
A mensagem do título tem sido frequentemente repetida pelo governador Raimundo Colombo. “Tenho dito para minha equipe que não teremos, a partir de 1º de janeiro, um governo de continuidade. Que ninguém fique acomodado! Temos que ter muito claro o compromisso de fazer mais e de fazer melhor.” Ele se prepara para o novo mandato a partir de 2015, mas 2014 foi um ano difícil. Colombo enfrentou uma herpes-zóster na região do olho esquerdo em plena campanha eleitoral. Após reeleito em primeiro turno, ao fazer um check-up no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, teve o diagnóstico de entupimento de três artérias e foi imediatamente submetido a uma angioplastia para o implante de três stents, pequenas próteses que evita a obstrução total dos vasos. “Foi um susto”, admitiu em entrevista exclusiva que concedeu ontem para a Coluna Pelo Estado, em seu gabinete na Casa D’Agronômica. Após a entrevista, em um bate-papo informal, deixou claro que 2018 está longe de seu foco e que não almeja ser senador, ainda que a possibilidade não esteja de todo descartada. “Já estarei com 63 anos e só assumirei um novo compromisso desse porte se for para cumprir uma missão.”
[PeloEstado] – O que muda nas secretarias regionais de Desenvolvimento e que vai favorecer especialmente os municípios de pequeno e médio porte, que têm mais dificuldades de receita?
Raimundo Colombo – A ideia é fortalecer as secretarias regionais e melhorar o desempenho delas. Santa Catarina tem um modelo muito positivo de distribuição demográfica e para combater a concentração em determinadas regiões temos que tomar medidas importantes. A Agência Regional de Desenvolvimento, que estamos prevendo, deixa de ser apenas uma gestora dos órgãos públicos para liderar novas prioridades nas comunidades. Vamos fazer seminários de desenvolvimento regional, já a partir de março, onde vamos reunir todos os segmentos e discutir área por área, de energia, de saneamento, de rodovias, de saúde, de educação…, e vamos fazer um plano específico para cada região. Por isso a visão de uma agência regional de desenvolvimento. Vamos fazer um processo por quatro anos. Já conhecemos algumas necessidades, mas queremos debater com as comunidades. Queremos que a sociedade acompanhe, participe e defina as prioridades junto com a gente. Não queremos saber o que as pessoas esperam do governo, mas o que o governo pode fazer junto com a sociedade.
[PE] – Como isso vai acontecer na prática?
RC – Por exemplo: nós queremos uma empresa aqui, com tal perfil, para aproveitar tal produto. Tá bom! Onde é que está essa empresa, onde é que a gente vai buscar, como é que a gente faz? Nós atuamos muito dessa forma, mas esporadicamente. Foi assim na crise da maçã, na crise dos suínos, no Porto de Imbituba… mas queremos trabalhar sempre assim. O governo como um todo, e não apenas o governador. Se formos discutir o problema da Educação em uma determinada região, o secretário vai ter que buscar a sociedade organizada para debater isso. Serão ciclos de palestras bastante intensos que darão suporte para o plano de execução de uma agência de desenvolvimento regional.
[PE] – O Fundo de Apoio aos Municípios (Fundam) deve se repetir no segundo mandato?
RC – Sim, nós vamos fazer um novo Fundam, porque muitas obras do primeiro ainda estão em andamento e serão concluídas ao longo de 2015. Alguns municípios ainda não assinaram, não venceram a burocracia. Assinamos recentemente com 40 municípios, ainda há obras para entrar em licitação. Portanto, i Fundam 2 deve sair no início de 2016. Vamos tentar manter as características do Fudam e também fortalecer o programa Cidades Juro Zero, do Badesc. Assinamos um grande pacote e em janeiro e fevereiro (2015) teremos mais assinaturas e em grande volume. Fortalecer os municípios e dar capacidade de realização para as administrações municipais são os focos desses dois programas.
[PE] – Receita, despesa e investimento. Vai ser possível equilibrar?
RC – O ano de 2015 virá com um ajuste fiscal por parte do governo federal. E precisa ser feito mesmo. Ainda não conhecemos a dimensão desse ajuste, mas sempre significa aperto e esse aperto vai trazer consequências para a arrecadação pública de estados e municípios. Primeiro vamos ter que entender como vai ser realizado esse ajuste fiscal para podermos nos adaptar. E vamos fazer a nossa parte aqui também, diminuindo despesas e custeio para poder enfrentar esse tempo de maior dificuldade que vem por aí. Hoje, no Brasil, 1.800 municípios não estão pagando o décimo terceiro salário. Em Santa Catarina nessa condição, mas há. E nós, Estado, estamos cumprindo todos os nossos compromissos, mas é tudo muito apertado.
[PE] – Em 2014 o senhor conseguiu um bom nível de investimentos.
RC – Foi um ano de grandes investimentos. O melhor do primeiro mandato. A parceria com os municípios por JOÃO RAIMUNDO COLOMBO
meio do Fundam e do Cidades Juro Zero foi extraordinária. Estão sendo asfaltados ao mesmo tempo 700 quilômetros de vias. E com grande capilaridade. Também comemoro o crescimento no nível de emprego. Santa Catarina foi o estado do país que mais criou empregos em números absolutos. Isso não caiu do céu! É resultado de muito trabalho. Chegamos a um ponto em que terminamos a fase de identificação, projeto, burocracia e as obras começaram a deslanchar e começam a ganhar visibilidade. Os nossos investimentos estão programados e temos os recursos assegurados. Por exemplo: nós temos hoje, no banco, cerca de 700 milhões de reais, de várias fontes, inclusive recursos próprios, para investir só em Educação e só em 2015. A nossa ideia é colaborar, no ano de 2015, que terá ajuste fiscal, fazendo obras para manter o nível de empregos. Já temos contratos assinados e os recursos disponíveis. Agora precisamos ser eficientes para fazer um contraponto em relação ao momento econômico do país. Temos muito dinheiro para investir! Temos o contrato de 1 bilhão de reais com o Banco do Brasil do qual não gastamos quase nada; o de 3 bilhões com o BNDES, pagamos uma dívida de 1 bilhão e não chegamos a investir outro 1 bilhão de reais. As obras estão andando, mas tudo ainda no começo. Tem obras da Educação, de reformas, ampliações e unidades novas, já com o projeto e a licitação. No dia 5 de janeiro já libero umas cinco ordens de serviço!
[PE] – Qual a relação que existe hoje entre receita e despesa e onde o senhor pretende chegar?
RC – Para você ter uma ideia, 25% do ICMS (Impostos sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) são dos municípios; 12%, vão para os poderes, 7,5%, antes eram 12%, vão para pagamento da dívida. Com o que sobra eu tenho que pagar a folha, pagar os inativos, que é outro problema muito grave, e fazer obras. Só com milagre! O Estado brasileiro está se inviabilizando.
[PE] – O senhor anunciou um enxugamento da máquina administrativa e chegou a anunciar que reduziria 500 cargos de confiança. O que projeta?
RC – Será muito mais de 500! Há um desgaste político grande com esse tipo de medida, mas todo mundo entende, hoje, que a gestão pública tem que ser mais leve, mais eficiente, e que não pode ter esse tipo de paternalismo político.
[PE] – Muito mais de 500? Quantos?
RC – Vou te dar um exemplo. Foi criada, há alguns anos, uma estrutura na Educação onde se tem um diretor, um diretor-adjunto, uma secretária e um
assessor de direção
A cobrança em cima da presidente Dilma, no meu entender, é exagerada.
em cada escola. São tantos profissionais envolvidos na administração que acabamos tendo que chamar ACTs (Admitidos em Caráter Temporário) para dar aula! Nós vamos acabar com esses cargos de assessor e só com essa medida serão 800 professores voltando para a sala de aula.
[PE] – A reforma administrativa já está pronta?
RC – Faltam os últimos retoques da minha parte e no final de janeiro já encaminho para a Assembleia Legislativa. Vamos fazer um seminário nos dias 9 e 10 de janeiro para apresentar todo o plano para a equipe.
[PE] – Qual vai ser a sua urgência para a aprovação da reforma administrativa?
RC – São projetos polêmicos, mas que envolvem uma lógica: diminuir os custos e aumentar a eficiência do governo. Acho muito difícil alguém não pensar dessa forma. Claro que todos nós vamos ser pressionados, mas temos que pensar na população como um todo. E o ajuste tem que ser feito.
[PE] – O senhor toma posse no dia 1° de janeiro com todos os nomes de todos os secretários definidos?
RC – Talvez não com todos os nomes das empresas, mas com todos os secretários, sim. É um problema de tempo. Mas hoje definimos que o deputado Moacir Sopelsa assumirá a pasta da Agricultura e o Carlos Chiodini (PMDB) vai para a Secretaria de Desenvolvimento Sustentável. O Acélio Casagrande retorna como secretário de Articulação Nacional, em Brasília. O João Carlos Ecker fica na Infraestrutura, com o Vanderlei Agostini como secretário-adjunto. O Deinfra ficará vinculado à Secretaria de Infraestrutura. O Paulo César da Costa (Costinha) permanecerá na presidência da SCPar, que deve absorver a Codesc. O Sérgio Gargioni permanece na presidência da Fapesc (Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação). E o Alexandre Waltrick continua no comando da Fatma (Fundação de Meio Ambiente). Estou muito satisfeito com o trabalho dele. Mas eu quero colocar mais mulheres na minha equipe e abrir o aspecto ideológico. Não quero uma coisa segmentada, mas sim que pessoas que pensam de forma diferente convivam e troquem experiências.
[PE] – O senhor se sente mais dono desse novo mandato, mesmo tendo tido o apoio de 12 partidos?
RC – É Muito mais dono. Agora estou mais seguro, conheço a máquina, amadureci e me sinto mais preparado. Isso dá uma segurança enorme. A gente sabe o que está fazendo. O começo é muito difícil.
[PE] – Por que a escolha de João Paulo Kleinübing para a Secretaria da Saúde e qual a orientação que passou?
RC – Vamos investir na Saúde em 2015 mais de 2 bilhões de reais, resultado da nossa receita. Precisamos continuar o trabalho que está sendo feito e aperfeiçoar cada vez mais, Continuar as obras dos hospitais e policlínicas, ativar os que já estão ficando prontos, e reduzir os custos. Os custos das Organizações Sociais (que administram vários hospitais do Estado) estão muito altos. Vamos tentar trazer para uma realidade mais compatível. A OS melhora a eficiência, porque opera de forma mais ágil. Decide e executa, enquanto nós, no serviço público, temos que fazer licitações e concursos que demoram pelo menos seis meses. O nosso problema está mesmo no custo. É inegável que temos problemas no atendimento da saúde, mas também é inegável que nós temos os melhores índices de saúde no Brasil, menos taxa de mortalidade infantil, maior expectativa de vida, maior número de transplantes, maior número de cirurgias eletivas em mutirões Então está tudo certo? Não! Há muito ainda o que fazer! A orientação ao Kleinübing foi para aperfeiçoar e profissionalizar a gestão, reduzir os custos para aumentar os investimentos em novos serviços, e buscar uma interação muito forte com os hospitais filantrópicos. E o que mais quero é a humanização do atendimento, que seja mais ágil, com mais conforto ao doente, com boa orientação. Vamos fazer muito, muito, muito treinamento. Nós vamos acabar com a licença-prêmio e transformar isso num processo de qualificação profissional.
[PE] – Acabar com a licença-prêmio…
RC – A cada cinco anos o servidor tem direito a três meses de férias. Isso cria um problema enorme. Ninguém na iniciativa privada tem esse direito. Vamos mudar isso para a participação em cursos de qualificação, de humanização, de comprometimento com a missão pública. É uma transformação importante para o governo. O direito das licenças-prêmio que não foram gozadas eu não posso tirar. A partir de agora, não terá mais.
[PE] – Passando para a Segurança. O presídio de Imaruí não sai mesmo?
RC – Está trancado na Justiça. E não deve sair Mas estamos trabalhando nas alternativas, construindo em Blumenau, a feminina de Chapecó e iniciando a de Tubarão, além da busca por soluções para a Grande Florianópolis.
[PE] – Em seu primeiro mandato o senhor reclamou muito da burocracia…
RC – É. A todas as pessoas que estou convidando para compor o novo governo, tenho o cuidado de mostrar onde é que a burocracia atrapalha e o que é que temos que fazer. Burocracia não é uma lei! Alguém a impõe.
[PE] – A solução passa pela reforma política?
RC – É um primeiro passo, mas também acho necessária uma mudança constitucional, sobre a qual hoje não se tem consciência, mas que daqui a alguns anos vai ser inevitável para corrigir algumas distorções que temos hoje. Até lá, algumas “meia-sola” vão sendo feitas.
[PE] – No novo Congresso Nacional vai ter clima para a reforma política?
RC – Vai ter que existir! Em fevereiro ou março, os desdobramentos da Operação Lava Jato, que investiga a Petrobras, vão alcançar a classe política e causar uma grande indignação popular. É a grande oportunidade para corrigir esses erros que estão aí. Não se pode ter uma democracia com 40 partidos. Isso não existe, não funciona e nunca vai funcionar. Uma medida simples é proibir a coligação na eleição proporcional, a outra, é o voto distrital. O voto proporcional que temos hoje tem um custo elevado e uma forma de financiamento que é a base da corrupção. São duas coisas simples e que tem que ser feitas ainda esse ano.
[PE] – E a reforma tributária?
RC – É algo muito complexo, mas alguns passos foram dados. Temos que desonerar a economia brasileira. Não acredito numa reforma tributária. Acredito em ações que possam simplificar e melhorar o modelo que temos. Temos 27 estados, cada um defendendo seus interesses, fica difícil chegar a um consenso para uma reforma tributária.
[PE] – Final de primeiro mandato. O que mais comemora?
RC – A coisa mais importante foi o Estado ter melhorado os seus números. Tem um pensamento do Papa Francisco que eu acho maravilhoso: ninguém dá atenção para a floresta que cresce todo dia. As pessoas só olham a árvore que cai. O governo precisa crescer todo dia e nós melhoramos os nossos indicadores em quase todas as áreas, seja emprego, educação, saúde, segurança pública. Fomos bem. Terminamos relativamente bem equilibrados financeiramente, o que nos permite ter condições de enfrentar os novos desafios. Tudo o que nós plantamos, chegou o momento de colher. O que vai ter de obra para inaugurar a partir de agora é uma verdadeira loucura! E a equipe também amadureceu. As pessoas têm todas as informações, todo o histórico do que deu certo e do que não deu certo. Temos um cenário muito bom pela frente!
[PE] – E o mais frustrante?
RC – A lentidão das obras. A inapetência de alguns que se envolvem no processo e que não trabalham para um curso rápido. Empresas que não cumprem os contratos, os prazos… a gente fica com vergonha, ás vezes, das pessoas. Isso dá uma angústia muito grande.

[PE] – O senhor conclui um mandato, entra para a história do Estado como o primeiro governador reeleito em primeiro turno, e ainda assim pediu para uma solenidade simples de posse. Por que isso?
RC – Faz parte do meu pensamento. Eu acho que todo luxo, toda opulência, tudo o que é exagerado cria na gente uma coisa falsa. Com coisas simples, você passa mais verdade para as pessoas. E você tem que guardar coerência entre o que fala e o que faz.
[PE] – Qual a expectativa da relação com a Assembleia Legislativa?
RC – Tivemos e continuaremos tendo boa relação com a Assembleia. Todo mundo quer o que eu quero: fazer o bem, fazer bem feito e de forma correta.
[PE] – E com o governo federal?
RC – Tenho uma expectativa muito grande com o governo federal. Eu tenho uma amizade coma presidente Dilma (Rousseff) que me dá um certo conforto. Ela é sempre muito atenciosa, tem um olhar carinhoso para Santa Catarina. E eu estou muito otimista com o que vamos poder fazer juntos pelo estado. E já estamos fazendo.
[PE] – Em que pese o clima ruim em torno da presidente e do governo federal, especialmente pelo caso da Petrobras?
RC – Ela não tem nada a ver com isso. Ela está cumprindo o papel dela, mandando investigar. A cobrança em cima da presidente Dilma, no meu entender, é exagerada. O que se quer que ela faça mais? Ela é uma mulher honesta e muito bem intencionada. Acho que ninguém no Brasil tem dúvidas disso.
Mensagem de Final de Ano
“Eu tenho uma formação cristã muito forte e o Natal, para mim, é um momento de rever amigos, mostrar carinho, gratidão, amizade, de ficar mais próximos dos que importam. É um momento de muita solidariedade. E também momento de meditar no que fez e no que poderá fazer melhor. Quero desejar um Natal de paz, de harmonia e de alegria. E que o ano de 2015, apesar dos desafios que teremos, seja um ano de sucesso, de prosperidade e de muita felicidade. Vamos lutar muito para fazer o nosso melhor!”