Por Mariana Honesko
O clichê “água é vida” cai como luva
no Dia Mundial. Hoje, a comunidade internacional volta-se para as condições do líquido mais nobre, e em alguns territórios quase escasso, à sobrevivência. Na reflexão da quantidade potável disponível, nascem novas dúvidas. A principal abre um leque de interrogações. “Será que os esteróides são tratados? Eles se diluem ou se multiplicam pela subdivisão? Temos plantação de fumo, de batata, culturas que usam muito agrotóxico para a produção. Onde isso vai parar? Esses elementos são tratados ou não?”, elabora o professor de Hidrogeografia do campus em União da Vitória da Unespar, Gilberto Gonçalves.
As perguntas não aparecem com respostas e nas Cidades Irmãs, vem causando uma onda de discussões, especialmente entre os profissionais da área ambiental. Muito mais do que o consumo sustentável, o que eles querem saber, de fato, é como o manancial do rio Iguaçu aceita o despejo diário de elementos químicos. Além dos esteróides, a preocupação envolve o destino de agrotóxicos e anticoncepcionais. Para Gonçalves, pensar em alternativas é muito mais que uma emergência. “É um assunto que as pessoas precisam refletir ao longo de toda sua vida. Precisamos repensar a questão da qualidade da água”, afirma.
O técnico em Meio Ambiente, Osni Schoroh, joga em seu time. Ele também é um defensor da análise mais profunda da qualidade disponível na região. O assunto parece ter solução simples mas, conforme os especialistas, análises mais detalhadas demandam estudos e dinheiro. Além disso, nem todos os laboratórios aparecem aptos para isso. Schoroh não parece ter dúvidas das condições questionáveis. “Somos a única cidade que faz a captação e tratamento da água do Iguaçu. Outras cidades em torno do rio não fazem uso dela”, diz, justificando seu posicionamento.
Como profissional, ele acredita que nem todos os elementos lançados no rio são passiveis de tratamento. Para entender melhor: imagine uma grande peneira filtrando a água do Iguaçu. Os furinhos “seguram” o que é maior, porém, deixam escapar elementos pequenos, mas nocivos. “A Sanepar (Companhia de Saneamento do Paraná) faz o tratamento que é orientado por Lei mas será que essa lei não está atrasada?”, questiona. Gonçalves apoia a mesma linha. “As empresas de tratamento de água seguem religiosamente aquilo que as normas determinam mas a gente sabe que a água é um agente transportador de outras coisas. É ai que vem o questionamento”, avalia.


A Sanepar garante que a água é boa e que ela não vai faltar. Segundo o gerente regional, Bolívar Luiz Menoncin, até o Verão, que acaba de se despedir, fechou com saldo positivo. “Ninguém ficou desabastecido. A gente teve um período com temperatura alta com consumo maior. Mesmo assim, a gente conseguiu abastecer todos”, diz. Conforme Menoncin, contudo, o comportamento sustentável não é perfil da comunidade.
A popularização das grandes piscinas e dos hábitos de limpeza, por exemplo, fazem saltar os índices de consumo e nem mesmo os pedidos de economia são atendidos com prontidão. “Quando a gente solicita economia, a resposta não é rápida”, comenta.
Dia Mundial da Água
A data foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1992. Ela tem como meta discutir propostas para a utilização do recurso. A preocupação, que ganhou até data, justifica-se. Segundo a ONU, menos de 1% do total de água no planeta é potável e boa parte das fontes está contaminada ou degradada por conta de ações predatórias.
Além de discutir soluções, no dia 22 de março de 92, a ONU também divulgou o documento “Declaração Universal dos Direitos da Água”, que apresenta uma série de medidas, sugestões e informações para despertar a consciência ecológica.
Mais do que pensar, o Dia da Água é um convite à ação.
Fontes alternativas de captação
Os defensores ambientalistas vão além do pedido de estudo da qualidade da água. Eles querem, ainda, um levantamento sobre o uso de fontes alternativas de captação. Além do Iguaçu – ou na eliminação dele como fonte – o grupo aponta o Aqüífero Guarani, uma reserva subterrânea de água doce, localizada na região Sul. Ele ocupa uma extensão de terra de 1,2 milhão de metros quadrados e está protegida de contaminações e infiltrações.
Preservação como rotina
Nas Cidades Irmãs, a água não está com os dias contados. Mesmo assim, a adoção de comportamentos sustentáveis, pode incrementar a durabilidade do recurso. Além de economizar, vale também ficar atento ao cotidiano e aos vazamentos, vilões do consumo. Segundo estudos, por exemplo, uma torneira que pinga o dia todo consome 46 litros, o que é suficiente para um bom e longo banho de chuveiro. Os vazamentos – nas torneiras, canos e vasos sanitários, por exemplo – representam 15% do consumo do dia.
Fotos: Bruna Kobus e www.ondeficaportouniao.blogspot.com.br