empresário João Carlos Côas permaneceu na condição de proprietário do jornal O Comércio até 1982. Nesse mesmo ano vendeu o jornal para um grupo formado pelos empresários Levy Pacheco, Mário Emílio da Silva e Gilberto Brittes, que era o prefeito de União da Vitória na época.
O homem na Lua
Uma das matérias mais curiosas é uma reportagem sobre o astronauta que supostamente havia nascido em Porto União. “Era uma coincidência de uma família alemã, que veio morar em Porto União e o filho de Joseph Conrad, o nome do alemão que se instalou nas proximidades da localidade do Maratá e teve um filho chamado Charles Conrad, mais tarde se mudou para os Estados Unidos. Depois houve uma coincidência que causou admiração na comunidade local: Charles Conrad foi para a lua. Com um detalhe: o astronauta que foi pra lua é Charles Conrad Júnior.
“Consequentemente o nome do pai dele era Charles Conrad, e o nome do pai do Charles Conrad de Porto União era Joseph Conrad”, explica Dolinski. Causou admiração, porque as pessoas achavam que o Charles Conrad, do Maratá, foi o astronauta que pisou na lua. “Alguns anos mais tarde o jornal fez várias pesquisas e descobriu que o nosso Charles Conrad, filho do Joseph Conrad, era um mecânico aposentado que morava na Carolina do Norte, e o Charles Conrad Júnior, o verdadeiro astronauta, morava em Miami”, conta Dolinski.
A tecnologia moderniza a informação
As máquinas de escrever deram lugar ao computador, desde setembro de 1992, quando o jornalista Ivo Dolinski comprou os primeiros microcomputadores, com programas difíceis de lidar. A preocupação seguinte foi modernizar a redação e dar condições para acelerar a composição do Jornal O Comércio. O técnico em computação, Reginaldo Araújo, que havia recém-inaugurado sua loja de computadores e equipamentos, foi chamado para desenvolver a primeira rede interna, com três computadores Intel 386.
Lentamente, por causa do custo elevado dos computadores e equipamentos, O Comércio melhorava sua capacidade tecnológica. Vieram os computadores Intel 486 com processadores mais potentes e a memória RAM também foi esticando para 128 MB, com quatro pentes de memória de 32 MB.
Com a chegada do Pentium II e Pentium III, a qualidade melhorou muito. Foi a época em que os programas mudaram o estilo do jornal. A internet derrubou a questão de enviar a editoração do jornal por disquetes para a gráfica, que ficava em Curitiba, por ônibus.
O sinal de internet muito mais potente, inicialmente distribuído pela Net União, foi substituído pelo provedor da Brasil Telecom. Os diagramadores da redação começaram a usar um programa de editoração eletrônica, chamado Aldus PageMaker 3.0, que foi o protótipo do programa Adobe PageMaker 5.0, 6.0 e 7.0.
O primeiro diagramador, depois da inclusão digital do Jornal O Comércio, foi o jornalista Marcelo Daniel Storck, que começou também a trabalhar com o programa Corel Draw para edição de publicidade e de imagens. Esses programas favoreceram a modernização do jornal, que ainda era impresso em formato standard. Com uma redação considerada inovadora para os padrões das colunas sociais existentes, Storck passou também a responder pela editoria social, assumindo a coluna Radar, hoje sob a responsabilidade de Sitamar Dalmas. O colunista começou no Jornal o Comércio a convite do jornalista Ivo Dolinski em 1995.
“Iniciei nesta casa como colunista social de Radar, em 1989, e, confesso, à época não levava o mínimo jeito para a coisa. Para ser sincero, tenho minhas dúvidas se já mudou algo, mas o barato desta profissão é exatamente este: a cada dia conhecemos algo ou alguém. Aprendemos”, diz Storck.
Ainda sobre sua trajetória no jornal, Storck lembra alguns fatos históricos. “Enquanto estive como redator e diagramador, tive, entre outras, o orgulho de ter participado da primeira edição colorida deste hoje diário e de ter realizado vários eventos beneficentes com a criação do “Troféu Hermínio Milis”, fundador deste veículo, o terceiro mais antigo jornal da história do Paraná”, lembra.
Crescendo e aparecendo
O jornal precisava crescer para atender à demanda e outros profissionais foram contratados. Em maio de 1999, surgiu um menino recém-formado no Colégio Técnico de União da Vitória (Coltec), entendido em computadores, Eduardo Carpinski, convidado pela diretora Sitamar Dalmas, para trabalhar como diagramador junto aos dois diagramadores oficiais do jornal: Divair Dalmas e Marcelo Storck.
No dia 1º de setembro de 2009, nas primeiras horas do dia, O Comércio circulou com sua edição número 4 mil. Com capa e contracapa coloridas, o jornal foi distribuído para as bancas e assinantes com muita euforia. A estrela da reportagem comemorativa foi a pesquisadora e colunista Therezinha Leoni Wolff, considerada um ícone da cultura em União da Vitória e Porto União.
Segundo Therezinha, o jornal, com suas edições semanais ou diárias (atualmente), acompanha a vida e a evolução da região. “O jornal é um documento importante, onde se registra o cotidiano e a história de uma cidade ou região, como é o caso do Jornal O Comércio. Espero que a missão do jornal perdure por muitos anos, com respeito, dedicação e amor”, declara.
As pessoas por trás de um grande jornal
A história do Jornal O Comércio é curiosa. Passou e está até hoje nas mãos de famílias. Das mãos do fundador, o jornalista Hermínio Milis e sua família, o jornal passou para as mãos da família Côas (João Carlos Côas e filhos), depois para o comando do jornalista Ivo Dolinski que dirigiu o jornal ao lado do genro e da filha, e, finalmente da família Brittes. Gilberto Francisco Brittes tem uma história de amor com União da Vitória. Homem de voz proeminente, gestos bruscos e olhar atento, foi vereador por três mandatos, além de prefeito de União da Vitória entre 1977 e 1982.
Quando surgiu a idéia de comprar o Jornal O Comércio, Brittes olhava a empresa como um negócio, como outro qualquer. Contudo, deixou o jornal sob o comando de Ivo Dolinski por muito tempo (de 1982 a 1996). Só então que Brittes recrutou sua família para comandar o impresso. Os primeiros a chegarem foram a professora Sitamar Brittes Dalmas, irmã de Gilberto Brittes, o professor Divair Dalmaz, cunhado, Gustavo Dalmas, sobrinho, e o irmão Brittes Antonio Brittes.
“O jornal passava por dificuldades financeiras muito grandes, então eu pensei que era hora de investir no jornal ou desistir de vez. Reuni-me com minha família e decidimos que um jornal com toda a importância de O Comércio não poderia morrer. Levei meus irmãos e meu sobrinho e, imediatamente, começamos a reorganizar o jornal. O resultado foi imediato. Pagamos as contas e vários colaboradores nos acompanharam na reestruturação”, conta Brittes.
Gustavo Dalmas assumiu com Marcelo Storck a diagramação do jornal, onde permaneceu até Eduardo Carpinski ser efetivado no cargo. Contavam com colaboradores como Durval de Lima Júnior, colunista policial, Micheli Oaniéski, secretária, que assinava a coluna O Comercinho, que divulgava fotos e eventos infantis.
Nesse período de transição a família Brittes assumiu várias funções no jornal. O professor Divair Dalmas assumiu a coluna de esportes, que se tornou a mais bem sucedida da história do jornal, e também foi o fotógrafo oficial para eventos políticos, esportivos e policiais. Sitamar Brittes Dalmas assumiu a direção do jornal e posteriormente a coluna Radar, outra tradição de O Comércio.
“Pensar no futuro, sem esquecer o nosso passado, é a maior mensagem que os 85 anos de existência nos proporciona”, afirma Sitamar. Já seu marido, Divair, afirma que o maior orgulho é ler a frase “extraído do Jornal O Comércio”, em publicações em toda a região. “É uma forma de reconhecimento do trabalho desenvolvido nestes longos anos por toda a equipe do jornal.”
O que dizem os historiadores
Para o professor e historiador Cordovan Frederico de Mello Júnior o jornal O Comércio nasceu em uma época de franco desenvolvimento de União da Vitória e Porto União, com a urbanização, chegada da ferrovia e com a exploração da madeira, que garantia uma posição ao município importante no cenário econômico do Estado. “O jornalista Hermínio Millis foi um visionário, moderno e de atitude. O Jornal O Comércio deu uma cara de cidade grande, onde se ocorriam muitas transformações. A população estava ávida por informações. Daí a importância de um veículo de comunicação genuinamente local”, analisa Cordovan.
Já para a pesquisadora Therezinha Leony Wolff, o papel do Jornal O Comércio não foi só o de informar, também ajudou muita gente a ler e a escrever em uma época que os livros eram poucos. “Eu não conheci o professor Hermínio Millis, mas sempre teve muito respeito em torno do nome dele. Como historiadora posso dizer que foi um dos homens mais influentes de sua geração e foi empreendedor. Todos os jornais que existem hoje devem um pouco ao pioneirismo do professor Hermínio”, afirma Therezinha.
Perguntada por que chama Hermínio de professor e não de jornalista, Therezinha diz que ser professor na época de Millis era muito nobre e respeitado. Termina afirmando que chamá-lo de professor é uma homenagem justa a quem trabalhou tanto pela educação, cultura e informação, como Hermínio Millis. A historiadora faz questão de dizer que o jornal continua com muita coisa do original, mas trabalha com modernidade. “Está muito bem representado pela família Brittes e pelos funcionários que realizam um trabalho muito digno”, conclui.