Por Mariana Honesko

Ela faz questão de deixar claro que a ideia não é dela. Mas, suas peças tampouco são cópias. Nas Cidades Irmãs, o trabalho chama a atenção pela ousadia e criatividade. Afinal, quem pensaria em pintar pedras? Solange Moretti Kasteller pensou. Com pincéis nas mãos e boas doses de tinta acrílica, garante tons populares em telas nem tanto assim. Para ela, a pedra é matéria-prima e o encontro delas uma terapia. “Nos domingos, depois de cuidar do jardim, a gente sai procurar”, conta. A “gente”, um plural do cotidiano, refere-se especialmente ao marido, companheiro da artesã há 24 anos e, conforme ela, um amigo e apoiador de suas traquinagens pela arte. “Sem ele não faria nada. Ele apoia tudo”, sorri.
Seu trabalho com pedras ganhou visibilidade na exposição que promoveu a Casa Cultural Aníbal Khury, em Porto União. Os motivos mais lúdicos agradaram a comunidade. Corujas, sapos, frutas e santos foram pintados nas partes planas e até nas nervuras das pedras. Nem o rosto de Frida Kahlo, de quem Solange é fã de carteirinha, foi esquecido: os traços fortes da pintora mexicana estão nas pedras.
Não é só nelas. Solange aprecia tanto o estilo forte de Frida que ousou ao imprimir suas emblemáticas frases em outra criação sua. “Meus coletes. Eu procurava algo diferente e aí surgiram eles”, conta. As peças, diferentes das pedras, não estão disponíveis ao público. A artesã tem especial xodó por duas delas. Os coletes servem ainda para mostrar outras habilidades criativas de Solange. “Esse aqui que estou, por exemplo, era uma calça jeans do meu filho. Pedi para fazerem um colete e eu bordei tudo”, mostra, com orgulho.

Solange é, de fato, múltipla. Além de apostar na pintura das pedras, a artesã respira habilidade. Por isso, define-se como uma artista nata, desde sempre. “Eu aprendi desde o tradicional, como o bordado, o tricô. Eu sempre gostei da casa de avó, do aconchego. É simples, mas tem um astral diferente”, diz. Mas, Solange ainda não sobrevive apenas com a venda do artesanato. É um sonho, embora distante. Por isso, as criações ficam limitadas aos horários de folga. Aos 46 anos, a artesã é cabeleireira e a profissão ocupa boa parte de seu tempo. “Gostaria muito de viver apenas do artesanato mas ainda não é possível”, diz. Em horário comercial, as criações são inspiradas apenas nas madeixas de seus clientes.

Outras inspirações
Solange passeou com vocação na área musical. A habilidade também é nata. “Não sei ler partitura, nada. É tudo de ouvido mesmo”, sorri. O que sabe, contudo, agrada. Amante das músicas MPB, é com o filho, de 17 anos, que encontrou uma parceria interessante. As apresentações são tímidas, ainda limitadas aos convites de amigos e populares em festas mais intimistas. “Eu gosto de cantar para que as pessoas se emocionem. Eu gosto da reação delas. Não tem recompensa maior”, afirma. No coração da artesã tem um lugar especial para a música, Melodia Sentimental, de Villa-Lobos. Cantá-la, diz Solange, foi algo que a surpreendeu. A música, tão presente em casa, também embala suas criações.