Por Mariana Honesko

Airton Leonel Lima tem 50 anos. Recebe os visitantes com desconfiança, mas, ao se sentir confortável, sorri com facilidade. Há 13 anos, mora no barracão que servia como deposito de carvão e mictório dos ferroviários daquela estação. Ele chegou ali por acaso. Ou destino.
Filho de pais moradores do interior de União da Vitória, Airton tentou a sorte na cidade. A partir daí, sua narração é um tanto confusa. “Vim sozinho. Fiz “bicos” e acabei fazendo as duas faculdades”, conta. Os diplomas comprovam esta parte de sua vida. Airton é graduado pela Faculdade Estadual de Ciências e Letras (Fafi), hoje campus da Unespar, em História e Matemática. É, portanto, professor. “Lecionei apenas por duas semanas, no interior de Mallet. Na época a logística de transporte tinha ficado ruim e eu acabei desistindo”, conta, com boa fluência e verbos bem conjugados.

Depois da tentativa frustrada de estar na sala de aula, Airton voltou aos “bicos”. Trabalhou, inclusive, na recuperação da Maria Fumaça. Ele garante que não recebe ajuda governamental. A Ação Social da prefeitura de União da Vitória também desconhece seu cadastro nos programas locais ou federais. Ocorre que os dias até então tranquilos do professor podem acabar. É que o barracão onde vive, ainda que sem água e luz está justamente no meio do terreno que o Senac usa para construir suas novas instalações. As obras estão avançando e a derrubada do barracão e o despejo de Airton soam inevitáveis.

Projeto
De acordo com o secretário de Planejamento da prefeitura, o nome de Airton já está no cadastro da Companhia de Habitação (Ciahab). “Ele será realocado”, confirma, Jamar Clivatti. Não há previsão, contudo, para que isto ocorra. Todas as ações dependem do projeto que o Sesc/Senac definirem como oficial. “Ele é um projeto grande, com vários blocos, área esportiva”, lembra Clivatti.
Estima-se que o investimento em 22 mil metros quadrados, ao lado da linha ferroviária, chegue aos R$ 15 milhões. A unidade do Senac em União da Vitória conta ainda com laboratórios, lanchonete, sala de aula e auditório para 150 pessoas. A previsão é para que as obras de construção do prédio comecem até o final deste ano.
Maria Lúcia Ragugnetti Perszel, técnica em Educação Profissional da Unidade, recebeu com surpresa a notícia que ali, justamente no terreno que nasce para capacitar, mora um homem com qualificação. Ainda assim, Maria Lúcia demonstrou sensibilidade com a história, anotou o nome de Airton e deve discutir o destino profissional do professor com seus superiores. “Realmente não sabíamos, mas vamos ver o que é possível”, sorriu.


