Vorcaro perguntou a Moraes se deveria deixar o país antes de prisão

Mensagens extraídas do celular do banqueiro mostram conversas com o ministro dias antes da primeira prisão, em novembro de 2025

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Atualizado há 4 semanas

Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, mostram que o banqueiro consultou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), sobre a possibilidade de deixar o Brasil antes de uma eventual prisão.

Foto: Reprodução/Rosinei Coutinho/STF

Em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de ser preso pela Polícia Federal, Vorcaro enviou uma mensagem a Moraes perguntando:

“Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Na sequência, questionou se o juiz responsável seria Ricardo Augusto Soares Leite e perguntou se o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, tinha conhecimento da situação.

Segundo investigadores, as conversas indicam que Vorcaro recebia informações sobre o andamento das apurações e possíveis medidas cautelares relacionadas à Operação Compliance Zero.

Mensagens antes da prisão

As conversas entre Vorcaro e Moraes começaram, segundo o material analisado pela Polícia Federal, em 4 de novembro de 2025. Naquele dia, o banqueiro perguntou se uma medida classificada como de gravidade média a alta poderia envolver busca ou quebra de sigilo.

“Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?”, questionou Vorcaro.

Ainda naquele dia, o banqueiro demonstrou preocupação com possíveis medidas contra o Banco Master e afirmou que uma ação naquele momento poderia comprometer os negócios da instituição. Ele pediu a Moraes que tentasse “bloquear toda maldade” e afirmou estar disposto a prestar esclarecimentos aos investigadores.

Em outra mensagem, Vorcaro disse que uma medida considerada drástica poderia “quebrar o banco de modo irreversível” e pediu que Moraes o avisasse depois de conversar com outra pessoa.

Pedidos envolvendo PF e PGR

Em 6 de novembro, Vorcaro enviou uma série de questionamentos ao ministro. Entre eles, perguntou como estava a situação, se havia conseguido “bloquear a maldade” e se seria necessário agir com urgência.

Na mesma conversa, o banqueiro mencionou seu advogado à época, Pierpaolo Cruz Bottini, e afirmou que havia sido feito um pedido para tentar direcionar o caso para determinada vara judicial. Vorcaro também pediu a opinião de Moraes sobre a estratégia jurídica.

No dia seguinte, 7 de novembro, o banqueiro afirmou que não tinha preocupação em tratar da parte técnica das investigações com os investigadores. Segundo ele, o problema seria a divulgação das informações, que poderia prejudicar os negócios do Banco Master.

Questionamento sobre deixar o Brasil

A conversa de 15 de novembro ocorreu dois dias antes da prisão de Vorcaro. Na ocasião, além de perguntar se deveria estar fora do país na segunda-feira, o banqueiro questionou se era o mesmo juiz Ricardo e perguntou se Gabriel Galípolo estava sabendo da situação.

No dia seguinte, 16 de novembro, Vorcaro voltou a procurar Moraes e perguntou: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”.

Naquele momento, a ordem de prisão preventiva ainda não havia sido assinada. A decisão foi autorizada pelo juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal, às 15h29 de 17 de novembro.

Prisão no aeroporto

Vorcaro foi preso pela Polícia Federal em 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Ele estava em um jato particular e tentava embarcar para Malta, com posterior destino a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Segundo investigadores, o banqueiro teria recebido informações sobre a prisão com antecedência significativa.

No mesmo dia da prisão, às 17h26, Vorcaro voltou a enviar uma mensagem a Moraes perguntando se havia alguma novidade e se ele havia conseguido “ter notícia ou bloquear”.

Respostas de Moraes não foram recuperadas

A perícia realizada no celular de Vorcaro não permitiu identificar o conteúdo das eventuais respostas enviadas por Alexandre de Moraes.

Segundo as informações divulgadas, os dois utilizavam um método de comunicação baseado em capturas de tela de textos escritos no aplicativo de notas do celular, configuradas para visualização única. Dessa forma, os investigadores conseguiram recuperar as mensagens enviadas por Vorcaro, mas não eventuais respostas ou comentários de Moraes.

Em uma das mensagens de 15 de novembro, Vorcaro demonstrou surpresa diante de uma informação recebida e escreveu: “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo”.

Naquele período, o banqueiro negociava a venda do Banco Master para um consórcio formado pela Fictor Holding Financeira e investidores dos Emirados Árabes Unidos. O negócio não foi concluído após a prisão de Vorcaro e a liquidação do banco pelo Banco Central, em 18 de novembro.

Desdobramentos da investigação

A Operação Compliance Zero, que inicialmente tramitava na primeira instância da Justiça Federal, foi posteriormente encaminhada ao STF.

Em dezembro de 2025, o ministro Dias Toffoli assumiu a relatoria do caso após o surgimento de informações sobre transações imobiliárias entre Vorcaro e o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), que possui foro por prerrogativa de função.

Toffoli deixou a relatoria posteriormente, após surgirem informações envolvendo a Maridt S.A., empresa ligada à família do ministro, e sua participação no resort Tayayá. Cotas do empreendimento haviam sido negociadas com fundos e pessoas relacionadas ao entorno de Vorcaro.

O ministro André Mendonça passou então a ser o relator do caso. Parte do material reunido pela Polícia Federal teve o sigilo retirado e foi encaminhada para manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Vorcaro já teve duas tentativas de acordo de delação premiada rejeitadas pela Polícia Federal e pela PGR e, segundo as informações divulgadas, busca uma terceira oportunidade para colaborar com as investigações.

Procurados sobre o conteúdo das mensagens, Alexandre de Moraes e a defesa de Daniel Vorcaro não se manifestaram.

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