Elas gastam dinheiro, recurso que as vezes nem tem ou que tiram de si, para alimentar um cachorro de rua, para construir uma casinha para outro, para comprar remédios para mais um. É assim, silencioso e voluntário, o trabalho que os protetores dos animais fazem.
Espalhadas pelo País e pelo mundo, eles tão são reconhecidos no Vale do Iguaçu. Através da rede social, esses amantes dos peludinhos – das peninhas e do courinho também – unem-se pelo amor. Uma rede de proteção vai se criando e numa troca de favores e de informações, mais animais são ajudados.
Acontece que o ciclo é sem fim. Especialmente quando a proteção é para cães e gatos. Abandonados nas ruas, vivendo soltos e sem castração, o controle de natalidade se torna impossível e assim, cada dia, mais e mais filhotes aparecem, miando ou latindo, pedindo comida e afeto.
E é por conta desses obstáculos e diante de capítulos que nunca chegam ao fim – e que se repetem – que os protetores também adoecem. “Salvamos um, mas ao redor, muitos ainda sofrem a dor do abandono e da fome. Já me peguei pensando em desistir, pois acumulamos muitas contas em clínicas, animais em hotéis, em casa. Quase abandonei a faculdade para pagar as contas dos resgates, mas quando você para e respira um pouco, pensa: se existem tantos sofrendo, se eu parar o que vai ser do que eu irei conseguir ajudar?”, narra Wanessa Witiuk, que desde pequena ama os bichinhos mas que há seis anos está realmente envolvida com a causa.
Wanessa Wituk cuida dos bichos desde pequena e há seis anos, abraçou a causa com mais dedicação (Fotos: Reprodução).
Seu depoimento é compartilhado com outras colegas, que carregam a mesma bandeira. “Estou sempre deprimida. Não me conformo quando chego tarde num caso. Sei que não vou salvar todos”, conta, com coragem, a voluntária, Marlene Goulart. Com fibromialgia, Marlene já foi orientada a reduzir o ritmo. Mas, diante de tanta demanda, ela se nega. “Não consigo porque é uma força maior que eu”.
Fabiana Forte tenta imprimir em suas atitudes de socorro, a mesma força do seu sobrenome. Mas, ela admite que não é fácil, na verdade, é uma luta diária. “Fico deprimida e sem entender. Como o ser humano está cada vez pior! O que me desanima é a indiferença e a maldade do ser humano. Pelos peludinhos não desistimos, mas se fosse pensar no ser humano sim”, conta ela que, conforme conta, leva bicho para casa desde que se reconhece por gente.
Compartilha do mesmo sentimento a voluntária, Ana Cristina Zasnieski. Ela, que sempre cuidou por conta própria dos animais de rua, encontrou cumplicidade no trabalho feito pelos grupos de protetores, já formados no Vale do Iguaçu. Foi em 2014, quando o socorro aos animais teve um agravante: a enchente. “Quanto a questão de maus tratos está cada dia pior. Precisamos que esta questão seja trabalhada em sala de aula, pois as crianças são o futuro e eles cobram dos pais a forma correta de cuidar”, defende.
Sentimos de ansiedade e de tristeza provocados pelo cuidado com os animais não são raros. Na verdade, artigos e matérias sobre o assunto vem povoando a mídia, especialmente recentemente, quando a causa, já especial, se tornou mais notória.
Conforme as publicações, pessoas dedicadas ao bem-estar animal carregam um peso ainda maior do que quem trabalha com algum tipo de assistência por conta de particularidades do trabalho com animais, como a possibilidade de eutanásia e o contato com seres que viveram dor e sofrimento, mas não podem comunicar suas necessidades e experiências. É a “fadiga por compaixão”, algo cada vez mais comum entre as pessoas que se unem pelo bem dos animais.
“Geralmente essas pessoas que fazem esses trabalhos sociais, são pessoas que já tem um perfil de terem mais empatia. Quem tem mais empatia, é normal que elas acabem sendo afetadas pelo sofrimento alheio. Então, não tem uma receita de bolo, uma orientação que diga como não sofrer por isso, como não me deprimir”, defende a psicóloga, Daniele Jasniewski. Para a profissional, o sentimento de afeto é característico de quem é mais materno e paterno. Quem é assim, tende a sentir mais, justamente porque não querem ver o sofrimento do outro.
“Num outro viés, se a pessoa está tendo mais prejuízos do que benefícios neste ano de cuidar dos animais, seria importante reavaliar se ela está no lugar certo. Nem sempre a gente desempenha o que se gostaria por não ter condições disso”, recomenda. E quem entende que sim, que o preço pago não é alto demais, vale a dica a seguir: “Por mais que a gente sofra quando perde ou vê o sofrimento, tem a parte boa, que são os casos de sucesso, os resgates bem-sucedidos”, sinaliza Daniele.
A ‘fadiga por compaixão’, uma denominação recente, defendida por alguns pesquisadores americanos ainda não está consolidada na literatura científica ou em classificações internacionais. No entanto, entendendo o que sentem os voluntários, fica mais fácil decifrá-la: acredita-se que a fadiga por compaixão combine características e apareça quando uma pessoa se sensibiliza com o testemunho ou narrativa da dor do outro – inclusive quando esse outro é um animalzinho.
“Estou sempre deprimida. Não me conformo quando chego tarde num caso. Sei que não vou salvar todos”
Deixando a tristeza de lado
Para não pirar, é importante prestar atenção aos sintomas. Conforme Daniele, se o sofrimento for intenso demais, talvez o trabalho –e mesmo o voluntariado – precisa ser revisto. Para quem não quer deixar a causa, talvez uma saída será ficar apenas com a parte boa. “Por exemplo, cuidar quando o cãozinho já passou por um acolhimento, ou cuidar da arrecadação de rações e não colocar a mão na massa, aquele primeiro momento”, sorri a profissional. O importante é não se deixar abater, mesmo que seja difícil. “Profissionais que trabalham com situações pesadas precisam ter uma válvula de escape, precisam! A gente lida com situações pesadas e se não tiver essa pressão de tudo que a gente vê, a gente se afeta, porque somos seres humanos”.
“O que me desanima é a indiferença e a maldade do ser humano”
Eles sentem o que você sente
Conforme publicou a revista Veja na edição do dia 19 de junho, os animais – neste caso especifico, os cães – acompanham o estado emocional dos seres humanos. Por isso, não são raros os casos de cachorros que acompanham seus donos até o leito de morte, transformando túmulos em sua casa. E o carinho dos humanos pelos pets é recíproco. Dados do IBGE mostram que 44% dos lares brasileiros são habitados por um cachorro. Os gatos são queridos também e estão em 17,7% das casas.

Uma pesquisa realizada na Suécia, como mostrou a Veja, revela uma extraordinária semelhança entre os índices de stress registados em cachorros e seus donos. Um levantamento anterior, feito em 2015 no Japão, mostrou ainda que uma simples troca de olhar entre cães é humanos é suficiente para estimular, em ambos, a produção de oxitocina, substância responsável pela sensação de apego e de prazer.
Histórias da Redação
Na confecção da matéria, as colegas da redação do jornal O Comércio, Eduarda Benvenutti e Gaby Cesco, compartilharam suas experiências sobre seus bichinhos, ex-moradores de rua.
Duda é dona da Lala, uma cadelinha adotada pela família ainda em 2013. Na casa de Gaby, é a Nina (embora essa possa não ser a identidade real da bichana), uma gatinha que adotou a família há cerca de um ano e meio, quando a família se mudou para uma nova casa e no imóvel, a gata já reinava.
“Depois de trabalhar em situações estressantes, se permitir viver momentos de prazer. Cada pessoa possui um ritual de restituição diferente, para uns pode ser atividade física, uma boa psicoterapia, outros podem preferir passar momentos gostosos em família, ouvir boa música, uma massagem relaxante. É preciso procurar outros olhares. O fundamental para quem trabalha com situações tristes, é se permitir a vivência do oposto do sofrimento e do estresse, ou seja, viver momentos de prazer e relaxamento”, da psicóloga, Daniele Jasniewski




