Quando a vontade perde a força

Levantamento mostra que dependência química começa com consumo de álcool. Recuperação nem sempre é fácil

Por Mariana Honesko

Drogas - CAPA - CópiaEntre um gole e outro, a festinha fica mais animada, as cores mais nítidas e o ritmo bem mais embalado. Mas, o que causou tanto bem estar, logo desperta alguém furioso e valente, capaz de furar sinaleiros, agredir o amigo, acabar com o próprio casamento ou com a vida de um pai de família. Quando não tem mais efeito, a bebida abre as portas para drogas mais fortes. De acordo com entidades ligadas ao atendimento de dependentes químicos, nas regiões mais interioranas o álcool abre o caminho para que novas e mais drogas sejam aceitas. O perfil é diferente da preferência de quem mora nas capitais.

Segundo recente pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas, nos grandes centros o crack é a “bola da vez” com preferência para 35% dos viciados em drogas. O estudo mostrou que cerca de 370 mil brasileiros de todas as idades usaram regularmente a droga ao longo de seis meses. Em União da Vitória e Porto União, o crack não é preferência, mas há exceções.

Na Fundação Hermon, que trabalha com a reabilitação de dependentes, a droga aparece ao lado do álcool no ranking de preferência. Já a cocaína aparece em terceiro lugar. Informações do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de Porto União, por outro lado, mostram que o álcool ainda é a droga que abre as portas para o consumo de substâncias mais potentes. “O álcool é o primeiro de tudo. Você não consegue encontrar um usuário do crack que não tenha começado com o álcool”, explica a psicóloga e coordenadora da instituição, Deise Dembinski Melo. No município, a mair parte dos dependentes é alcoolista, tem entre 18 e 60 anos e é homem. No mês de agosto, cerca de 40 pessoas procuraram a entidade em busca de ajuda.

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Tatu já ficou internado outras vezes, mas voltou a pedir ajuda

No lado paranaense dos trilhos, a situação se repete. Em União da Vitória, o álcool aparece como estopim da dependência. No entanto, é comum quem tenha na bebida sua primeira e única preferência. É o caso, de José Batista de Oliveira, o popular “Tatu”. Aos 37 anos, ele exibe uma aparência bem mais velha, e amarga mais de 20 internamentos. “Para mim, a bebida é igual água”, diz, de cabeça baixa, na Hermon que cuidou de seus tratamentos.

Conhecido nas instituições de apoio pelo número de vezes que precisou de ajuda e pelo episódio de violência em que se envolveu e quase lhe custou a vida, Tatu busca por um novo tratamento. “Mas não é fácil”, lamenta. O homem começou a beber aos 12 anos. De lá para cá, não parou mais, apenas aumentou as doses e o tempo de embriaguez. Órfão, Tatu mora com uma prima. A idosa Ivone Ferreira da Souza, aos 60 anos, responde também por outros dois cunhados doentes. “Mas é mais fácil cuidar deles do que ele bebe”, lamenta. No auge de sua dependência, Tatu teria provocado uma briga em via pública. Sem condições, acabou sendo ferido com violência. Seu rosto ficou desfigurado e até uma intervenção cirúrgica foi necessária. Nesta semana Tatu voltou à clínica HJ, referência na cidade e na região para tratamento de dependentes.

É preciso querer mais do que os outros

Recuperar-se do vício não é uma tarefa muito fácil. Os dependentes só se tornam assim por terem no organismo uma pré-disposição pelas substâncias.  Além disso, existem os fatores hereditários. De acordo com a equipe da Adad, descendentes até à quarta geração podem ser influenciados pela vontade de consumir o que é ilícito e causa dependência. Libertar-se é possível, mas depende de muita força de vontade. “A partir do momento em que eu digo que me amo, que me respeito e quero parar, eu paro. Não é fácil, são conquistas ao longo do dia. Temos histórias fantásticas de quem conseguiu se recuperar. Tenho exemplos dentro da minha casa. Não é fácil, mas basta querer que é possível”, sorri Salete.

Droga lícita e perigosa

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Salete Venâncio acredita na recuperação de quem realmente busca ajuda

“Arrisco a dizer que 99% dos usuários de outras drogas experimentaram primeiro o álcool”. A avaliação da coordenadora da Associação de Apoio para Dependentes de Álcool e outras Drogas (Adad), Salete Maria Venâncio, é baseada nos casos que toda semana endossam a lista de atendimentos especializados. “O traficante percebe isso e oferece algo a mais para quem está tomando bebida alcoólica”, explica.

Lítica, a droga que pode ser comprada em qualquer estabelecimento comercial, tem na liberdade legal e nos preços suas aliadas. “E você não precisa tomar escondido, como as outras drogas. Você pode comprar e tomar na praça, na rua. Ninguém vai fazer nada contra isso”, acrescenta Salete.

O consumo do álcool nas Cidades Irmãs também aparece associado ao comportamento cultural dos municípios do interior. “A bebida é um objeto de luxo. Em qualquer festinha, churrasco, tem bebida junto. É algo cultural mesmo”, avalia.

Mapa da pesquisa

O trabalho da Fundação Getúlio Vargas foi feito com base em dados coletados em 2012 com 25 mil moradores das capitais. As pessoas foram visitadas em suas casas e responderam às perguntas sobre suas redes sociais. O perfil dos usuários de crack nas capitais, regiões metropolitanas e em cidades de pequeno e médio porte, foi levantado. A maioria da população que usa regularmente droga é solteira, 60%, e homens, 78%. De acordo com a pesquisa, esse é o maior e mais completo levantamento feito sobre o crack.

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