Em seis horas de votação, 585 votos foram depositados na urna peemedebista no sábado, 26. Desses, 359 assinalavam a continuidade da aliança do PMDB com o governador Raimundo Colombo e o PSD. Os outros 226 eram destinados à tese para que o partido iniciasse a construção de uma candidatura própria ao governo do Estado. A vitória, com 61,4% dos votos, chega perto do que foi previsto pelo senador Luiz Henrique da Silveira e pelo vice-governador, Eduardo Pinho Moreira, de dois terços dos delegados do partido.
Mais de duas mil pessoas, divididas visualmente quase que na mesma quantidade, passaram pelo Auditório Antonieta de Barros, na Assembleia Legislativa. A votação iniciou às 9 horas e terminou somente às 15 horas. O momento mais aguardado do dia, os discursos, foram acalorados e emocionantes. Dois ex-governadores foram escalados para a missão.
Paulo Afonso Vieira defendeu a candidatura própria. Lembrando a história do partido, cutucou os adversários, que ressaltavam a falta de nomes para concorrer ao governo. “Temos aqui dois senadores, o vice-governador, deputados federais, estaduais, quatro ex-governadores e o deputado federal mais votado da história de Santa Catarina (Mauro Mariani). Dizer que não tem ninguém à altura de ganhar as eleições, eu não aceito.” Irônico, Vieira afirmou que acreditar em cabeça de chapa para o PMDB, com o apoio do PSD, para 2018 é o mesmo que acreditar em Papai Noel e coelhinho da Páscoa.
Logo após, o senador Luiz Henrique defendeu a coligação com Colombo. “Eu quero eleger o governador do Estado, mas minha história me fez maduro o suficiente para ver que agora nós temos dificuldade nesse projeto”, destacou, enumerando razões. “Uma campanha de oposição exige crítica a um governo cujos setores importantes são comandados por nós. A Saúde, não é, secretária Tânia Eberhardt? A Justiça, não é, secretária Ada De Luca? A Infraestrutura, não é, secretário Carlos Ecker? Se sairmos, será uma tragédia.” Luiz Henrique voltou a afirmar que sua última grande ação política será eleger um governador do PMDB em 2018 e que, após isso, se aposenta da política.
Logo que a urna foi fechada, os advogados do partido e o presidente estadual da sigla, o vice-governador Eduardo Pinho Moreira, começaram a contagem dos votos. Às 15h35min, os defensores da manutenção da atual aliança chegaram ao voto de número 289, quantidade necessária para que fosse impossível reverter o quadro. A festa começou com tambores e cornetas.
Aos poucos, e ainda antes da proclamação do resultado final, os defensores de candidatura própria começaram a sair da Assembleia Legislativa. Um membro do partido provocou o ex-governador Paulo Afonso Vieira, o que gerou uma pequena confusão, que logo foi contida. Este foi o único caso de acirramento de ânimos em um dia inteiro de processo democrático partidário.
Próximos passos
Numa rápida entrevista após a proclamação do resultado e um telefonema de cumprimentos do governador Raimundo Colombo, o vice-governador e presidente estadual do partido, Eduardo Pinho Moreira, falou que há vontade de fortalecer o PMDB-SC, mas existem circunstâncias que precisam ser avaliadas. “Nós nunca deixamos de querer votar no 15. Ficou claro que o PMDB é um partido que se mobiliza, forte e que tem harmonia. Não houve desrespeito durante a pré-convenção, não houve agressão.” Para ele, agora o PMDB-SC terá a missão de compor o quadro para a disputa majoritária de outubro. “Agora vamos trilhar nosso caminho e definir, juntos com o governador, o quadro eleitoral deste ano.”
Um dos principais assuntos comentados durante a pré-convenção foi o ingresso do PP na chapa concorrendo ao Senado, ideia que foi rejeitada pelos dois grupos peemedebistas. De acordo com Moreira, o PMDB agora tem capacidade e legitimidade para debater a chapa com o governador Raimundo Colombo. “Vamos esfriar a cabeça e começar a discutir a coligação. Não existe condição de ter PP e PMDB na mesma chapa. Agora, juntos, PMDB e governador vão decidir pelo melhor caminho. O PMDB tem nomes competentes para concorrer ao Senado e que merecem ser avaliados.”
De passagem
O ex-governador Leonel Pavan (PSDB) compareceu à pré-convenção do PMDB, mas não se manifestou. Chegou no momento das defesas de teses, que ouviu atentamente: “Gostei muito do clima que eu vi. Fui lá para retribuir o carinho que recebi na convenção do PSDB, quando o Paulo Afonso e o Casildo Maldaner nos prestigiaram. Quanto ao resultado… não sei, agora, a fissura que vai ficar. Não sei avaliar”.
PP decidiu antes
O deputado Joares Ponticelli, presidente licenciado do PP-SC, avaliou que o resultado da pré-convenção dos peemedebistas é uma demonstração de que o PMDB aprova a forma como o governador Raimundo Colombo vem conduzindo o processo administrativo do Estado. A participação do PP na chapa majoritária, compondo com PSD para governo e PMDB para vice, foi várias vezes atacada durante o sábado. Ponticelli defendeu: “Respeito todas as manifestações do PMDB, mas o nosso encaminhamento está sendo construído desde 17 de dezembro do ano passado com Colombo e com o PSD. O PP recebeu uma proposta, de ocupar a vaga ao Senado, e a está encaminhando desde 17 de dezembro do ano passado, portanto bem anterior à decisão do PMDB. E, o que é mais importante, o PMDB deliberou por permanecer na composição sabendo que esse é o posicionamento do PSD, tornado oficial pela manifestação do presidente Gelson Merisio.” Ele disse ter conversado com o governador logo após a divulgação do resultado. “Tudo o que foi conversado até ontem fica mais fortalecido ainda a partir de hoje.”
Por meio de sua assessoria, o governador Raimundo Colombo classificou como uma grande vitória do PMDB a aprovação da continuidade na aliança nas eleições de 2014. “A vitória expressiva enaltece o trabalho realizado pelas lideranças peemedebistas em favor da tese da aliança”, destacou.
Também por nota à imprensa, Claudio Vignatti, presidente do PT-SC, disse que a base de seu partido está unificada no propósito de construir um projeto alternativo para o estado. “O PMDB é um dos partidos que estava incluído neste processo, através da abertura de diálogo. Mas o encaminhamento da pré-convenção do PMDB nos faz seguir por caminhos diferentes.” No final da nota, a manifestação de respeito pela decisão, com um porém: “Respeitamos aqueles que assim decidiram, ao mesmo tempo, lamentamos a decisão, já que o sentimento da base peemedebista era seguir outro caminho, que corresponda a envergadura da sigla e a necessidade de implantar um novo modelo de governança para nosso estado”.
Desmobilização
Após ver sua tese de candidatura própria derrotada, o deputado federal Mauro Mariani desabafou: “Enquanto o PMDB decidir por delegados, é impossível vencê-los. Não tem como. A máquina sempre vai vencer enquanto a decisão ficar restrita aos delegados”. Ele também deixou dúvidas sobre sua participação na campanha majoritária: “Com certeza não vou dar um tiro no pé. Trabalhar contra o meu partido… porque trabalhar para eles (PSD) é trabalhar contra o PMDB, é dar munição para eles em 2016. Agora estou descompromissado. Fizemos a nossa parte, mas, infelizmente, a vontade da base não foi respeitada pelos delegados e isso é inequívoco para quem andou pelo estado como eu. Teve diretório que a tese de candidatura própria ganhou por 45 a 0 e os dois delegados que vieram votaram pela continuidade da coligação”.
O ex-governador Paulo Afonso Vieira, que fez a defesa da tese para os delegados, afirmou que haverá desmobilização das bases. “Uma chapa de três candidaturas, governador, vice-governador e senador, onde nós só temos o vice, é muito pouco para entusiasmar e mobilizar”. Ele classificou o resultado como um fenômeno que vai ter que ser estudado pelos cientistas políticos: “Como é que um partido do tamanho do PMDB, da força do PMDB, com as lideranças do PMDB, com a história do PMDB, faz uma convenção e decide não apresentar candidato?” Ele disse não ter dúvidas de que o PP estará na coligação com PSD e PMDB para reeleger Colombo. “O que eu me pergunto é como os peemedebistas reagirão ao fato de o PP estar na coligação. Eu acho que uma boa parte do PMDB não vai fazer campanha.”
Por Nícola Martins e Andréa Leonora
ADI-SC/CNR/Central de Diários

