Por Mariana Honesko

A história da artesã poderia seguir um roteiro quase clichê de quem começa com os trabalhos manuais. Neste caso, porém, o enredo é bem diferente. Filha de uma artesã de mão cheia, Márcia sorri ao contar como os fios e agulhas entraram em sua vida. “Com a minha mãe e avó, aprendi o básico. Mas este bordado aprendi sozinha”, orgulha-se Márcia Aparecida da Silva Ortiz Tonkio.
Não foi apenas os passos solitários que fazem a artesã suspirar. Na verdade, é o grau de dificuldade do ponto, o pouco conhecido “hardanger”, o que a faz estufar o peito. O ponto é capaz de fazer criações pouco convencionais usando apenas fios e agulhas, material básico e quase primário de qualquer outro trabalho em bordado. “E eu adoro fazer”, sorri. O resultado são traços que parecem terem sido pintados com um fino pincel. “Se você errar um buraco apenas, tem que começar tudo de novo”, explica. A dificuldade da produção aumenta especialmente na etapa final. “Quando a gente tem que cortar o tecido. Preciso ter uma tesourinha bem fininha na mão e acertar o corte”, detalha.
As primeiras peças não foram bem aproveitadas. Hoje, contudo, trilhos de mesa, toalhas e até material decorativo para armários, ficam prontos em poucos dias – sim, o trabalho é longo e uma única peça consome até cinco dias – e com acabamento impecável. Mais do que vencer o desafio de aprender sozinha uma nova técnica, Márcia comemora sua própria transformação. “Eu era impaciente, nervosa. E agora aprendi a ser mais calma, tranquila”, sorri. A persistência também é outra qualidade adquirida em meio aos fios e tramas. Segundo Márcia, a vontade de acertar lhe custou algumas horas de sono. “Nos primeiros dias eu ia dormir de madrugada, até quando eu terminasse a peça”, lembra.
A artesã foge às regras: diferente de algumas outras colegas, ela não precisa de gráficos ou moldes para aprender um novo estilo. Basta olhar algo pronto para que logo a mente grave todos os detalhes. Márcia é autônoma, trabalha com a venda de cosméticos e tem no artesanato sua distração. Além do bordado, ela também produz peças em tricô, crochê e eventualmente ajuda sua filha – outra descendente dos trabalhos manuais – com a pintura em madeira. “Faço de tudo um pouco”, conta.

A produção delicada também exige atenção de quem vai levar as peças para casa. Nenhuma das produções pode ser colocada na máquina de lavar roupas, por exemplo. É preciso cuidar da limpeza de modo quase artesanal. O hardanger é natural da Noruega, envolve bordado de fios contatos. Tradicionalmente, era usado para roupas, bonés e aventais. A precisão na contagem dos pontos é o que torna a técnica um pouco complicada. Se houver erro de cálculo, o melhor é voltar e começar de novo. Há formas de consertar a trama, mas nem sempre o resultado é o ideal.
Onde encontrar a peça?
A exposição dos trabalhos de Márcia está na Arte do Porto, no primeiro andar da Fundação de Cultura de Porto União, na Rua Sete de Setembro.