ZONA SUL: Desenvolvimento: bairros em transformação

Limeira e comunidade ainda conhecida como ‘Serrajão’ tem na regularização fundiária e na organização social, a esperança de dias melhores

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Atualizado há 9 anos

 

(Fotos: Mariana Honesko).
(Fotos: Mariana Honesko).

Não dá para esconder a realidade. Mesmo com os avanços na infraestrutura e até com a mudança de perfil dos moradores, algumas localidades da Zona Sul de União da Vitória ainda são estigmatizadas pelo passado. Até hoje, é comum endereçar pessoas de índole duvidosa e até situações do gênero como sendo dos bairros Limeira e, mais recentemente, da comunidade conhecida como ‘Serrajão’. Contudo, esse tipo de expressão, assim como as regiões mencionadas, está mudando e já está bem distantes de suas origens populares.

Essa desmistificação territorial se deve, em grande parte, à organização das localidades. Isso vem devolvendo a dignidade para o local e, principalmente, para quem escolheu ali para viver, construir sua casa, seu negócio, sua família. Mais recentemente, trabalho da Companhia de Habitação (Cihab) da cidade, mapeou cada terreno, colocou tudo no papel e deu aos moradores o direito legal de mexer no seu quintal, de ter acesso à linha de crédito bancário e de negociar o ambiente no mercado imobiliário, sem qualquer restrição.

“O ‘Serrajão’ é do tempo da primeira gestão do prefeito Pedro Ivo [Ilkiv]. Toda essa população morava com um Termo de Consentimento de Moradia. Para evitar tributos estaduais na doação, a prefeitura fez um projeto de regularização fundiária com a venda dos empreendimentos no valor de R$ 1 para cada morador”, conta a vice-presidente da Cihab, Marilda Pattene Machnick. Ela explica que uma parceria com o Centro Universitário da Cidade de União da Vitória (Uniuv) resultou nas medições dos terrenos. A cerca de cada um foi respeitada e colocada como limite entre um vizinho e outro. “Nós fotografamos todas as famílias para se enquadrar nos requisitos da ação social. No ‘Serrajão’, apenas dois imóveis ficaram de fora: um comércio grande e um escritório de uma construtora. No Mansur e no União, apenas uma casa da Mitra ficou de fora”, explica Marilda. Em novembro de 2015, os contratos de compra e venda – entre moradores e prefeitura – foram entregues, em uma grande solenidade pública. “Esse pessoal está tranquilo”, sorri a vice-presidente.

SerrajXXoX00O mapeamento também organizou as invasões, bastante comuns na década de 80, após a cheia de 1983. Desabrigados, moradores das áreas alagadas procuraram áreas mais altas para morar. É o caso do bairro Limeira, que nasceu a partir da saída dos grupos moradores de locais de risco. O nome da comunidade é uma homenagem aos paulistas da cidade homônima que, na época da enchente, ajudaram com doações para a cidade. “O Limeira foi medido e distribuído, onde os moradores tiveram possibilidade de fazer a escritura, dentro de um prazo. Muitos foram, mas outros não. O prazo extinguiu e, com isso, quem não fez a escritura, usa o Termo ainda”, observa Marilda. Esse Termo segue válido na prefeitura: quando um morador desiste da moradia, ele precisa procurar a Cihab para que o nome do novo proprietário do local seja inserido no documento.

‘Serrajão’ e Limeira caminham com as próprias pernas. De comunidades alimentadas socialmente, passaram a ser respeitadas e ter dignidade. Em ambas as comunidades, há serviço de Correios, saneamento básico, água, energia elétrica e coleta de lixo. No ‘Serrajão’, ainda falta asfalto, algo que sepultaria de vez as características que o batizaram: o terreno, por conta da serragem liberada pelas industrias de madeira que estão ao lado da comunidade, é macio, impedindo até mesmo a construção de imóveis com dois pavimentos. Daí o nome ‘Serrajão’.

No caso do Limeira, os avanços já são maiores. O bairro, antes conhecido como Malvinas por conta dos conflitos evidentes no começo de sua formação (o nome era uma referência à Guerra das Malvinas, em andamento na época da migração dos moradores ribeirinhos), tem vida própria. A comunidade tem duas escolas, mercado, pequenos comércios, posto de saúde, linha de transporte coletivo. E sim, os conflitos diminuíram consideravelmente, fruto da mudança dos rostos, agora mais mesclados e povoados por famílias.

Mas, mesmo apesar dos avanços especialmente das últimas três décadas, ambas as comunidades ainda têm uma longa caminhada, tanto para desmistificar as raízes do passado quando para pavimentar um futuro melhor.

Comunidade

O ‘Serrajão’ cheira à serragem. O barulho das fábricas se camufla com o som sertanejo ouvido pela maioria dos moradores. As máquinas das empresas também se mesclam aos pequenos imóveis do lugar. As casas são pequenas, geralmente habitada por famílias e agregados: são 6,8,10 pessoas dividindo quatro ou cinco cômodos. Alguns trabalham com a reciclagem. Outros, em empresas de papel e madeira. Em alguns lares, a mãe é quem coloca dinheiro na mesa. Em outros, são os filhos os provedores. Ainda tem quem dependa do governo e seus programas para ter pão nas refeições. A vida ali passa devagar, mas passa, como muita coisa que já passou. No Serrajão, o sentimento ainda é de esquecimento, não exatamente por parte do Poder Público, mas pela própria comunidade. Os moradores alegam não serem chamados “para nada”, de não participar de qualquer decisão coletiva.

O Limeira está bem distante das Malvinas. É um bairro grande, com mais de dois mil eleitores, segundo a comunidade. Falta asfalto, falta uma ponte mais estruturada (leia mais no box). Sobra autoestima, da maioria pelo menos, de gente que cresceu ali, que montou sua casa e construiu sua família no Limeira.

Em ambas as comunidades, as visitas políticas são raras, com exceção das eleições. Nestas ocasiões, todos os candidatos lembram do caminho e visitam os moradores. Após a vitória – ou derrota – os endereços voltam para a gaveta para não serem mais visitados.

Projetos sociais no Cras

Para atender aos moradores do Serrajão e do Limeira, o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do bairro Rocio oferece uma série de cursos. Embora a comunidade lamente a falta deles no próprio bairro, a oferta concentrada, em uma região bem próxima, está disponível. Todos os serviços são gratuitos. Conforme a equipe do órgão, há aulas de violão para crianças e adolescentes, Jovem Aprendiz, grupo de idosos e atividades específicas para mulheres. As ações acontecem de segunda à sexta, de manhã e tarde. Para saber mais ou entender como participar, basta ir até o Cras ou ligar para o 3522 0968.

Entenda a região

ponteXLimeiraO loteamento Mazurechen é o nome técnico da comunidade chamada de ‘Serrajão’. A popular, ‘Casa dos Bispos’, é oficialmente o loteamento Mansur. Praticamente junto, está o loteamento União. As divisas são inexistentes para os leigos, até para a comunidade. Contudo, tecnicamente, existem linhas que separam um endereço do outro.

Ponte

No Limeira, o pedido da comunidade é antigo. Ela quer uma ponte mais estrutura na rua Estefano Berejuk. O perigo é eminente para os veículos e até para quem passa a pé. Há algum tempo, os próprios moradores fizeram a manutenção da ponte simples, de madeira. Contudo, o trânsito de carros e motos aumentou, e o espaço, que já era inseguro, se tornou muito mais. Nos períodos de chuva, a água do rio invadia a ponte, deixando o trecho intransitável. Segundo os moradores, a prefeitura e os vereadores têm conhecimento dessa necessidade.

 

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