
O trecho é sinuoso, com neblina e movimentado: a combinação ideal para o aumento das chances de acidentes. Isso tudo fica ainda mais evidente quando o motorista não respeita limites de velocidade, quando deixa de usar o cinto de segurança, quando bebe e dirige. O trecho da SC 418, que liga Campo Alegre à Serra Dona Francisca e, depois, à BR 101, registra há apenas dois dias (dados de segunda-feira, 4) um trânsito sem mortes. A última, foi no sábado, e envolveu um nome bastante conhecido para os moradores de União da Vitória. No dia 2, o ex-prefeito e ex-vereador da cidade, Fernando Bohrer, 65, perdeu a vida em um acidente automobilístico.
Há três anos, um acidente mais grave ainda tirava a vida de 51 passageiros de um ônibus de turismo, também de União da Vitória. Os passageiros estavam à bordo do Costa & Mar, empresa com sede em São Cristóvão, com destino ao litoral. Em uma das curvas da Dona Francisca, o motorista teria perdido o controle do veículo. O ônibus caiu em uma das ribanceiras, marcando aquele dia, em março, como data de um dos maiores acidentes automobilísticos do País.
Apenas estes dois exemplos confirmam a má fama do trecho. Contudo, o endereço rodoviário é um dos principais para quem busca o litoral, por exemplo. Não tem jeito: quem mora acima da serra, vai precisar encarar o endereço, uma vez ou outra.
Como mostrou o jornal A Notícia, entre 1º de janeiro e 13 de abril deste ano, foram registrados 155 acidentes na SC 418 do km 0, na ligação com a BR 101, em Joinville, ao KM 67, divisa de Santa Catarina com o Paraná. Desses, 39 ocorreram na Serra Dona Francisca (KM 12 ao KM 17). Os números são 24% e 18%, respectivamente, maiores que o registrado no mesmo período de 2017, quando houve 125 acidentes em todo o percurso da SC-418 e 33 acidentes na Serra. “Neste ano, já foram registrados 229 acidentes, com quatro mortes e 120 feridos. Principalmente na Serra Dona Francisca e no trecho conhecido como ‘Curva do Rio do Júlio’, são pontos críticos, onde ocorrem os acidentes mais graves”, confirma o subtenente do Posto Rodoviário Policial de Campo Alegre, Sandro Moecke. De acordo com o militar, os acidentes são maiores nos feriados prolongados. “Principalmente pelo descumprimento das leis de trânsito de quem trafega. Na SC 418, o limite de velocidade é de 80 km/hora, mas muitos não respeitam isso, assim como fazem ultrapassagens perigosas”, ressalta.
Santa Catarina é o segundo Estado com mais registros de acidentes de trânsito com vítimas nas rodovias federais, atrás apenas de Minas Gerais. Esta é a revelação da pesquisa divulgada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) apresentada nesta semana. Estradas sem manutenção, falta de sinalização adequada, obras, baixo efetivo de policiais e formação inadequada são apontados como os principais causadores de acidentes nas estradas federais que cortam o Estado.
No total, foram 7.017 acidentes com vítimas nas rodovias federais de SC em 2017 e mais de 79 mil casos na última década. O levantamento, que contabiliza dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e também do Ministério da Saúde, aponta ainda que 381 pessoas morreram nas estradas que cortam o Estado no ano passado.
Aumenta o número de brasileiros que admitem beber álcool e dirigir
Dez anos após a implementação da Lei Seca, um dado chama a atenção: de 2011 a 2017, a frequência de adultos que conduzem veículos motorizados após terem ingerido qualquer tipo de bebida alcóolica aumentou 16% em todo o País. Em um conjunto de 27 cidades pesquisadas, 6,7% da população adulta referiram conduzir veículo motorizado após consumo de bebida alcoólica. Os homens (11,7%) continuam assumindo mais essa infração do que as mulheres (2,5%)
As informações fazem parte da Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) realizada pelo Ministério da Saúde em todas as capitais. O resultado reflete respostas de entrevistas realizadas de fevereiro a dezembro de 2017 com 53.034 pessoas maiores de 18 anos.
A maior prevalência foi observada entre os adultos de 25 a 34 anos (10,8%), e com maior escolaridade, chegando a 11,2% entre aqueles com 12 ou mais anos de estudo. A capital com menor frequência desse comportamento foi Recife (2,9%), e a maior foi Palmas (16,1%). Com relação ao consumo abusivo de bebidas alcoólicas, a prevalência sofreu alta de 11,5% entre 2006 (15,7%) e 2017 (19,1%).
Observando por sexo, o aumento foi encontrado apenas entre as mulheres, subindo de 7,8% em 2006 para 12,2% em 2017. Entre os homens houve estabilidade no período, mas eles continuam tendo maior prevalência que as mulheres, com 27,1% em 2017.
A Vigitel considera consumo abusivo, a ingestão de quatro ou mais doses de bebidas alcoólicas para mulheres, ou cinco ou mais doses para homens, em uma mesma ocasião dentro dos últimos 30 dias.
Dados do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) apontam que 32.615 pessoas morreram devido a acidentes de trânsito em 2017. O número representa queda de mais de 13% em relação à 2016, quando foram registrados 37.345 óbitos. Neste mesmo ano, dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) foram registradas 181.021 internações devido aos acidentes de trânsito. Os procedimentos custaram aproximadamente R$ 260 milhões.
Santa Catarina no ranking nacional
Se levar em consideração a taxa de óbitos por cem mil habitantes, Santa Catarina também aparece entre os Estados com as rodovias federais mais mortais do País. Em dez anos, a taxa superou a marca de 7,5 mortes. Apesar dos números alarmantes, a quantidade de vítimas fatais em 2017 foi a menor nos últimos 10 anos, revelou a pesquisa. Houve uma queda de 15% no número de mortes entre 2016 e 2017.
Entre as principais estradas federais que cortam Santa Catarina, as BRs 101, 470 (na região do Vale do Itajaí) e 280 (no Norte do Estado), são as mais violentas. Pesquisa da Confederação Nacional do Transporte mostra que na 101, no trecho próximo ao município de São José, na Grande Florianópolis, foram registradas nove mortes e 593 acidentes em 2017. O trecho é o 12º mais letal do País.