Por Mariana Honesko

Não há nada fora do lugar. Não há peça alguma sem um pedacinho de história, um cantinho de saudade. A casa do funcionário público – apenas na “carteira”, como diz sua esposa, Maria de Lurdes – respira organização e limpeza. Em um cantinho especial, aconchegante e pronto para receber os amigos, o restaurador tem alinhada as peças que veio garimpando ao longo de sua vida.
Seu “Zito”, ou como revela sua carteira de identidade, José Zito Alves, é natural de Rio dos Pardos, na bucólica Santa Cruz do Timbó, interior de Porto União. No sangue, carrega a descendência indígena. “Mas sou caipira”, define-se, com bom humor. Morador desde 1978 do bairro São Pedro, Zito trouxe consigo a vontade de perpetuar histórias. Assim, especialmente há dez anos, criou um jeito simples e único, de manter vivo o que já morreu. “Fiz amizades com catadores de material reciclável e peço que eles tragam para mim o que encontrarem de diferente”, revela. A caça ao tesouro tem ainda outros meios. Zito recebe doações de amigos e da família, guarda peças que já foram muito usadas. É o caso, por exemplo, de um exemplar belíssimo de uma pequena máquina de costura. Ela funciona, tem até agulha em posição e sua função garantiu a lotação de vários guarda-roupas.
Mas, Zito tem paixão especial pelas ferramentas e instrumentos musicais. Foi justamente por ter um carinho nato e uma aptidão de berço, que a diretora da Casa Cultural Aníbal Khury não teve dúvidas ao recrutar seus serviços para um trabalho especial. O restaurador, que só repara obras por hobby, não teve como recusar o convite. De pronto, disse sim e abraçou a missão. “Posso dizer que é meu mais importante trabalho”, sinaliza. O elogio é digno: em suas mãos, o violão que pertenceu à Orlando Milis, ficou mais afinado e muito mais bonito. “Não tive o prazer de conhecer o professor Orlando mas esse trabalho foi um presente”, sorri.

A restauração foi lenta. Zito explica que precisou trabalhar com calma na madeira do instrumento. Ela estava bastante ondulada, por conta do tempo. O violão é da marca Giannini e entrega a habilidade de Milis. “Era um violão clássico. Dava para ver que ele gostava da música clássica. Dava para até pelas marcas deixadas no braço do violão”, conta. A maior parte da peça mantém sua originalidade. A exceção ficou com as cordas, substituídas por novas. Ao longo da restauração, a ideia de retirar o tampo de madeira havia sido cogitada. Logo, porém, a possibilidade foi descartada. “A história iria embora”, justifica.
A obra no violão exigiu mais de um mês de trabalho. O resultado é uma peça única, que vai descansar na Casa Cultural Aníbal Khury. Quem visitar o ambiente terá a chance de ver a imagem do músico ao lado de sua paixão. Zito garante que deixou a peça integra e pronta, inclusive, para ser usada. “Dá para tocar. Pode ser usado. Até eu fiz um barulho”, revela. “Só eu deixar”, replica a diretora da Casa Cultural, Terezinha Wolff. “Aposentado”, a peça vai mesmo apenas colher olhares e expressões de admirações. Tocar, de novo, é pagina virada.

Orlando Milis, o dono do violão
Nas Cidades Irmãs, Orlando é de uma família tradicional. Os familiares destacaram na política, nas artes e no jornalismo. O Comércio, por exemplo, é uma função de Hermínio Milis. No jornal, ainda, Orlando Milis trabalhou como diagramador e redator. Mas, era na música que encontrava sua alma. “O seu Orlando, além de ser um músico, ele compunha e também dava as aulas dele através de um solo cifrado. Até hoje os alunos utilizam o solo”, sintetiza Terezinha. Como bom músico, conforme a diretora, Orlando era um homem simpático, alegre e pronto. “E nos deixou cedo demais”, lamenta.
Sem tocar
O violão já está em exposição. “Mas sem que as pessoas toquem. É um violão para ser apreciado. As pessoas vão conhecer a história do seu Orlando e do violão”, sorri Terezinha. Além disso, a preservação da peça garante integridade ao trabalho do restaurador. O violão de Orlando Milis está há uma semana exposto na sala que carrega seu nome, na Casa Cultura, o Castelinho. Por lá, as visitas são abertas ao público, gratuitas. O Castelinho fica aberto de segunda à sexta-feira, no horário comercial.
Sem som
O violão de Orlando Milis estava há algum tempo no Museu Salustiano Costa Junior, em Porto União. Com a mudança de endereço do espaço – da rua 15 de Novembro o museu migrou para a secretaria de Cultura, na rua 7 de Setembro – ele ficou um pouco escondido. A retirada do ambiente e sua colocação no Castelinho garantiram fôlego à história.