Crianças não vem com manual de instrução. Não são robôs. Crianças são apenas sentimento. Por isso, o choro é uma comunicação corporal, sem som, é a forma mais comum de suas expressões. E isso vale quando as coisas vão bem, mas principalmente quando vão mal.
Quando o assunto é violência, os sinais ficam mais evidentes, embora variam conforme a idade e o tipo de agressão. Além do choro, outras reações são perceptíveis até o fim da adolescência.
Pensando em tudo isso, o Governo do Paraná, por meio da Secretaria de Estado da Família e Desenvolvimento Social, lançou neste mês, a campanha ‘Não engula o choro’, uma mobilização que alerta sobre a violência contra crianças e adolescente. A ação nasce em maio, por conta do dia 18, quando se comemora o Dia Nacional de Combate à Exploração Sexual de Crianças.
A secretária estadual da Família, Fernanda Richa, explica que o silêncio e outros fatores envolvidos na violência contra criança dificultam que a rede de proteção tome ciência da situação e possa intervir de maneira adequada. A campanha tem a parceria das secretarias estaduais da Saúde, da Educação e da Segurança Pública, que registra e encaminha denúncias de violações de direitos, no Paraná, pelo telefone 181. “É imprescindível sensibilizar família, professores e todos os agentes da rede de proteção. Somente dessa forma tornaremos visíveis essas situações que comprometem o desenvolvimento de meninos e meninas”, disse Fernanda.
O presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Criança do Adolescente (Cedca), Alann Barbosa Caetano Bento, enfatiza que as violências não escolhem classe social. “Não é possível afirmar que os abusos físicos, sexuais ou psicológicos ocorrem mais em famílias de baixo poder aquisitivo. Mas, independentemente da condição financeira, o sofrimento é o mesmo, assim como o mal causado ao desenvolvimento saudável da criança e do adolescente”, afirmou. “A maior dificuldade da criança é compartilhar a sua dor por vergonha. Muitas vezes os casos de violência envolvem pessoas próximas e por isso mesmo, ela sente medo, receio de procurar ajuda. Por isso, a gente pede que a criança ou o adolescente manifeste que algo não está bem para alguém que ela tenha carinho”, completa. Conforme o profissional, apenas um pequeno percentual das agressões chega onde precisam chegar. “Por isso, as campanhas servem para que mais crianças que precisam de ajuda sejam atendidas”, ressalta.
Conforme dados do Ministério da Saúde, as quatro principais formas de violência contra crianças e adolescentes são a negligência ou abandono; e violências física, psicológica ou moral e sexual. Levantamento das fichas de notificação pelos serviços de saúde, de 2010 a 2014, indicaram 35.479 casos. Desse total, 37,6% refere-se a negligência; 29,4% a violência física; 17,9% a psicológica; e 15,1% a sexual. A negligência responde pela maioria das notificações para crianças até 12 anos e, a partir de então até os 19 anos, é a violência física predomina.
Os que sinais que indicam que a criança ou adolescente sofreu alguma violência variam de acordo com a idade e tipo de agressão. Também é preciso ficar alerta a manifestações precoces de sexualidade, desconfiança extrema, autoflagelação, baixa autoestima, insegurança e extrema agressividade ou passividade. “São sinais só perceptíveis principalmente por quem convive com a criança ou a vê com frequência, na escola, na igreja e em outro lugar de convívio social”, destacou Alann Bento.
EVIDÊNCIAS DE QUE NADA ESTÁ LEGAL
Em qualquer idade, é preciso prestar atenção ao aparecimento, sem causa aparente, de irritabilidade constante; olhar indiferente e apatia; distúrbios do sono; dificuldade de socialização e tendência ao isolamento; aumento na incidência de doenças, especialmente de fundo alérgico; e frequentes de afecções de pele
A CAMPANHA
Duas animações, de aproximadamente um minuto cada, são projetadas antes dos filmes, durante todo o mês, de acordo com a lei estadual 18.798/2016, sancionada ano passado pelo então governador Beto Richa. Esta é uma das peças da campanha, que será levada para internet e outras mídias. O Dia Nacional de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes é 18 de maio, o que faz com que esse seja o mês de enfrentamento a essas violações de direitos.
A campanha é constituída de etapas, com materiais direcionados a cada público e para mídias específicas. Para crianças e adolescentes, a ação será divulgada em mídias sociais, também com apoio de influenciadores, e em salas de cinema, antes de cada sessão. Também terá comunicação externa nos maiores municípios, em outdoors, com as imagens em ônibus do transporte coletivo.
A NEGLIGÊNCIA responde pela maioria das notificações para crianças até 12 anos e, a partir de então até os 19 anos, é a violência física que predomina
DENÚNCIAS
Dados do disque-denúncia 181 informam que, de 2016 para 2017, o número de denúncias de violência contra crianças e adolescentes aumentou 37,6%, saltando de 843 para 1.166.
No ano passado, foram denunciados 49 casos de trabalho infantil, 3,61% do total; 64 de fornecimento ou uso de álcool ou outras drogas, 4,71%; 80 de violência psicológica ou moral, 5,89%; 324 de negligência ou abandono, 23,86%; 413 de violência física, 30,41%; e 428 de violência sexual, 31,52%.
O Sistema de Informações de Mortalidade registrou, de 2006 a 2015, diminuição de 24,78% em mortes por causas externas, relacionadas a violência ou negligência na infância e adolescência. Na comparação entre 2011 e 2015, a queda é de 20%. Os acidentes com meios de transporte são a causa externa que mais mata dos 5 aos 14 anos, com 42,8% do total de 2011 a 2015, e as agressões dos 15 aos 19 anos, com 51,2%. Nas agressões estão incluídos ferimentos por armas brancas ou de fogo.
Os atendentes do telefone 181 encaminham as denúncias, de acordo com o caso e a urgência, para o Conselho Tutelar, a Polícia Militar ou outro órgão da rede de proteção. Por esse serviço, disponível em todo o Estado, o denunciante tem sua identidade preservada.

