Unidade da Petrobras de São Mateus corre risco de fechar

Possibilidade foi levantada por vereador e funcionário da Six. Futuro econômico da região sul do Estado pode ser afetada drasticamente com o fechamento

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Atualizado há 11 anos

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(Fotos: Divulgação Petrobrás).

São Mateus do Sul, distante cerca de 86 quilômetros de União da Vitória, é conhecida no cenário nacional como capital do Xisto. As mais de cinco décadas de exploração na região são responsáveis pelo título. No entanto boatos de que a unidade da Petrobras de Industrialização de Xisto – a Six – pode fechar, coloca em xeque o potencial econômico da região.

O assunto foi levantado pelo vereador Omar Picheth. Ele, que também é funcionário da Six, disse que unidade pode fechar por “inanição”.

Conforme os dados apresentados por Picheth, desde o ano passado os investimentos vêm diminuindo. Os valores que já chegaram aos R$ 100 milhões ao ano não passaram dos R$ 15 milhões em 2015.

Ainda segundo o vereador há um grupo de estudos técnicos que analisa o desempenho da unidade, assim como a possibilidade de fechamento ou desaceleração de investimentos em outras unidades espalhadas pelo Brasil.

Em São Mateus do Sul a usina trabalha, conforme Picheth, com a exploração de apenas uma mina e que novos investimentos para exploração não foram anunciados para 2016.

A assessoria de imprensa da Petrobras nega a possibilidade de desativação e não confirmou nenhum dos dados repassados pelo vereador, nem mesmo a criação de um grupo de estudos dentro da empresa. Em nota a assessoria informou que a Six irá fechar por aproximadamente 30 dias para manutenção. O intervalo de parada é chamado, tecnicamente, de Oil to Oil e é praxe em todas as unidades da Petrobras. “Será realizada manutenção dos principais equipamentos do parque industrial, garantindo o atendimento da norma de segurança NR13, do Ministério do Trabalho, que trata da operação de caldeiras e vasos de pressão. A execução do trabalho de manutenção irá envolver cerca de 600 pessoas, metade das quais funcionários especializados em caldeiraria, soldagem, montagem de andaimes, mecânica, inspeção de equipamentos e serviços gerais, contratados especialmente para a parada”, diz parte da nota.

O início da manutenção está marcado para o dia 13 de fevereiro.

2-SIX__3_Na página da companhia na internet, a Six aparece como geradora de óleo combustível, nafta, gás combustível, gás liquefeito e enxofre. Ainda produtos que podem ser utilizados nas indústrias de asfalto, cimenteira, agrícola e de cerâmica. A usina também funciona como um centro avançado de pesquisa na área de refino, onde são desenvolvidos vários projetos em conjunto com o centro de pesquisa (Cenpes) e universidades. O parque tecnológico da unidade é o maior da América Latina e um dos maiores do mundo em plantas-piloto.

Frente política

Logo após o boato tomar conta da cidade, prefeito, vereadores, deputado estadual e comerciantes se reuniram para discutir a necessidade de manter ativa a usina.

Segundo o prefeito Clóvis Ledur, a informação do fechamento chegou por “fontes de fora” e que o executivo está em diálogo com a direção local da Six. Também foi criada uma frente política em defesa da usina liderada pela senadora Gleisi Hoffmann e composta ainda pelo deputado João Arruda – líder da bancada dos deputados federais do Paraná na Câmara – e pelo ex-integrante do Conselho Administrativo da Petrobrás, Márcio Zimmermann. “Aguardamos a evolução dos estudos dentro da Petrobras. Nosso esforço e empenho em Brasília é para que não se altere em nada o funcionamento da unidade em São Mateus do Sul – temos um contexto socioeconômico e uma história a defender e vamos fazer isso com todos os esforços necessários”, disse o prefeito.

Todos perdem

Para comerciantes, a desativação da Six pode deixar em queda livre a econômica local, além de afetar a continuidade de projetos importantes na região, como a instalação do gasoduto que prevê a construção de 156 km de rede entre Araucária e São Mateus do Sul.

4-SIX__7_Em União da Vitória impacto também seria sentido. Em novembro do passado, quando a cidade comemorava a classificação no ranking das melhores cidades de 2015 da Istoé, o prefeito Pedro Ivo Ilkiv colocou quatro metas como caminho para o sucesso. Os pilares, estipulados nos bastidores, são projetos vislumbrados num ambiente macro, com investimentos milionários, que demandam tempo, tecnologia e gente qualificada. Hidrelétrica, aeroporto, gasoduto e indústria da fibra do pó de basalto compõe o pacote. As duas últimas dependem – boa parte – da capacidade de São Mateus. Com a chegada do gasoduto na cidade vizinha o trecho de ampliação da rede seria direcionado para União da Vitória. E com a instalação a cidade estaria pronta para receber outro investimento milionário, a tecnologia do pó de basalto. A intenção é utilizar de compositores na base da fibra do basalto para produzir vergalhões e grades. Esses são apenas dois segmentos de produção com a fibra do basalto, que serão colocadas no mercado de construção civil nacional e internacional. A tecnologia também seria exclusiva da região que exportaria o produto para as Américas. O investimento seria feito em conjunto com a empresa russa CJSC e a brasileira Ekosolos, de União da Vitória. A fusão daria corpo a Basalto Brasil Compositores (BBC).

Do outro lado São Mateus possui ainda mais dependência da usina. Cerca de 40% da economia da cidade gira em torno da instalação. Por ano, são quase R$ 5 milhões arrecadados em impostos e outros R$ 13 milhões em royalties. A unidade tem mais de mil funcionários, cerca de 400 são próprios e pouco mais de 700 terceirizados. Só em 2015 a unidade da Petrobrás em São Mateus do Sul gerou R$ 80 milhões em impostos estaduais.

GrXXficoXPetrobrasX01O saneamento básico da cidade também depende da Six. É para um terreno da usina que é enviado o lixo produzido pelos moradores.

Sucessão de crises

Essa não é a primeira vez que a usina corre o risco de ser desativada. No início dos anos 90 a fase ruim também alimentou boato de fechamento. Na época a explicação se dava pelo corte de investimentos, já que a unidade não correspondia com geração de lucros.

Outros problemas surgiram em fevereiro de 2013, quando o Ministério Público do Paraná (MP/PR) emitiu uma liminar para fechamento imediato da usina. O MP considerava que a fábrica causava danos ambientais e prejuízos à saúde da população. Anos depois, em fevereiro do ano passado, a Agência Nacional de o Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) multou a Petrobras em R$ 188,4 milhões pelo não pagamento de uma dívida referente aos royalties da exploração de xisto na cidade.

 

Perdeu valor

A Unidade de Negócio de Industrialização do Xisto (SIX) existe desde 1954. Em 1972, foi construída a primeira usina de processamento no Paraná e, em 1991, a tecnologia foi consolidada com a entrada em operação de um novo módulo industrial.

O xisto extraído passa por um processo industrial criado pela estatal para gerar petróleo. A formação tem alguma relação com o gás não convencional produzido nos Estados Unidos, mas os processos são diferentes. Ao contrário da estrutura que gera o chamado “shale gas”, as reservas de xisto do Paraná estão mais perto da superfície e, por isso, já liberaram todo o gás – porém retêm óleo.

No entanto, a menor profundidade permite que a Petrobras extraia a rocha por mineração. O material é então quebrado e exposto a altas temperaturas para produzir petróleo. No caso americano, são feitas perfurações profundas para liberar o gás.

Diante de duas crises do petróleo nos anos 70, a estatal desenvolveu essa tecnologia para garantir que o País tivesse acesso ao insumo numa época em que ainda não haviam sido identificadas grandes reservas em território nacional. Com as descobertas de petróleo pela empresa, a unidade do Paraná perdeu relevância.

Tanto a técnica desenvolvida pela Petrobras quando a do “shale gas” têm apresentado preocupações quanto a riscos ambientais no Brasil.

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