
A chegada de duas famílias indígenas ao Vale do Iguaçu chamou a atenção da comunidade e causou uma grande comoção, especialmente pela rede social. Tão logo se instalaram próximo dos trilhos, uma onda de solidariedade se espalhou. Foram vários compartilhamentos e em pouco tempo, cobertores, comida e roupas eram distribuídos para o grupo.
Mas, essa mobilização pode nem sempre ser saudável. Para as profissionais do Centro de Referência Especializado em Assistência Social (Creas), o auxílio voluntário faz com que os visitantes – e isso vale para quem quer que seja – fiquem mais confortáveis e não queiram mais ir embora. Todos, conforme o Creas, tem para onde voltar. “Nós cadastramos estas famílias conosco. Geralmente elas recebem auxílio do governo, tem Cartão SUS e, neste caso, todos os direitos que qualquer pessoa tem, eles também têm”, explica a assistente social Martinazo Moller.
Recentemente, por exemplo, um mapeamento identificou cerca de 20 moradores de rua. De todos, apenas um precisou ficar em abrigo. Os demais voltaram para suas casas ou para a casa de familiares. “Muitas vezes eles estão ali por vontade própria ou por causa do problema com a bebida”, afirma a psicóloga e coordenadora do Creas de União da Vitória, Marcelle Adréa Leite Pereira Rossa. Para ela, a situação é espinhosa: se por um lado é preciso dar atenção para quem está na rua, por outro, não se pode interromper o direito de “ir e vir” de ninguém.

Seja qual for a situação social, o Creas, ou os outros “braços” da Secretaria de Assistência Social, assiste. Os casos chegam à entidade a partir de denúncias, sugestões ou pela investigação das profissionais. A solidariedade precisa ser formal, ou seja, a doação de cobertores, alimentos ou roupas deve acontecer apenas em entidades organizadas, para evitar desperdícios, falta de controle e até excessos.
Os índios
Eles têm prazo para ficar na rede. A data, embora não divulgada, foi dada pelo próprio cacique da tribo que veio do Rio Grande do Sul (a outra família é da cidade de Manoel Ribas e veio em menor número de membros). O “chefe” esteve em União da Vitória há poucos dias e explicou que em breve um caminhão virá buscar o grupo que se instalou na linha férrea.
A medida, conforme as profissionais do Creas, garante especialmente o fim da evasão escolar das crianças que estão no acampamento improvisado. “Na tribo eles recebem ajuda do governo, da Funai e tem escolas só para eles. Quando eles vêm para outras cidades, para tentar vender o artesanato deles, até se recusam a colocar os filhos na escola de ‘brancos’, como eles dizem”, lembra Marcelle.
Vale lembrar que os grupos indígenas, embora vivendo em condições precárias, preferem que seja assim mesmo, para estar mais perto do jeito natural da etnia. Pés descalços, mesmo no frio, e liberdade, por exemplo, são perfeitamente normais para eles.