Por Mariana Honesko

A missão liderada por ele e por outros seis militares teve um desfecho bem diferente. De Porto União, César Augusto da Silva, então cabo da Polícia Militar, levava uma das motocicletas do quartel que seria substituída. Da capital, uma nova frota seria enviada. Mas, Augusto não chegou ao destino. Na rodovia, parou em um pequeno depósito de areia. Os pneus escorregaram e o acidente ocorreu. O ano era 2006. O dia, 13. O mês, novembro. “Fiquei 42 dias internado”, conta, com um sorriso no rosto. Augusto não lembra com tristeza do que passou.
Na verdade, encontrou na fatalidade a oportunidade de ver o mundo com outros olhos. Agora, 1,80 metro de altura estão acomodados em uma cadeira de rodas. “Ninguém precisou me dar a notícia de que eu não iria mais andar. Eu soube na hora do acidente”, diz. Do assento, encara o trânsito e os passeios públicos com espírito de transformação. Augusto é realista, confessa que jamais encarou a mobilidade de um jeito crítico antes do acidente, mas agora luta pela causa dos que estão em situações aquém da sua. “Eu me considero privilegiado. Tenho carro adaptado, uma boa cadeira. Mas e como estão os outros cadeirantes atrás de mim?”, questiona-se. Nos bastidores, o policial aposentado conta ainda com o suporte familiar. O caçula, Leo, de 12 anos, é um de seus “fiéis escudeiros”.

Na ânsia pela transformação, Augusto lidera um movimento que sugere acessibilidade. A conquista, conforme ele, seria benéfica também para pessoas com mobilidade reduzida temporariamente, idosos e até mães com carrinhos de bebês. “Acredito que 95% da cidade não tem condições de receber um cadeirante”, aponta. O levantamento faz parte do trabalho do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Augusto é presidente da entidade e junto com os membros, lidera uma pesquisa mais detalhada sobre o tema. Além dos pontos críticos, mapeia o número de pessoas com necessidades especiais. Os dados serão tabulados em parceria com o Sistema Público e municipal de saúde.

Para ele, as dificuldades são tantas que boa parte dos deficientes escondem-se dentro de casa. Vale fazer a comparação: segundo o policial, em uma certa ocasião, ele demorou quase uma hora para chegar à Caixa Econômica Federal (CEF), na rua Sete de Setembro, em Porto União. “Eu precisei deixar o carro na praça Hercílio Luz e vir na cadeira”, explica. “Uma pessoa sem essa necessidade levaria uns cinco minutos no mesmo trajeto”, avalia.
Mais do que lentidão, a falta de acessibilidade esbarra na exclusão social e em mais problemas de saúde. “Tem muitos que precisam fazer fisioterapia, mas não vem por conta da dificuldade. A maioria não tem carro adaptado ou alguém que leve sempre. A maioria depende do Transporte Público e não vem”, comenta a fisioterapeuta, Thamirys Bembe. Estima-se que um ano de fisioterapia seja perdido em duas semanas sem exercícios. Endossa a lista de perdas a possibilidade de danos provocados pela tentativa de acessar lojas, restaurantes e até a prefeitura. “A cadeira foi feita para rodar e não para subir degraus”, lembra Augusto. Uma simples revisão na cadeira, por exemplo, custa mais de R$ 200. Trocas de peças têm preço ainda maior e podem deixar o cadeirante esperando dois, três meses, pela devolução.
A Secretaria de Planejamento de Porto União já sinalizou interesse em buscar adaptações. A iniciativa é reflexo da orientação do Governo Federal que, por meio de decreto, discute normas e a obrigatoriedade para deixar os municípios mais acessíveis. O prazo para a adaptação está se esgotando e as prefeituras correm atrás do prejuízo. Segundo o decreto, todos os municípios do País têm até abril de 2015 para apresentar seu Plano Municipal de Mobilidade Urbana. “Quem não apresentar, não receberá mais recursos para este tipo de investimento”, explica o secretário, Cláudio Tilgner. Conforme o Plano, devem ser adaptados os passeios, Transporte Público e os imóveis de uso público. “E os municípios precisam se adaptar e cobrar esta questão da acessibilidade”, reforça.
Em Porto União, a cobrança já começou. Conforme Tilgner, a liberação do alvará para novas construções depende da apresentação de um projeto que contempla a acessibilidade. Os alvarás de funcionamento também estão associados com as adaptações. Para manter as portas abertas, as empresas vão precisar manter banheiros acessíveis, rampas e passeios padronizados. As exigências também valem para imóveis antigos. O alvará será temporário e todo ano, os empresários precisarão mostrar que cumprem à legislação, para receber o documento de renovação. “Não adianta você fazer uma loja muito bonita visualmente e aquele degrau, de 10 ou 15 centímetros, estiver lá”, exemplifica o secretário.
Imóveis e prédios mais antigos também vão precisar se adaptar. A Secretaria de Planejamento entende as dificuldades, mas recomenda a adequação nos locais em que isso é possível. Os comerciantes do Mercado Bom Gosto, por exemplo, tentam melhorar o acesso ao estabelecimento. “Tínhamos dois degraus, mas agora temos um só. Pensamos em fazer a rampa para os cadeirantes, mas vimos que isso iria atrapalhar os pedestre da calçada”, conta o comerciante Carlos Niewohner. O mercado tem apenas um cliente cadeirante. “E ele mesmo disse que no momento não precisa ter adaptação porque a gente atende ele com preferência”, sorri.
Para a prefeitura, o investimento dos comerciantes tem retorno. Ainda que consuma algumas cifras, a adaptação pode valorizar o imóvel a aumentar a carta de clientes. Em contrapartida, o não-cumprimento do decreto Federal pode gerar sanções para o prefeito e para quem garantiu a liberação dos alvarás.

Os proprietários da Ótica Central, em União da Vitória, não negam que copiaram o modelo do vizinho. Foi na loja Ótima, na mesma rua da ótica, que a ideia nasceu. “Vi e fiz também”, sorri Reinaldo Neubaeuer. Quem visita o estabelecimento não percebe que ele é acessível. Mas é. Uma placa colocada na entrada, anuncia a presença de rampa móvel. Ela pode ser colocada a partir do pedido do cadeirante. “Como é uma sala alugada, não tinha originalmente a rampa. Eu mandei fazer uma e sempre a deixava no local certo, mas tinha gente tropeçando, especialmente os idosos. Por isso, coloquei a rampa de lado, móvel”, explica. Segundo ele, todo mês cerca de quatro ou cinco pedidos para acesso especial ocorrem. Não é muito, mas dá resultado. “As pessoas gostaram e se tem um cadeirante que quer entrar, a gente logo ajuda e a rampa móvel não atrapalha o trânsito de ninguém”, observa.

A entidade já protocolou na prefeitura de Porto União, em setembro do ano passado, o pedido para mudança em uma das principais rotas do transporte público administrado pela empresa Piedade. A sugestão propõe o uso da avenida General Bormann no lugar da Sete de Setembro. “Neste trajeto o ônibus passaria na frente de dois cemitérios municipais, na Apadaf, Apae, Clube Aliança, colégios São José e Balduino Cardoso, igreja Matriz e Colégio Santos Anjos”, diz Augusto.
A proposta vai ao encontro do pedido Federal, que vai cobrar a partir do próximo ano, adequações, inclusive, na mobilidade do transporte público. Com a mudança no roteiro, o conselho aposta no conforto dos usuários das linhas, já que ficarão mais próximos dos endereços comumente usados por eles. “Com as mudanças, serão proporcionados aos usuários mais segurança e fluidez no transito, proteção por conta da chuva e do frio e acessibilidade, que é um direito de todos nós”, encerra a redação enviada ao prefeito, Anízio de Souza.