Por Mariana Honesko

Não fosse pelas reais condições, o endereço escolhido pelos cerca de 15 moradores de rua seria perfeito. A casa improvisada fica no centro de Porto União, com vista para o Rio Iguaçu. Mas, a história deles não é conto de fadas e ainda está longe de um final feliz. A demora em chegar ao último capítulo parece ser vontade deles mesmos. Morando há cerca de cinco meses embaixo de uma das marquises do Clube Concórdia, os sinais que pedem mudanças são pouco evidentes. “Estamos tranquilos, de boa”, diz um dos moradores, que prefere não revelar sua identidade.
Por lá, eles se ajeitam como podem. Do trabalho de coleta de material reciclado, organizado por alguns deles, o grupo reuniu uma velha geladeira que, desligada, serve para armazenar os poucos mantimentos conquistados em doações. Há ainda colchões, colocados em uma fina tábua de compensado. Os banhos são no rio, bem como as necessidades fisiológicas. Porém, não faltam cobertores, cigarros e bebidas.
Conforme a Assistência Social de Porto União, a maioria dos moradores é alcoolista e muitos rejeitam a oferta de tratamento. O grupo garante que convive pacificamente. “Esta é nossa família”, diz o porta-voz deles. Há alguns dias, a família ficou menor. E em luto. Um dos moradores morreu ali, perto dos colchões, provavelmente de causas naturais.
A presença dos moradores em um dos endereços mais nobres da cidade tem incomodado e preocupado a comunidade. O secretário da Assistência Social, Marcos Antônio Vieira, afirma que tem acompanhado a presença do grupo desde os primeiros dias de instalação às margens do rio. “Já estivemos lá, fizemos uma abordagem e tentamos encaminhar os moradores para suas casas e clínicas”, conta.

O setor enfrenta a relutância de alguns. De acordo com Vieira, alguns moradores, especialmente os que não são de União da Vitória ou Porto União, relutam em aceitar tratamento ou oferta de trabalho. “A gente não pode forçar a saída deles”, diz. Há algumas semanas, representantes da prefeitura e dos órgãos de atendimento social, estiveram reunidos para discutir o destino do grupo. Participou do encontro, também, o presidente do Clube Concórdia, Rodrigo Manfredini. Na ocasião, ficou acordado que um muro seria construído na região, bloqueando a entrada e permanência dos moradores de rua. O muro não saiu e no lugar dele apenas uma cerca foi colocada. Nesta semana, ela já estava no chão, amassada. “Mas mesmo que o local seja isolado, estes moradores vão para outro lugar”, avalia a assistente social do Centro de Referencia Especializado de Assistência Social (Creas), que atende as questões de direitos violados, Luciana Cristina Kauva.

Conforme ela, a negociação com o grupo ainda é tímida. Para convencê-los das mudanças, a equipe tenta uma aproximação mais amigável, movida pela troca de confiança. Por enquanto, pouco do que é pedido aos moradores é praticado. “Não temos autonomia para tirar eles de lá, até porque isso fere o conceito do direito de ir e vir”, explica. Ainda assim, nos bastidores, pequenas intervenções já ocorrem. A equipe busca as famílias dos moradores, bem como cuida da documentação de todos. “É um trabalho em longo prazo”, diz.
O grupo, que começou pequeno e ganhou dimensão, agora é misto. E preocupante. “Eram cinco homens. Agora tem duas mulheres e uma delas está grávida”, revela Luciana. Para os moradores, o “ganha-pão” e ajuda da prefeitura, já estão de bom tamanho. “Frio e fome a gente não passa. A gente põe um cobertor, um compensado. A gente se vira nos 30”, sorri um dos moradores.